Já expliquei várias vezes que não sou memorialista. Não sei se isso é defeito ou qualidade. Se é bom ou ruim... Mas não posso negar que sinto admiração pelas pessoas que têm boa memória, desde que não sejam aquelas que costumam usar a conhecida e lamurienta frase na ponta da língua: “No meu tempo”... etc., etc., etc. Porém, trago alguns fatos que presenciei ou que vivi ainda adormecidos sobre macias e rendadas nuvens que me habitam. E, de quando em vez, eles despertam e eu os vejo com tanta nitidez que é como seu eu estivesse voltando ao tempo... Revivo tudo, tudinho: cheiros, sabores, cores e sons. Outro dia, passei a tarde soltando minha voz interior, cantando em absoluto silêncio: “Eu tenho n’alma um vendaval sem fim... e uma esperança que hás de ter por mim o mesmo afeto que juravas ter... para que acabe este meu sofrer”, fazendo um perfeito e uníssono duo com a belíssima voz de soprano da minha mãe, moradora há tempos de outros planos, que gostava de cantar Patativa, do carioca, filho de italianos, Vicente Celestino.
Você já passou por essa experiência de deixar somente o pensamento cantar sem emitir qualquer som? Acredite: ele é o mais afinado e ritmado de todos os cantores e sua voz vai do contralto ao soprano, passando pelo mezzo. E se duvidar, mesmo sendo você uma mulher, a sua voz interior talvez possa ir do baixo ao tenor, passando pelo barítono. Não, não estou escrevendo sobre invasão de vozes externas que se aboletam confusamente nas cacholas de muitas pessoas. Essas, reconhecidamente e de um modo geral, dizem se tratar de algum sintoma patológico. Ou espiritual, sei lá.
Estou falando mesmo é sobre aquilo que o psicólogo soviético Vygotsky e o americano Skinner, de certa forma, já haviam tentado explicar: que a linguagem interior é mais ou menos uma variação da fala física do mundo lá fora e que todos somos cada vez mais capazes de internalizar a linguagem externa para pensarmos privativamente com nossos botões. No meu caso, para cantar com meus botões em alto e silencioso som. Nunca havia comentado essa minha cantoria secreta. Considerava-a assunto de pouca importância. Ou apenas assunto explicado pela ciência comportamental, coisa que, confesso, não me chama tanto a atenção, talvez pelo fato de não enxergar nenhuma poesia nela.
Mas, outro dia, conversando com o amigo Heitor, tomei conhecimento do livro “Terra de Mil Povos”, do escritor ambientalista brasileiro de origem indígena, Kaká Werá Jecupê, em que nos ensina, de maneira muito poética, os princípios filosóficos da cosmovisão indígena tupi-guarani. Assim, aprendi que, de acordo com esses povos índios, o mundo é regido por sons e tons e o alfabeto possui sete vogais: A, E, I, O, U, Y, sendo a sétima vogal o SILÊNCIO.
Em sua sabedoria, ensinam ainda que, quando uma pessoa permanece silenciosa, é capaz de ouvir todos os sons, inclusive o da sua própria alma, e que a garganta é a Sagrada Morada da Voz. Por isso, nas situações de grande desespero, de medo pela ameaça constante, do mundo dos brancos, de falta de perspectiva de uma vida em conformidade com sua cultura, de frustração diante das derrotas em suas lutas coletivas, caminham dignamente até uma árvore – que, se por um lado representa a mata protetora das aldeias, ao mesmo tempo é vista como o lugar dos mortos – e lá cometem suicídio por enforcamento, em um gesto simbólico de destruir sua Sagrada Morada.
Os motivos do suicídio dos povos índios são bem diferentes dos motivos dos povos não índios, que costumam tirar a vida, de um modo geral, por amores não correspondidos, problemas financeiros ou conflitos familiares, em uma ótica bastante individualista. Dito isso, que achei importante compartilhar, volto ao título desta crônica para dizer que me encontrei mesmo é nos ensinamentos poéticos contidos na cosmovisão dos guaranis, os teólogos da floresta, aprendendo que, se toda palavra tem Espírito, o Espírito, por sua vez, é o som silencioso da música. Senti-me alegremente aliviada, pois pude entender, depois de décadas, o meu mágico encantamento quando ainda pequena entrava quase em transe diante de um fio dourado de bom e puro azeite de oliva – único luxo do meu velho e humilde pai – a cair majestosamente sobre verdes folhas de alface, agrião e rúcula. Era nesse momento efêmero no tempo dos homens, mas infinito e pleno no Tempo Sagrado, que meu Espírito mais cantava em abençoado silêncio, enquanto minha família luso-italiana conversava ruidosamente ao redor de uma mesa com sopas, cozidos, polenta e macarrão. Estou em paz com minhas memórias. Aprendi com os tupis-guaranis que é preciso compreender o som para além de vibrações sonoras. Audível ou silencioso, ele é sempre a vida sagrada, a semente de luz, o próprio Ser acordando os corações para o Divino.
* Professora, cronista e poeta.