Artigos e Opinião

OPINIÃO

Octavio Luiz Franco: "Bolsistas, aprendizes ou simplesmente cabide de empregos"

Coordenador do S-Inova, Professor do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia da Universidade Católica Dom Bosco.

Redação

09/01/2015 - 00h00
Continue lendo...

Nos últimos anos o governo brasileiro tem, gradualmente, aumentado seu investimento na formação de pessoal estando a pós-graduação consolidada como um espaço estratégico para geração de conhecimento que indubitavelmente deverá contribuir para o direcionamento de estratégias do desenvolvimento nacional. Inúmeros exemplos mundiais como Alemanha e Estados Unidos já demonstraram claramente que a formação de excelência associada ao brilhantismo de certos indivíduos e trabalho árduo pode levar inequivocamente o país a patamares superiores em todos os campos.

O Brasil é uma clara exceção, em que a pós-graduação, além de ser gratuita, apresenta incentivos governamentais. Estes estímulos se apresentam em forma de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, objetivando que pensadores em formação possam se dedicar integralmente a pesquisa e ao conhecimento. Vale a pena ressaltar que as bolsas de estudo são essenciais e definitivas para o bom desenvolvimento dos estudantes de pós-graduação em nosso país. Entretanto, com o incrível aumento da quantidade de bolsas na última década, devemos nos questionar se o número de bolsas tem sido realmente absorvido somente por alunos de excelência. 

Os alunos bolsistas de um modo geral devem atuar como aprendizes que por definição são pessoas que aprendem um ofício ou arte. Mas o que define um bom ou mau aprendiz? Independente da área, o que se espera de um excelente aprendiz consiste em dedicação acima da média somada à curiosidade e paixão por aquilo que se quer aprender. Como exemplo pode-se citar Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, o famoso artista responsável pela pintura da Capela Sistina. Michelangelo iniciou sua carreira de escultor e pintor como aprendiz dos irmãos Davide e Domenico Ghirlandaio e anos mais tarde, dado o seu talento e dedicação, foi encaminhado e também treinado por Lorenzo de Médici em Florença.  

Em comparação aos dias de hoje como bolsa o mesmo recebia alimento, estadia e proteção da família Médici. Desta forma Michelangelo estava apenas fazendo algo similar à pós-graduação, pois recebia auxílio para aprender técnicas e obter inspiração. Anos mais tarde, além de se tornar um grande mestre, também se tornou um tutor que aceitava apenas poucos e seletos aprendizes que eram iniciados nas técnicas mais avançadas da arte. Tais aprendizes eram considerados os maiores prodígios da arte, sendo aceitos apenas a duras penas.

Nos dias de hoje, entretanto tem-se observado algo um pouco diferente. Dado ao massivo número de bolsas, uma enorme quantidade de alunos de ciências básicas têm se focado no desenvolvimento do mestrado e doutorado. Mas estes alunos realmente estão interessados em aprender um ofício e se tornarem experts em uma temática estratégica para nossa nação? Ou simplesmente estes alunos têm optado por este caminho por uma completa ausência de empregos, utilizando basicamente as bolsas de estudos oferecidas pelo governo como botes salva-vidas.

Obviamente, em meio a esta miríade pessoas, será possível selecionar algumas mentes brilhantes, mas talvez seja hora de repensarmos como melhor selecionar os estudantes que apresentam vocação para a ciência. Uma vez que, o futuro de nosso país está indubitavelmente entregue a estas mãos e cérebros, as bolsas de estudos devem ser concedidas apenas aos melhores aprendizes.

Estes deverão combinar paixão, dedicação e talento ao que se propõem a aprender e não a todos que simplesmente não tem ou não querem outra opção. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

Continue Lendo...

O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

Continue Lendo...

Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).