É lamentável que em um embate contratual entre o poder público e um hospital o paciente saia prejudicado.
O tema saúde, por sua natureza, sempre foi e sempre será um tema delicado de ser tratado em qualquer lugar do mundo. Se existe algo que desperta os sentimentos mais solidários, de se colocar no lugar do outro, e que desperta a urbanidade entre as pessoas, este tema é a saúde. Quando se fala sobre o estado do organismo de uma pessoa (ou da coletividade) com o meio ambiente, a sensibilidade – em tese – sempre prevalece.
Quando a saúde é colocada em pauta, muitas diferenças, sejam elas políticas, sejam elas ideológicas, são colocadas de lado. Na histórias das guerras, a ética manda preservar os ataques aos hospitais de campanha, por exemplo. Aliás, é importantíssimo frisar que a ética é um tema que caminha lado a lado com a saúde.
O que é lamentável é a falta de cuidado de alguns gestores dos setores público e privado quando a discussão é em torno dealgo tão caro e tão importante a qualquer ser vivo. O convênio entre a Prefeitura de Campo Grande e a Santa Casa, o maior hospital da cidade, encerra-se hoje. Trata-se de uma vínculo anual R$ 294 milhões, que o hospital, tenta reajustar para o próximo exercício financeiro. Os efeitos colaterais deste procedimento tão incisivo e intenso, porém, é sentido pela parte mais fraca nesta relação: o paciente.
Na última sexta-feira (25) a Santa Casa paralisou todas as cirurgias eletivas que eram realizadas no local. A Associação Beneficente de Campo Grande, que administra o hospital, alega falta de dinheiro, atrasos milionários nos repasses. O município não questionou o atraso. De fato ele ocorre, e ocorre para todos os outros hospitais, em que pese o governo federal e o seu Sistema Único de Saúde (SUS) entregar os recursos pactuados ao município, que tem a gestão plena da saúde, com uma regularidade maior que a que o hospital recebe.
Por outro lado, falta transparência por parte de um hospital tão grande como a Santa Casa na gestão dos recursos que recebe. É possível encontrar dezenas de hospitais Brasil afora, que fazem muitos mais atendimentos e procedimentos com aproximadamente R$ 300 milhões, que a Santa Casa realiza em Campo Grande. É, no mínimo, uma coincidência muito estranha a suspensão de cirurgias às vésperas da renegociação de um contrato deste montante.
Nesta edição, mostraremos o drama de alguns pacientes, que estão há um bom tempo na fila, e que terão de esperar ainda mais. Quando se trata de saúde, o perigo da demora pode custar a própria vida. É lamentável que em um embate entre o poder público e um hospital, o paciente saia prejudicado.