Na Santa Casa, mais vale um prédio bonito do que um profissional com salário em dia e uma jornada de trabalho digna.
A Santa Casa está sofrendo uma inversão de prioridades, problema grave que se arrasta há um bom tempo. Enquanto externamente o prédio está cada vez mais bonito e a grama, bem cuidada, profissionais que trabalham pesado dentro da unidade para atender aos pacientes de todo o Estado ou até de fora dele carecem de o mínimo de atenção. Ontem, profissionais da enfermagem cruzaram os braços por conta do atraso no pagamento do 13º salário. Como mostra reportagem de hoje do Correio do Estado, são centenas de profissionais sem receber e, em muitos casos, sem ter como arcar com despesas.
A Santa Casa afirma que o atraso no pagamento é reflexo da demora nos repasses governamentais pelo atendimento público, o que não justifica a situação. Porém, é sabido que esse problema não é de hoje. Há pouco tempo, médicos ameaçaram greve por atrasos nos salários, mostrando que se trata de um problema recorrente.
O funcionamento de toda empresa depende – e vai depender por um bom tempo ainda – do material humano. Esse bem se torna ainda mais precioso quando pessoas são responsáveis pela vida de outro ser humano. Porém, a regra parece não ter validade no maior hospital do Estado. Na Santa Casa, mais vale um prédio bonito do que um profissional com salário em dia, em uma jornada de trabalho digna.
Por dentro da estrutura que passa por melhorias – ao menos na ala particular –, o que se encontra é um cenário de desolação. Com salários baixos, enfermeiros são obrigados a manter de dois a três empregos para conseguir pagar as contas. O resultado é um processo de esgotamento físico e principalmente emocional. O desestímulo é agravado com o atraso dos pagamentos. A Santa Casa está adoecendo seus profissionais. Mal remunerados e sobrecarregados, trabalhadores com depressão e outras síndromes causadas pelo esgotamento profissional aumentam a cada dia – a regra se aplica a enfermeiros e médicos. Só tragédias podem resultar deste cenário de sucateamento profissional.
A diretoria da Santa Casa precisa voltar os olhos mais para dentro do que para fora da instituição. Trata-se de priorizar o que realmente importa. Ter um ambiente de trabalho bem estruturado pode até influenciar no rendimento dos trabalhadores, mas em nada se compara com o resultado que é obtido com a valorização profissional.
E não se trata de valorizar somente o profissional, mas os pacientes. São eles os que mais sentem o efeito de todo esse processo de descaso com o material humano da instituição, principalmente os que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).