Demora no atendimento, atrasos, mau atendimento, longas filas de espera, descaso, etc. A lista de reclamações daqueles dependente da rede pública de saúde é grande e, muitas delas giram em torno de um único problema: a falta de médicos. Não foram raras as vezes em que postos de saúde funcionaram com um único profissional atendendo, quando a escala apontava para quatro plantonistas em Campo Grande. Mais que a carência de contratações, falta interesse e comprometimento por parte de muitos profissionais. Reportagem de hoje do Correio do Estado mostra que tem caído o índice de contratações pela rede pública. Contraditoriamente, sobram vagas. Só neste ano foram abertas mais de 300 vagas para médicos na rede pública de saúde de Campo Grande. Destas, poucas foram preenchidas.
As desculpas para essa evasão vão desde o salário até falta de estrutura das unidades de atendimento. O fato é que muitos profissionais enxergam a rede pública como algo provisório, sem importância. O principal afetado por esse descaso com o trabalho são os pacientes, mas também essa postura atinge a imagem e o trabalho dos colegas comprometidos. Os médicos que honram o juramento que fizeram ao se formar acabam arcando com as consequências da má conduta de outros colegas, seja pela generalização, seja pelo aumento da demanda reprimida.
Caso recente, porém, mostra que, se não está fácil contratar um médico, mais difícil ainda é fazer com que os que foram contratados de fato trabalhem. Na semana passada, quatro médicos foram afastados por mau atendimento. Em defesa, esses profissionais alegaram que não precisariam cumprir horário desde que atendesse aos pacientes agendados. Essa conduta teria sido adotada por administração anterior, o que não quer dizer que seja correta, entretanto. Atender somente aos pacientes agendados pode até ser uma prerrogativa de um consultório particular, onde o médico faz o seu horário. Na rede pública, ele é contratado e tem um patrão.
A classe médica foi a primeira a posicionar-se contra a programas como Mais Médicos, que visava a atração de profissionais do exterior para atuar na rede pública do País. A alegação era de que esses profissionais tomavam a vaga do médico brasileiro. O programa, que contava com parceria entre Cuba e Brasil, encerrou-se no ano passado. Porém, fica o questionamento: como estavam pegando vagas dos brasileiros se por aqui, só no ano passado foram convocados centenas de profissionais sem retorno?
As alternativas para suprir essa demanda reprimida - que cresce conforme a distância da região dos grandes centros do Sudeste - são muitas. Uma delas seria cobrar maior participação daqueles que se formaram nas universidades federais ou estaduais do País. Um dos objetivos das universidades públicas é formar profissionais que, futuramente, vão retribuir esse investimento de alguma forma ao País, seja com pesquisas ou até mesmo em serviços. O investimento para formar um médico é altíssimo, se não o mais caro um dos que mais exigem recursos públicos. Nada mais justo, então, que este profissional contribua com a região onde se formou com atendimento remunerado na rede pública de saúde para além da residência por alguns anos. Com isso, mesmo que remunerado, seria uma forma de retribuir simbolicamente pelo investimento que recebeu. O aumento de profissionais à disposição consequentemente traria impacto nas relações entre médicos e poder Executivo - lei de oferta e demanda - e quem sabe, médicos já formados deixariam de ver a rede pública de saúde como uma segunda opção. A maior beneficiada seria a população, tanto os que precisam da rede pública quanto os que pagam por ela.