Na administração pública, para ser eficaz, o programa de compliance deve ir além da repressão à corrupção: deve proteger e promover a saúde psicológica, o bem-estar e o engajamento de servidores e cidadãos.
Pois nenhuma estrutura normativa e tecnológica sobrevive quando o cotidiano é marcado, entre outras coisas, por assédio, microgerenciamento, clima tóxico, falta de voz em decisões, excesso de tarefas sem suporte, falta de feedback e conflitos não resolvidos.
Quando a rotina se degrada assim, necessidades psicológicas básicas são frustradas e a motivação para cumprir normas acaba controlada por pressão e obrigação – fórmula que gera obediência, não engajamento, logo, não sustenta um compliance eficaz.
Aqui entra um componente metodológico fundamental: antes da criação de um programa de compliance, há uma decisão – muitas vezes ignorada – a fazer: acreditar ou não no potencial que as pessoas têm em si.
Esse é o pressuposto epistemológico: a ideia de ser humano que adotamos como base para desenhar programas, treinar lideranças e construir culturas. Como lembrou Douglas McGregor, “a forma como você vê as pessoas molda a forma como você as lidera”.
Se o pressuposto estruturante for a desconfiança, o que se ergue são mecanismos de vigilância, ameaça e punição. O que vemos a partir daí é um ambiente em que falar traz risco, o silêncio vira regra e as normas se cumprem por medo (motivação extrínseca), não por convicção (motivação intrínseca). Confiar nas pessoas sempre embute algum risco; não confiar é o maior risco de todos.
E aqui entra a liderança. Estudos mostram que até 70% da percepção de clima organizacional e engajamento vem do comportamento do gestor. Mas seguimos promovendo pessoas sem preparo para liderar – sem capacitação em inteligência emocional e ética comportamental, por exemplo.
O resultado está nos números crescentes de assédio e adoecimento psíquico em empresas e órgãos públicos. Onde líderes não sabem cuidar, o compliance não cria raízes.
Se temos gestores sem inteligência emocional, como esperar uma cultura emocional saudável? É ela que, se bem gerida e entrelaçada com a cultura cognitiva, sustenta a efetividade de um programa de compliance. Sem afetividade, não há efetividade.
Ignorar a cultura emocional é negligenciar a base da motivação intrínseca: é dela que nasce a confiança que sustenta o engajamento e dá vida às normas. Sem esse cuidado, regras ficam no papel e processos perdem sentido.
É um equívoco acreditar que um programa anticorrupção prospera em ambientes de assédio. Onde colegas são desrespeitados ou silenciados, a confiança se rompe, e sem confiança quem sofre se cala e a mudança não acontece. Assédio e corrupção brotam do mesmo terreno: relações de poder malcuidadas. Combater um sem o outro é ilusão.
Compliance, no fim, é meio. Meio para proteger e promover o que é sagrado: a dignidade de quem serve e de quem é servido. Programas eficazes traduzem valores cognitivos e afetivos em práticas vivas. O resto é papel.
A administração pública que queremos – ética, justa e eficiente – nasce de líderes que inspiram confiança, cultivam coerência e transformam cuidado em rotina. Líderes que acreditam no potencial das pessoas e o fazem florescer em resultados; que equilibram empatia e pulso firme. Porque liderar é equilibrar cuidado e entrega de resultados.