A vida de professor, o cotidiano, a densa rotina de estudos, pesquisas, planejamentos, os dissabores, os imprevistos, são exigências da prática docente que requerem renúncias, escolhas, devotamento, e como diria Ariano Suassuna, ser professor exige vocação... uma voz interior que clama... um chamamento! Pressupõe-se que o professor seja uma pessoa com seu corpo, suas emoções, sua linguagem, na interação com os outros e consigo mesmo. Uma pessoa comprometida e que constrói sua própria história – pessoal, familiar, escolar, social, que lhe proporciona certezas e incertezas a partir das quais compreende e interpreta as novas situações que a afetam e constroem, por meio de suas próprias ações, a continuação de sua história, na construção de sua identidade.
A carreira/trajetória de um professor inicia-se no percurso de formação ainda nos bancos acadêmicos. Nesta etapa, é possível perceber nos alunos a euforia, as expectativas, as boas intenções, o desejo de mudar os rumos da educação. Os olhares e as atitudes dos acadêmicos expressam desejos, interesse e uma avidez em aprender, em adquirir conhecimentos. É uma busca incessante pelo saber, sempre mergulhados nas infindáveis atividades acadêmicas, na dedicação aos eventos, atentos às solicitações das disciplinas, e as exigências da grade curricular, tudo com o intuito de se tornarem bons educadores, esperançosos por atuarem em ambientes razoavelmente perfeitos, organizados, de qualidade, tanto em materiais quanto em espaços, onde tenham autonomia para o planejar, para gerir seu tempo, sugerir propostas, na perspectiva de uma sonhada linearidade na prática docente.
Mas a realidade um tanto controversa impõe instruir o professor que irá adentrar ao mercado de trabalho para as mudanças e transformações do mundo atual que revelam um grau elevado de dificuldades, e que geram angústias e incertezas próprias dos novos tempos, em que o professor precisa além de tudo ser também um empreendedor, que tenha um novo perfil de competências, para atuar de forma dinâmica, inovadora em uma realidade cada vez mais digital. Que seja ousado, perceptivo, preparado para as mediações tecnológicas, que possa dialogar com outros campos do conhecimento e estar em constante atualização. Hoje, mais do que repassar o conhecimento, fornecendo-lhes uma sólida base teórica e prática é preciso sinalizar aos acadêmicos, futuros educadores, que o cenário onde são desenvolvidas as práticas pedagógicas é carregado de incertezas e ambiguidades, cujas temporalidades são cada vez mais fragmentadas. Reconhecemos que a identidade estável e unificada do passado em todas as áreas não existe mais no mundo de hoje.
A vida contemporânea leva o sujeito a viver não apenas uma, mas várias identidades, em certa medida contraditórias ou não resolvidas/definidas. Assim o é também na vida do professor, que para construir/refazer as identidades, conhecendo os reais percalços do mundo de encantamento, por vezes frustrante, enfrenta contendas não muito fáceis. Há que conscientizar os alunos, sobre os riscos, os erros e as ilusões quando se trata de um trabalho tão complexo, levá-los a refletir sobre a própria profissão. As condições de trabalho e os contextos profissionais totalmente novos apontam desafios intelectuais, tecnológicos e emocionais, com os quais terão que lidar, adaptando-se às novas configurações de vida e de trabalho. Ou seja, as mudanças no mercado de trabalho, a velocidade das informações, as relações midiáticas, a diversidade humana, as novas estruturas familiares, entre outras questões. É um tempo e um espaço desconcertantes, que exigem cada vez mais dos professores uma visão sobre o todo, e o desenvolvimento de competências e habilidades para lidar com tais desafios na profissão professor. Não por isso deverão se sentir desesperançosos, mas é necessário se prepararem continuadamente buscando conhecimentos e uma leitura crítica das informações, tornando-se autônomos, na pesquisa, no aprimoramento de técnicas, na compreensão do humano, pois serão mais que meros transmissores do conhecimento, mas mentores e provocadores na dinâmica de uma ciranda instigante, pesquisa-aprendizagem que gira constantemente.
E é nesse novo contexto de experiências e vivências que são construídas/constituídas as trajetórias dos professores, a sua carreira, a sua profissionalização. Saibamos no entanto, que, é uma construção/trajetória gratificante, digna de reconhecimento e valorização. É preciso no entanto, conhecimento, coragem e ousadia, tomados pela voz interior, pelo chamamento, para atuar com maestria nos espaços educativos. Realizar/criar/transformar vidas. Interagir/mediar/provocar novas e significativas construções. Levar o encantamento, ressignificar o processo de ensinar e aprender, em um cenário exigente e absurdamente complexo!