Artigos e Opinião

EDITORIAL

Não é hora de mudar o plano

O desafio agora é manter o rumo e resistir à tentação de flexibilizar metas em troca de alívio imediato. A previdência não pode ser tratada como variável de ajuste conjuntural

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Pela primeira vez nesta década, o governo de Mato Grosso do Sul conseguiu reverter a trajetória de alta no deficit do Regime Próprio de Previdência dos Servidores Públicos.

O dado, detalhado nesta edição, não é trivial. Durante anos, o rombo cresceu de forma contínua, pressionando as contas públicas e alimentando a sensação de que o problema era estruturalmente insolúvel. A inflexão registrada agora merece reconhecimento.

Parte importante desse resultado decorre de lei aprovada em 2024 que instituiu um plano atuarial com meta clara: zerar o deficit até 2046. Trata-se de uma decisão política que enfrentou resistências, mas que se apoia em fundamentos técnicos.

Os números apresentados na página 5 indicam que o caminho é viável. O aumento das contribuições patronais, os aportes regulares para amortização e a disciplina fiscal começaram a produzir efeitos já no primeiro ano de vigência.

É cedo para comemorar vitória definitiva, mas é justo afirmar que o Estado, enfim, parece ter encontrado uma rota consistente.

Justamente por isso causa preocupação a sugestão, feita por empresa de consultoria, de estender o prazo de equacionamento por mais 19 anos. Adiar a meta significaria empurrar a solução para além de 2065. É um movimento que soa como retrocesso.

Aparentemente, a intenção seria aliviar o caixa no curto prazo, abrindo espaço para investimentos em outras áreas. O raciocínio pode parecer sedutor do ponto de vista político, mas é temerário sob a ótica atuarial.

Previdência é compromisso de longo prazo. Não combina com atalhos. O plano começou a produzir efeitos no ano passado, e os resultados iniciais demonstram que, mantidas as regras, Mato Grosso do Sul pode, finalmente, corrigir um desequilíbrio histórico.

Alterar o cronograma agora seria transmitir sinal equivocado ao mercado, aos servidores e à sociedade: o de que, diante da primeira dificuldade, a solução pode ser postergada.

É impossível tratar do tema sem recordar decisões do passado. Na década anterior, os valores segregados para novos servidores – depositados em conta separada justamente para evitar que o deficit contaminasse o futuro – foram sacados no fim do exercício.

Se aquela reserva tivesse sido preservada, o cenário atual seria outro. Muito provavelmente, o Estado estaria próximo do equilíbrio, talvez até do superavit previdenciário. A lição é clara: escolhas no curto prazo cobram preço elevado no futuro.

O que a previdência não pode ter é instabilidade normativa. Cada mudança de regra, cada revisão de prazo, cada flexibilização transmite insegurança e compromete o planejamento atuarial.

Quando se abandona a perspectiva de longo prazo, adia-se a solução e perpetua-se o problema. Governos passam, mandatos se encerram, mas o passivo permanece.

Se há algo a celebrar neste momento é o fato de que, após anos de crescimento contínuo do rombo, o Estado conseguiu inverter a orientação da curva. O desafio agora é manter o rumo e resistir à tentação de flexibilizar metas em troca de alívio imediato. A previdência não pode ser tratada como variável de ajuste conjuntural.

Ela exige constância, disciplina e respeito ao planejamento. Só assim Mato Grosso do Sul poderá, de fato, transformar um histórico de deficit em uma trajetória sustentável e definitiva.

ARTIGOS

Brasil dobra consumo de ultraprocessados: o que estamos colocando no prato e no futuro?

O dado revela mudança profunda na forma como os brasileiros se alimentam e acende um alerta, especialmente quando o impacto recai sobre crianças e adolescentes, fase decisiva para a formação de hábitos que acompanham o indivíduo por toda a vida

26/02/2026 07h45

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O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil mais que dobrou nos últimos 40 anos, passando de cerca de 10% para aproximadamente 23% da dieta da população.

O dado revela uma mudança profunda na forma como os brasileiros se alimentam e acende um alerta, especialmente quando o impacto recai sobre crianças e adolescentes, fase decisiva para a formação de hábitos que acompanham o indivíduo por toda a vida.

Ultraprocessados não são alimentos de verdade. São formulações industriais ricas em corantes, conservantes, açúcar e gordura saturada, com baixo valor nutricional.

Biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, refrigerantes, macarrão instantâneo e nuggets ocupam hoje um espaço central na alimentação cotidiana. Esses produtos simulam comida, mas entregam conveniência à custa da saúde.

Um dos principais riscos é o vício ao paladar. O excesso de realçadores de sabor condiciona o cérebro a rejeitar alimentos naturais. Frutas, legumes e preparações simples passam a ser vistos como “sem graça”, enquanto produtos industrializados se tornam referência de sabor.

Esse padrão, quando iniciado na infância, tende a se perpetuar na vida adulta.

As consequências aparecem cada vez mais cedo. O consumo frequente de ultraprocessados está associado ao surgimento precoce de obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão ainda na adolescência. Além disso, esses produtos afetam a flora intestinal, favorecendo processos inflamatórios, reduzindo a imunidade e impactando até o desempenho escolar.

Outro paradoxo é o das calorias vazias. A criança consome muita energia, mas carece de nutrientes essenciais como ferro, vitaminas e fibras. O resultado é um organismo mal-nutrido, mesmo diante de uma alimentação abundante.

Diante desse cenário, pequenas mudanças fazem diferença. Ler rótulos, evitar listas longas de ingredientes e priorizar alimentos in natura são passos fundamentais.

“Descascar mais e desembalar menos” continua sendo uma das orientações mais eficazes. Substituições simples, como trocar sucos de caixinha por fruta inteira ou biscoitos recheados por preparações caseiras, reduzem significativamente o consumo de ultraprocessados.

Mais do que escolhas individuais, o tema exige reflexão coletiva. A alimentação infantil é uma construção diária que envolve família, indústria, políticas públicas e educação.

A alimentação na infância é a base da saúde do adulto. Não estamos apenas alimentando o corpo, estamos moldando hábitos que durarão a vida toda.

O que colocamos hoje no prato das crianças é, inevitavelmente, o que colocamos no futuro do País.

ARTIGOS

O atacarejo nas eleições brasileiras

Nesse ambiente de privatização da política, sociedades ocidentais intensificaram a personalização dos partidos e das ideias

26/02/2026 07h30

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As relações entre cidadania e consumo transformaram profundamente a maneira de pensar e fazer política a partir de meados do século 20.

utores como Jean Baudrillard, Zygmunt Bauman e Milton Friedman – partindo de horizontes distintos – analisaram como a experiência humana passou a ser progressivamente mediada pela lógica de mercado.

A res publica, nesse contexto, cede espaço à res privata no plano eleitoral, seja pela força dos lobbies, seja pela crescente individualização de interesses antes concebidos como coletivos.

Nesse ambiente de privatização da política, sociedades ocidentais – com destaque para países do continente americano – intensificaram a personalização dos partidos e das ideias.

No Brasil, a cada eleição esse processo se amplia, corroendo a dimensão programática das políticas públicas e aprofundando uma polarização que se reflete tanto nas pesquisas presidenciais quanto nas disputas estaduais.

No campo da esquerda, o eleitor-consumidor demonstra resistência em substituir seu “produto” principal, presente nas urnas desde 1989.

Lula, único candidato com potencial de disputar uma quarta vitória presidencial, aposta em uma estratégia de varejo político, ancorada em quadros consolidados da centro-esquerda e em alianças amplas – como a articulação que envolve Geraldo Alckmin, Marina Silva, Simone Tebet e Fernando Haddad.

Na tentativa de conter o avanço conservador observado nas eleições legislativas desde 2018, o presidente também amplia pontes com forças antes adversárias, como o MDB, buscando preservar espaço diante da perspectiva de um Senado mais à direita a partir de 2027.

À direita, o cenário assemelha-se a um grande atacado de lideranças, especialmente após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O leque de nomes inclui figuras com trajetória consolidada, como Ronaldo Caiado; herdeiros diretos do bolsonarismo, como Flávio e Michelle Bolsonaro; e governadores que emergem como alternativas competitivas, caso de Romeu Zema, Ratinho Jr., Eduardo Leite e Tarcísio de Freitas.

A oferta é ampla, mas carrega o risco de fragmentação. Tensões recentes envolvendo uma divisão no clã Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira indicam que a disputa pelo capital político do ex-presidente pode ocorrer de forma conflituosa, comprometendo a coesão do campo conservador.

Nesse ambiente, o resultado dependerá do comportamento de um eleitorado cada vez mais exausto da polarização. Os cerca de 30% que rejeitam tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro tendem a exercer papel decisivo na definição de qual modelo – varejo ou atacado – prevalecerá no próximo ciclo eleitoral.

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