Sem plano de combate a incêndio e pânico aprovado, a Santa Casa de Campo Grande, contraditoriamente, coloca em risco as vidas que tem obrigação de salvar.
Responsável por atender pacientes de todo Mato Grosso do Sul, a Santa Casa, mais uma vez, abusa da importância que tem. Há, pelo menos, cinco anos, a unidade hospitalar opera sem plano de combate a incêndio e pânico aprovado pelo Corpo de Bombeiros. A irregularidade de meia década, como mostra reportagem do Correio do Estado, é alvo de procedimento do Ministério Público do Estado. A preocupação não é para menos. Por mês, são realizados cerca de sete mil atendimentos emergenciais e três mil procedimentos cirúrgicos. Coloque ainda nessa lista os 3,3 mil funcionários e 600 médicos que atuam no hospital. Sem um plano de combate a incêndio e pânico, a Santa Casa de Campo Grande, contraditoriamente, coloca em risco as vidas que tem obrigação de salvar.
Esse perigo vem sendo alertado pelo Corpo de Bombeiros desde 2013, quando a instituição foi orientada a adotar uma série de medidas para aumentar a segurança de pacientes e funcionários. Nada foi feito. A última punição sofrida foi em setembro de 2017, quando os bombeiros aplicaram uma multa de R$ 5,9 mil, aproximadamente, por não ter cumprido uma notificação do ano anterior. O valor, no entanto, é irrisório perto dos R$ 20 milhões, aproximados, que a Santa Casa gere mensalmente. A impressão que se tem é de que, sabendo da sua importância, a instituição opta categoricamente por não cumprir as exigências legais de segurança e prevenção a incêndios. O Corpo de Bombeiros tem o poder de interditar a unidade, como interdita tantos outros prédios em todo o Estado. Porém, o impacto seria devastador para a saúde de Mato Grosso do Sul.
Essa preocupação dos bombeiros com a situação do setor, caso o maior hospital do Estado fosse interditado, é válida. Postura que, por sinal, falta à administração da Santa Casa. Mais que um simples papel ou uma taxa recolhida, o plano de combate a incêndio e pânico tem como objetivo garantir a segurança daqueles que usam o estabelecimento em casos de um acidente com fogo. Resumindo, é estar preparado para o pior e se antecipar ao caos. Como uma unidade hospitalar que se orgulha de ser a quarta maior Santa Casa do País vai garantir a retirada segura de pacientes – muitos deles acamados – e funcionários, ou o controle da situação em caso de incêndio, quando há até extintores irregulares?
O tempo em que a unidade opera sem o plano de combate a incêndio marca o da tragédia da boate Kiss. Na manhã de 27 de janeiro de 2013, o Brasil voltou os olhos para Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para a maior tragédia do País, que resultou na morte de 242 jovens, maioria com apenas 20 anos. Rememorando esse caso, torna-se ainda mais fútil a alegação dada pela Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG) de que, mesmo gerindo uma receita mensal maior que a de muitos municípios do Estado, não tem recursos suficientes para realizar as adequações exigidas pelos bombeiros. O primeiro erro da Santa Casa é considerar gasto o que deve ser visto como investimento em segurança para os seus mais de 750 leitos e os pacientes que neles estão internados. Não era para ter preço. Mas já que tem, quem sabe, se o Corpo de Bombeiros tomar uma medida mais enérgica, alguma providência seja tomada.