Como esperar planejamento contra enchentes em uma cidade em que os vereadores demoram um ano inteiro para aprovar o Plano Diretor.
A existência humana no planeta Terra, de alguma forma, sempre é um desafio à natureza. Em uma mata ou em um campo que tem o cerrado como bioma, a ação dos fenômenos naturais causam alguns danos, claro, mas são sempre previsíveis e, mesmo quando fazem grandes estragos, eles são, de certa forma, cíclicos e previsíveis. É assim na natureza e nos locais onde o homem ainda não levantou casas e edifícios nem abriu ruas e vias subterrâneas.
Os fenômenos naturais são muito menos devastadores nas áreas em que a mão do homem pouco agiu. E é a partir desta premissa que o ser humano deve respeitar a natureza ao colonizar uma certa região. Todo engenheiro civil sabe que é o relevo, o regime de chuvas e o respeito ao meio ambiente que devem pautar seu trabalho. Na quarta-feira (3), Campo Grande foi vítima do que alguns chamam de tragédia da natureza e, outros, os que a entendem e a respeitam, de despreparo para encarar fenômenos, como as fortes chuvas.
A negligência das autoridades existe há décadas. O descaso mais recente é a falta de compromisso em se executar o Plano Diretor de Drenagem, elaborado em 2008. De lá para cá, Campo Grande teve três prefeitos, e nenhum deles se esforçou para tirar todas as obras previstas do papel (leia reportagem nesta edição). Pior atitude ainda tiveram os vereadores que se elegeram de lá para cá: nenhum deles se importou com o escoamento das águas da chuva. Talvez estivessem preocupados com outros escoamentos.
O que resta ao morador de Campo Grande, no momento, é fiscalizar para que as novas obras, públicas e privadas, respeitem os parâmetros exigidos pela legislação. Ao se abrir uma nova rua ou se levantar um edifício, é muito importante o estudo de todo o impacto que ele realiza não somente na vizinhança, mas em todo o sistema de drenagem.
Mas como esperar organização em uma cidade cujos vereadores – que já não se importam com um plano de drenagem que existe há 10 anos, que procrastinam para votar o Plano Diretor (a legislação principal do planejamento urbano), que tramita há um ano na Câmara – não têm quase nenhum trabalho realizado.
Por que as cidades de países desenvolvidos não são vítimas de grandes enchentes durante os temporais? Porque lá todos cumprem a lei e todos pensam no próximo. Todo o escoamento da água é rigorosamente planejado. Já diziam nossos avós: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.