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Gilson Cavalcanti Ricci: "A morena de 119 anos"

Gilson Cavalcanti Ricci: <br>"A morena de 119 anos"

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Campo Grande fulgura no contexto nacional por seu rico patrimônio humano constituído por sua população ricamente cosmopolita. A cidade acomoda em seus quadrantes um peculiar contexto de pessoas vindas de várias partes do mundo, que aqui chegaram com suas famílias e se instalaram para viver com dignidade e paz. Poucas cidades brasileiras possuem tão distinto acervo humano, que a destacou no cenário do Novo Mundo como rumo certo a levas de imigrantes estrangeiros, que aqui chegaram notadamente 
a partir do fim do século 19.

Neste aspecto histórico, Campo Grande, guardadas as proporções, ombreia-se aos grandes centros populacionais do mundo, como Nova York, São Paulo e Buenos Aires, que receberam grandes contingentes de imigrantes europeus e asiáticos nessa mesma época. O pequenino vilarejo recém-nascido às margens do Anhanduy atraiu muita gente de fora, que ia chegando e se acomodava nos sítios periféricos. Não tardou a chegar grande número de imigrantes estrangeiros, predominando sírios, libaneses, japoneses e paraguaios, além de várias outras nacionalidades, que mesclaram suas línguas e seus costumes à população de nossa amada terra morena, tal como uma pitoresca Torre de Babel.

A cidade evoluiu admiravelmente com a rapidez característica das grandes metrópoles, com boa qualidade vida, sem favelas e sem aviltação de problemas sociais. Ver e ouvir os mais variados sotaques em Campo Grande constituem um atrativo à parte, que somente existe nos grandes aglomerados humanos do mundo.

Em pouco menos de um século, nossa bela cidade evoluiu em todas as atividades produtivas, chegando aos dias atuais com pujança material e humana.

Campo Grande progrediu graças à sagacidade de pessoas que vieram de longe e aqui deixaram o exemplo férreo de cidadania e amor ao trabalho, ultrapassando atualmente a mais de um milhão de habitantes na cidade e região metropolitana em franca evolução. A memória da cidade é rica de exemplos humanos, que deixaram para a posteridade as marcas de suas notáveis realizações. O nordestino Nelson Borges de Barros, o qual, do nada, conseguiu erguer na cidade um império no comércio de eletrodomésticos; o paulista Elias Gadia Filho, renomado esportista, que levou o nome de Campo Grande a fulgurar nos esportes nacionais; o lendário sírio Naim Dibo, que chegou aqui paupérrimo e se tornou o homem mais rico da cidade, graças 
a seu tino de comerciante bem-sucedido; o japonês Oshiro Takemori, que aqui chegou num vagão de segunda classe junto a imigrantes japoneses e, em pouco tempo, conseguiu ganhar fortuna com produção e comercialização do café, enriquecendo-se a ponto de projetar-se como um exemplar imigrante japonês, o que motivou o imperador do Japão a outorgar-lhe a comenda Zui Hosho – Ordem do Sagrado Tesouro em Raios Dourados e Prateados –, uma honraria que atinge não somente o laureado comendador, mas também todos os dignos habitantes de Campo Grande.

A história da cidade é rica de fatos interessantes. A vida noturna era muito monótona e quase inexistente. Anoitecia e as pessoas recolhiam-se em suas casas, deixando a cidade deserta. A opção era o cinema, que se resumia nas sessões do Alhambra, Santa Helena e Rialto. Ou então a boemia da “Rua Sete”, que não raramente acabava em tragédias. Nas noites de sábado, no coreto da Praça da Liberdade, aconteciam 
as retretas de bandas de música, que ofereciam às pessoas motivação especial para sair de casa. E no Carnaval, na Rua 14, a animação era patrocinada pelo bloco do Badu, pelas mariposas do Taíca e pela pândega do Nassura fantasiado de “bacalhau português”. Domingo à noite era o “footing” de rapazes parados no meio-fio da calçada a apreciarem as belezas das donzelas casadoiras no vai e vem
no asfalto da Rua 14.  Belos e inesquecíveis tempos aqueles! Parabéns à nossa amada Campo Grande!

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