Ontem, por meio de publicação no Diário Oficial da União, entrou em vigor oficialmente o novo contrato de concessão dos 845 quilômetros da BR-163 em Mato Grosso do Sul, rodovia que liga Mundo Novo a Sonora, passando por outros 19 municípios. A concessionária, embora tenha mudado de nome e agora seja Motiva Pantanal, é a mesma que venceu a licitação em 2013 e que desde setembro de 2014 cobra pedágio.
E exatamente por conta disso é que existe visível resistência e desconfiança com relação às reais intenções do poderoso grupo econômico que vai permanecer por mais 29 anos na administração da principal rodovia do Estado. Isso porque, há pouco mais de uma década, para poder começar a cobrar pedágio o mais rápido possível, duplicou trechos no “meio do nada” e até hoje não investiu em trechos que realmente necessitariam, como é o caso do Anel Viário de Campo Grande, que tem apenas 25 km e concentra em torno de 18% das mortes registradas na rodovia. Ou seja, a sanha arrecadatória daquela época está diretamente relacionada às dezenas de mortes registradas neste trecho na última década. Pode até ser um raciocínio simplista, mas é impossível negar que, se a pista tivesse sido duplicada naquela época, dezenas de vidas teriam sido poupadas.
Ao fazer a renovação, o governo federal retirou uma série de exigências que haviam sido pactuadas em 2013. Mas se pelo menos os 203 km de duplicação, os 150 km de terceira faixa, os 450 km de acostamentos e os cerca de 25 km de contornos saírem do papel, possivelmente, os usuários da rodovia já ficarão satisfeitos, embora sejam obrigados a pagar o dobro pelo pedágio depois que estas melhorias saírem do papel. E para tentar convencer os usuários de que agora os acordos serão cumpridos, antes mesmo de o contrato ser assinado, a empresa começou as primeiras obras. Algo parecido, porém, ocorreu em 2013, quando duplicações “brotaram” de norte a sul.
Logo depois do início da cobrança do pedágio, já surgiram lamúrias de que o faturamento com o pedágio não cobria os custos. Porém, para vencer a disputa, a CCR ofereceu deságio de 52,7% sobre o valor máximo que havia sido estipulado então pelo Governo Federal. Ou seja, foi a própria empresa que derrubou o valor do pedágio para um patamar tal qual levou praticamente 10 anos para que as tarifas atingissem o valor estipulado naquela época.
Mas o simples fato de a empresa ter descumprido a palavra naquela vez não significa que acontecerá o mesmo agora. E uma das evidências para levar a acreditar que agora será diferente é o fato de o valor do pedágio poder aumentar somente a partir do momento em que determinadas exigências forem cumpridas. Além disso, é de se imaginar que um grupo empresarial do porte da Motiva, que atua em 13 estados brasileiros e tem mais de 17 mil funcionários diretos, tenha todo o interesse de limpar seu nome. Sendo assim, só resta aos sul-mato-grossenses e a todos os outros brasileiros que usam a rodovia darem um voto de confiança para ver se agora ela reassumiu a estrada com os pés no chão e que os acordos serão cumpridos.