As recentes e vigorosas ofensivas da Polícia Federal (PF) nas extensas e vulneráveis fronteiras secas de Mato Grosso do Sul não representam apenas uma sequência de apreensões: são um marco estratégico que redefine a guerra contra o crime organizado no País. Ao atingir o fluxo logístico e financeiro do tráfico, a PF impõe um desfalque milionário às facções que usam o Estado como principal corredor de escoamento de drogas, armas e cigarros.
Essa atuação firme, baseada em inteligência, tecnologia e coordenação entre forças, comprova que investir em segurança na fronteira é a forma mais eficaz de sufocar o poderio econômico e operacional do crime. Contudo, o êxito da repressão em MS deve provocar uma reflexão mais profunda sobre a alocação de recursos públicos: o Brasil continuará apostando na política cara e ineficaz do encarceramento em massa ou fará a transição para um modelo de prevenção, educação e oportunidades?
Os números são faraônicos. O sistema prisional brasileiro consome recursos gigantescos dos orçamentos públicos. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) de 2024 mostram que o custo médio mensal por detento no País é de R$ 2.331,49. Nos presídios federais de segurança máxima, a despesa ultrapassa R$ 4.100,00.
Em Mato Grosso do Sul, estado de fronteira e rota estratégica do tráfico, o valor médio chegou a R$ 3.199,54 por preso em 2023.
O contraste com a educação é alarmante. O Valor Anual por Aluno (Vaaf) do Fundeb – principal fonte de financiamento da educação básica – foi de R$ 463,31 por mês em 2024. Ou seja, o Brasil gasta cinco vezes mais para manter um cidadão preso do que para educar uma criança.
Essa distorção orçamentária simboliza uma política reativa e fracassada. O encarceramento em massa não apenas consome recursos, como falha em ressocializar, transformando presídios em “escritórios” do crime e centros de recrutamento para facções.
Recursos que hoje ampliam cadeias deveriam fortalecer a inteligência policial e o monitoramento de fronteira – com veículos blindados, drones de longo alcance, câmeras termais e sistemas de rastreamento financeiro capazes de congelar o patrimônio dos traficantes.
O crime organizado deve ser combatido como uma empresa ilegal: atacando seu lucro. E, para desmontar esse sistema no longo prazo, é preciso encher as escolas e esvaziar as prisões.
Isso significa elevar o investimento em educação para equipará-lo, ao menos, ao custo do encarceramento.
O caminho inclui escolas em tempo integral, formação técnica e programas sociais estruturados que impeçam o recrutamento de jovens em comunidades vulneráveis – em MS e em todo o Brasil.
Persistir no modelo atual é um erro estratégico, econômico e moral.
O País precisa firmar um pacto nacional para redirecionar o fluxo de capital da punição para a prevenção – da cela para a sala de aula.
A vitória definitiva contra o crime será conquistada quando o Brasil investir na formação de cidadãos com o mesmo vigor e volume financeiro que hoje destina para manter encarcerados aqueles que o Estado falhou em educar.
Mudar essa equação é mais do que uma necessidade: é um imperativo moral para construir um futuro seguro e justo para todos.