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O atacarejo nas eleições brasileiras

Nesse ambiente de privatização da política, sociedades ocidentais intensificaram a personalização dos partidos e das ideias

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As relações entre cidadania e consumo transformaram profundamente a maneira de pensar e fazer política a partir de meados do século 20.

utores como Jean Baudrillard, Zygmunt Bauman e Milton Friedman – partindo de horizontes distintos – analisaram como a experiência humana passou a ser progressivamente mediada pela lógica de mercado.

A res publica, nesse contexto, cede espaço à res privata no plano eleitoral, seja pela força dos lobbies, seja pela crescente individualização de interesses antes concebidos como coletivos.

Nesse ambiente de privatização da política, sociedades ocidentais – com destaque para países do continente americano – intensificaram a personalização dos partidos e das ideias.

No Brasil, a cada eleição esse processo se amplia, corroendo a dimensão programática das políticas públicas e aprofundando uma polarização que se reflete tanto nas pesquisas presidenciais quanto nas disputas estaduais.

No campo da esquerda, o eleitor-consumidor demonstra resistência em substituir seu “produto” principal, presente nas urnas desde 1989.

Lula, único candidato com potencial de disputar uma quarta vitória presidencial, aposta em uma estratégia de varejo político, ancorada em quadros consolidados da centro-esquerda e em alianças amplas – como a articulação que envolve Geraldo Alckmin, Marina Silva, Simone Tebet e Fernando Haddad.

Na tentativa de conter o avanço conservador observado nas eleições legislativas desde 2018, o presidente também amplia pontes com forças antes adversárias, como o MDB, buscando preservar espaço diante da perspectiva de um Senado mais à direita a partir de 2027.

À direita, o cenário assemelha-se a um grande atacado de lideranças, especialmente após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O leque de nomes inclui figuras com trajetória consolidada, como Ronaldo Caiado; herdeiros diretos do bolsonarismo, como Flávio e Michelle Bolsonaro; e governadores que emergem como alternativas competitivas, caso de Romeu Zema, Ratinho Jr., Eduardo Leite e Tarcísio de Freitas.

A oferta é ampla, mas carrega o risco de fragmentação. Tensões recentes envolvendo uma divisão no clã Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira indicam que a disputa pelo capital político do ex-presidente pode ocorrer de forma conflituosa, comprometendo a coesão do campo conservador.

Nesse ambiente, o resultado dependerá do comportamento de um eleitorado cada vez mais exausto da polarização. Os cerca de 30% que rejeitam tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro tendem a exercer papel decisivo na definição de qual modelo – varejo ou atacado – prevalecerá no próximo ciclo eleitoral.

EDITORIAL

Gestão da Saúde sob novo teste

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. O novo modelo deve reduzir filas e ampliar atendimentos

26/03/2026 07h15

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A decisão de Campo Grande de transferir a gestão dos Centros Regionais de Saúde 24 horas para organizações sociais inaugura um novo capítulo na administração pública municipal. Trata-se de uma medida que desperta debates legítimos, tanto pela sensibilidade do tema quanto pela importância estratégica dessas unidades para a população.

Ainda assim, é preciso reconhecer que a proposta, se bem estruturada, pode representar uma oportunidade concreta de melhoria no atendimento.

A rede de saúde pública enfrenta desafios conhecidos: filas, demora, falta de profissionais, problemas de gestão e dificuldade para garantir atendimento digno e eficiente. Esses obstáculos não são exclusivos da capital sul-mato-grossense, mas atingem boa parte do País.

Diante desse cenário, testar novos modelos administrativos deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma necessidade. A população merece serviços mais ágeis, humanizados e resolutivos, sobretudo nas unidades de atendimento 24 horas, que funcionam como porta de entrada para milhares de cidadãos.

A experiência com organizações sociais já foi adotada em diferentes localidades, com resultados variados. Há casos de sucesso, com ganho de eficiência, maior flexibilidade na contratação de profissionais e melhor organização dos serviços.

Contudo, também existem exemplos negativos, marcados por falta de controle, desperdício de recursos e até denúncias de irregularidades. Por isso, o êxito da iniciativa não depende apenas do modelo escolhido, mas da forma como ele será implantado e fiscalizado.

É justamente nesse ponto que reside a principal atenção. O Município precisa estabelecer mecanismos rigorosos de controle, com metas claras, indicadores de desempenho e avaliação permanente dos resultados.

A transparência deve ser total, com divulgação de contratos, custos, metas e relatórios de desempenho. A sociedade tem o direito de saber como os recursos públicos são aplicados e quais melhorias estão sendo efetivamente alcançadas.

Outro aspecto essencial é a atuação dos órgãos de controle. O acompanhamento próximo do Ministério Público será fundamental para garantir que o modelo não se desvie de seu objetivo principal: melhorar o atendimento à população. A fiscalização preventiva evita distorções e fortalece a credibilidade da iniciativa.

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. Se o novo modelo for capaz de ampliar o acesso, reduzir filas e qualificar o atendimento, terá cumprido seu papel.

O mais importante é assegurar que os bilhões destinados à Saúde sejam aplicados com eficiência, responsabilidade e foco em quem mais precisa. A população não espera apenas mudanças administrativas, mas melhorias concretas no cuidado com a vida.

Artigo

TEA em adultos: por que o diagnóstico tardio mistura alívio e dúvidas?

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional

25/03/2026 07h45

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O diagnóstico tardio do transtorno do espectro autista (TEA) em adultos costuma provocar uma mistura de sentimentos como alívio, dúvidas e interpretações equivocadas, como associação com inteligência. A condição segue cercada de desinformação, independentemente da idade. O que acaba gerando muitas dúvidas.

O TEA é uma das principais condições neurodivergentes, caracterizado por diferenças na comunicação social, comportamento e processamento sensorial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas vivem com o transtorno no mundo. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 aponta 2,4 milhões de diagnósticos, o equivalente a 1,2% da população.

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional. Essas pessoas, muitas vezes classificadas no nível 1 de suporte, conseguem estudar, trabalhar e se relacionar, o que contribui para que sinais passem despercebidos.

Ainda assim, é frequente o relato de sensação de desconexão e dificuldade de pertencimento, que leva à busca por ajuda psicológica.

Em muitos casos, o TEA aparece inicialmente associado a quadros como ansiedade, depressão ou fobia social. Também há confusão diagnóstica com transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e altas habilidades, além da possibilidade de comorbidades.

Quando o diagnóstico é tardio, o prognóstico tende a ser mais desfavorável, e o nível de incompreensão aumenta – tanto por parte das pessoas ao redor quanto da própria pessoa em relação ao seu funcionamento.

Com frequência, observo pacientes relatarem que percebem e sentem o mundo de forma diferente, além de enfrentarem dificuldades para manter o convívio social. Diante disso, muitos iniciam tratamento para depressão ou fobia social e, apenas posteriormente, recebem o diagnóstico de TEA.

O momento do diagnóstico pode gerar reações diversas. Há quem sinta alívio ao se compreender, enquanto familiares podem expressar sentimento de culpa por não terem percebido alguns sinais. A falta de informação também faz com que alguns adultos resistam a se reconhecer como neurodivergentes.

É importante destacar que o TEA, assim como o TDAH e outros transtornos, não tem relação com nível de inteligência. Quando se fala de TEA, estamos falando de um cérebro neurodivergente que tem uma alteração no funcionamento cerebral, que pode coexistir tanto com deficits quanto com altas habilidades.

Sem diagnóstico, as experiências podem parecer incoerentes e gerar culpa. Com a identificação adequada, a psicoterapia se torna além de um espaço de escuta, um espaço de construção de estratégias práticas, transformando dificuldades difusas em caminhos possíveis de adaptação, estratégias concretas e qualidade de vida.

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