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Riscos psicossociais: quanto custa não prevenir?

O problema não começa quando o trabalhador se afasta, antes disso, muitas pessoas continuam trabalhando sem condições emocionais e cognitivas para desempenhar suas funções

Em 2025, o Brasil registrou 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, aumento de 15,6% em relação ao ano anterior. Outro levantamento, realizado pela VR e divulgado pelo Valor Econômico, identificou crescimento de 143% na média mensal de afastamentos por saúde mental em sua base de empresas.

Mas o problema não começa quando o trabalhador se afasta. Antes disso, muitas pessoas continuam trabalhando sem condições emocionais e cognitivas para desempenhar suas funções. É o presenteísmo: o empregado está presente, mas sua capacidade de concentração, decisão e entrega já foi comprometida.

O Censo de Saúde Mental da Vittude, com respostas de mais de 174 mil colaboradores de 35 grande empresas, reforça esse cenário. Em 2025, 37,8% dos participantes apresentaram sofrimento psíquico moderado ou severo.

O Índice Vittude de Saúde Mental também caiu de 76 para 74 pontos, levando as organizações avaliadas para a zona de atenção.

É nesse contexto que a NR-1 ganha relevância. A norma passou a exigir que as empresas incluam os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho em seu gerenciamento de riscos ocupacionais. Ela não criou a crise, criou a obrigação de enxergá-la, avaliá-la e enfrentá-la.

Esse avanço desloca a discussão. Saúde mental não pode continuar restrita à oferta de terapia, palestras motivacionais ou aplicativos de meditação. Essas iniciativas não corrigem, sozinhas, metas inalcançáveis, sobrecarga, baixa autonomia, assédio, falta de reconhecimento ou lideranças despreparadas.

Também não se trata apenas de uma agenda humana ou regulatória, trata-se também de proteção financeira. Quando o adoecimento é relacionado ao trabalho, os custos podem ir muito além do afastamento.

A empresa pode enfrentar aumento de despesas previdenciárias, ações trabalhistas, indenizações, reintegrações, fiscalizações e gastos com tratamento, readaptação e substituição de profissionais. Os efeitos podem durar anos e comprometer produtividade, reputação e resultado financeiro.

Negligenciar riscos psicossociais custa caro e custa mais do que preveni-los. Grande parte desses custos pode ser reduzida quando a empresa mede os riscos, capacita as lideranças, corrige falhas na organização do trabalho e acompanha os resultados.

Mas prevenção não significa apenas aplicar um questionário e produzir uma matriz colorida, exige identificar áreas críticas, revisar processos e cargas, fortalecer canais de denúncia, formar lideranças e acompanhar indicadores. Diagnósticos sem planos de ação são apenas documentos.

Quais características da organização e da gestão do trabalho estão contribuindo para o sofrimento das pessoas? Responder pode exigir mudanças em metas, jornadas, autonomia, reconhecimento e práticas de liderança.

É mais complexo do que oferecer benefícios individuais. Também é mais eficaz para reduzir afastamentos, rotatividade, erros, conflitos e perda de produtividade.

A NR-1 pode representar uma mudança histórica na forma como as empresas brasileiras lidam com a saúde mental. Mas sua contribuição não será medida pelo número de relatórios produzidos, será medida pela capacidade de transformar ambientes que adoecem, reduzir sofrimento e proteger o caixa.

No fim, a questão não é apenas quanto custa cumprir a NR-, é quanto custa continuar ignorando o problema.

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