Os problemas do sistema de saúde pública são facilmente citados, enumerados e detalhados por qualquer cidadão: falhas na estrutura, negligência em todo o processo de atendimento, desde o caso mais simples aos mais complexos e, claro, demora para oferecer a devida atenção ao paciente, sem contar a permanente falta de dinheiro de um setor que consome cifras bilionárias anualmente.
Há, alguns problemas, no entanto, que não dependem da complexidade em que o sistema de saúde se estrutura. Se os profissionais da área fossem mais zelosos em algumas situações, eles não ocorreriam, e o mau exemplo não era perpetuado.
Ontem, em Campo Grande, o maior hospital de Mato Grosso do Sul ficou praticamente todo o período da manhã sem energia. A causa (que poderíamos chamar de estopim) do apagão, foi um curto circuito em um dos setores da Santa Casa. A origem do problema elétrico - que poderia ter se tornado um incêndio - é muito mais profunda, e fácil de ter seus responsáveis apontados: trata-se do descaso e da negligência.
No início deste ano, o Correio do Estado havia denunciado que a Santa Casa funcionava sem os alvarás necessários, expedidos pelo Corpo de Bombeiros. Na edição de hoje, em que o incidente é relatado, lembramos que - mesmo após reportagem - nada foi feito pelo hospital, que continua funcionando, sem autorização.
A direção da Santa Casa, hospital que pertence à Associação Beneficente de Campo Grande, faz vistas grossas para qualquer denuncia referente ao descaso com a estrutura da unidade, por um motivo muito simples. Ele não tem concorrência na prestação de serviços de alta complexidade.
O poder público estadual, nunca teve a intenção de ampliar e equipar o Hospital Regional, nem a prefeitura de Campo Grande, gestora plena dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS), teve o interesse de assumir o HR, ou de construir seu próprio hospital. Tal cenário dá à Santa Casa a segurança de desprezar autoridades sérias e respeitadas, como os bombeiros militares.
O entendimento tácito é de que o interdição da unidade por falta de alvará provocaria danos muito maiores do que manter os pacientes correndo riscos contínuos, o que é lamentável.
Esperamos que, após o incidente de ontem, a Santa Casa de Campo Grande seja mais responsável, e use parte dos mais de R$ 20 milhões que recebe mensalmente, para se adequar aos limites da lei, o que todas outras edificações privadas têm o dever de fazer.
As autoridades municipais e dos bombeiros, e também o Ministério Público Estadual, devem ser mais enérgicos com a direção da Santa Casa, para que o curto circuito de ontem, não se transforme em uma tragédia muito maior. Quem fiscaliza, também é responsável.