Até o final dos anos 1970, Campo Grande era circundada por imensa vegetação rasteira a se perder de vista, onde nasciam todos os anos várias espécies de frutas silvestres, predominando a guavira.
Do início de outubro até meados de dezembro era tempo de guavira. Após as chuvas ocasionais da época, os ares da cidade e cercanias começavam a se inebriar com o perfume suave das floradas nos guavirais, como uma benesse nobre da natureza a premiar os moradores da Cidade Morena – uma regalia ilustre, que desapareceu tangida pelo vertiginoso progresso de Campo Grande. Hoje em dia, a dulcíssima frutinha ainda medra nas distantes reservas indígenas.
Na época, havia grande proliferação de guavira nativa nos arredores da Capital. No início de outubro para a frente, começavam a amadurecer os primeiros cachos da fruta. Era uma festa! Os moradores da cidade se reuniam em grupos de várias pessoas para ir ao campo “catar guavira”.
Caminhões, ximbicas, carroças e até bicicletas eram utilizados por milhares de pessoas, que passavam com cestas nas mãos, cantando e acenando lenços com muito ânimo, numa alegria contagiante. Os que se aventuravam a pé iam ficando para trás e, quando ultrapassados pelos veículos lotados, eram chamados de pé de poeira, numa gritaria infernal.
Tudo era brincadeira! Todos enchiam suas cestas, pois os guavirais imensos estavam sempre carregados da fruta, para satisfação de todos. Moças e rapazes participavam alegremente do folguedo no cerrado dadivoso. Contavam-se casos pitorescos dessas aventuras inocentes. O jornal O Mato-Grossense, líder da imprensa de Campo Grande na época, registrava os acontecimentos – muitas vezes hilários.
Certa vez, noticiou que um rapaz se desgarrou do grupo e perdeu-se na amplidão do guaviral. Desesperado, caminhou por trilhas espinhentas e sinuosas, carregando a pesada cesta carregada de guavira. Depois de muito caminhar sem rumo, anoiteceu, surgindo um céu exuberantemente estrelado. Assombrado, ouvia ao longe os pios tétricos de curiangos e corujas, uivos de lobos, guizos de cascavéis e outros sons sinistros de arrepiar os pelos.
Depois de muito andar sem rumo, finalmente surgiram os trilhos da Noroeste do Brasil. Feliz da vida, sentiu-se aliviado. Mas que rumo seguir? Onde a cidade estava, à frente ou atrás? Depois de muito peregrinar, cansado e faminto, teve um rastro de sabedoria: viu que as placas de quilometragem ao lado dos trilhos mostravam os quilômetros sempre subindo, o que lhe fez voltar para o lado correto da cidade, seguindo na direção oposta, quando a numeração ia decrescendo.
Depois de andar uns dezesseis quilômetros, chegou à Parada Calógeras, defronte dos quartéis. Dali para casa era um pulo, pois a Rua Paissandu, onde morava, distava dali umas três quadras. Enfim, chegou em casa passando das duas da madrugada, encontrando sua família aflita, preparando-se com a polícia para o início das buscas do “desaparecido”.
No dia seguinte, pegou a cesta carregada de guavira e foi à feira defronte do Colégio Osvaldo Cruz, onde postou-se num canto, oferecendo a fruta ao preço de um mil réis por litro (um real atual). Não demorou muito vendeu todo o estoque, ganhando certinho oitenta mil réis (oitenta reais).
À noite, foi ao cinema assistir Oscarito e Grande Otelo no filme “Aviso aos Navegantes”, que estava em cartaz no Alhambra. Depois do filme, foi comer pastel e beber guaraná Tupy no Bar do Míster, na Rua 14, perto da esquina da Rua Cândido Mariano. Depois, pegou a jardineira do Expresso Sobral e foi para casa feliz da vida.
O Míster era um turco de Istambul que morava nos Estados Unidos e imigrou para Campo Grande, onde moravam familiares seus. Montou um barzinho na Rua 14 de Julho, o qual passou a atrair boa freguesia graças à sua simpatia para com os fregueses. Brincalhão e risonho, chamava todos por “míster”, daí o apelido pelo qual era conhecido na cidade.
Todos os anos era assim. Moças e rapazes aproveitavam o tempo da guavira para descontraírem-se em caminhadas pelos guavirais em cânticos e risos, como numa revoada de irrequieto passaredo. Nesses gostosos folguedos, namoravam e se extravasavam em carícias ardentes, tendo como testemunhas as corujas e os curiangos... Às vezes se excediam e o casamento acontecia na polícia!