Os juros altos praticados pelo Banco Central (BC) já mostram sua face mais amarga para a economia e para a vida das pessoas. Em Mato Grosso do Sul – e, sem dúvida, em todo o Brasil –, os efeitos se fazem sentir de maneira cada vez mais notável, como temos mostrado em reportagens recentes. Há alguns dias, evidenciamos que o crédito caro, por causa da taxa de juros, tem travado o mercado imobiliário.
Pudera: quando o custo de financiamento dispara, a roda da produção desacelera. O encarecimento dos empréstimos torna proibitivo o investimento, e o sonho da casa própria, que já é difícil para grande parte da população, torna-se inalcançável.
Agora, nesta edição, mostramos outro efeito colateral dessa política: a escalada da inadimplência. Só em Mato Grosso do Sul, mais de 500 pessoas por dia tiveram seus nomes negativados este ano. É um dado alarmante. Cada novo inadimplente é um consumidor a menos em condições de movimentar o comércio, acessar crédito, contratar serviços.
A multiplicação desse fenômeno corrói a base da economia local e nacional, deteriora ainda mais o mercado de crédito e forma um círculo vicioso que penaliza empresas e famílias.
É preciso dizer com todas as letras: juros altos demais não combatem apenas a inflação, mas também a esperança. A política monetária, que deveria ser um instrumento de equilíbrio, não pode ser um fator de paralisia. É lamentável que, por conta dela, a inadimplência ganhe força, fechando portas e sufocando a economia real, aquela que gera empregos e renda.
A questão que se impõe, portanto, é: como reduzir os juros? A resposta exige coragem política e maturidade institucional. O primeiro passo é que Executivo e Legislativo mostrem responsabilidade fiscal. E aqui cabe uma observação importante: o Legislativo, que costuma apontar o dedo para os gastos do governo, também precisa assumir sua parcela de responsabilidade.
A partir do momento em que vincula fatias significativas do Orçamento ao pagamento de emendas parlamentares obrigatórias – e delas não abre mão em hipótese alguma –, passa a ser parte do problema que tanto critica. Se há descontrole fiscal, ele não se resume ao Executivo.
Há ainda um aspecto político que não pode ser ignorado. A sensação de crise permanente, a corda sempre esticada no debate público e a falta de disposição para uma pacificação mínima entre diferentes visões de mundo têm elevado a tensão
Isso se reflete nos mercados, que operam sob constante sobressalto, e impede a implementação de políticas fiscais consistentes, capazes de reduzir a necessidade de juros tão elevados. Um país em permanente conflagração verbal e institucional não inspira confiança – e confiança é o primeiro insumo para o bom funcionamento da economia.
Nós acreditamos que é possível conviver com juros mais baixos. Mas essa não é uma tarefa apenas dos governantes. Nós, como sociedade, também podemos e devemos contribuir. Cabe-nos cobrar responsabilidade, mas também serenidade.
É preciso que abandonemos as visões rasteiras, que enxerguemos além da disputa imediata e que nos disponhamos a construir consensos mínimos em favor do bem-estar coletivo.