A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul abriu inquérito para investigar um golpe milionário contra vários pecuaristas do Estado, por meio da compra de gado com cheques sem fundo, confissões de dívida inadimplidas e recebimento de valores adiantados por animais que não foram entregues aos compradores, além de calotes em confinamentos e em parcerias conhecidas como “boitel”.
O suspeito de aplicar o golpe é G.S.P, de 33 anos, que se passou por pecuarista, arrematou animais em leilões, firmou parcerias em confinamentos, recebeu adiantamentos em vendas de gado e, agora, não é encontrado pela Justiça para responder às várias execuções, ações monitórias e outros processos judiciais ajuizados pelas vítimas.
O total do calote ultrapassa R$ 8 milhões, segundo informações preliminares que constam no inquérito aberto pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Defraudações, Falsificações, Falimentares e Fazendários (Dedfaz), em Campo Grande.
Além disso, G.S.P também deixou passivos em bancos, a maioria deles cooperativas de crédito. Ele é cobrado pelo Sicredi, onde há duas ações que somam aproximadamente R$ 500 mil, referentes a um empréstimo não quitado, além de cerca de R$ 14 mil em dívidas de cartões de crédito. O Sicoob de Aquidauana também cobra o suposto pecuarista por uma dívida de R$ 28 mil.
O maior “tombo” supostamente aplicado por G... foi contra produtores rurais e empresas de confinamento, como a Santa Clara e a Monza.
“Os fatos teriam ocorrido, em sua maioria, no período compreendido entre janeiro e maio de 2025, envolvendo múltiplas negociações no mercado de gado bovino, com prejuízo global noticiado superior a R$ 8 milhões, atingindo diversos produtores rurais no Estado de Mato Grosso do Sul”, afirma o delegado Carlos Eduardo Trevelin Millan, no inquérito aberto no fim do mês passado para investigar crimes como estelionato, ocultação de bens e lavagem de dinheiro.
O modus operandi de G... era a alavancagem. Ele realizava grandes compras de animais e tentava quitá-las com valores obtidos em revendas dos mesmos animais. No intervalo entre uma compra e outra, deixava as rezes em confinamentos e boitéis. Nesse período, acumulou dívidas com todos eles.
Nos processos judiciais, os autores informam diferentes endereços de residência de G..., dois deles no condomínio Damha II, em Campo Grande, e no bairro Pioneiros, também na Capital. Há ainda um endereço em Aquidauana.
Os oficiais de Justiça, na maioria dos processos, ainda não conseguiram encontrá-lo. Em mais de uma dezena de ações contra G..., o Poder Judiciário não conseguiu apreender bens patrimoniais, como carros, sítios ou fazendas, nem mesmo encontrou somas relevantes em suas contas bancárias.
Rombo milionário
Uma das vítimas de G... é o pecuarista G.S. A. Em março de 2025, ele vendeu 300 animais para G.P, que pagou a transação com um cheque no valor de R$ 866,5 mil.
Antes do depósito do cheque, o suspeito de estelionato pediu ao vendedor que não o apresentasse, alegando não ter o dinheiro em conta, e propôs o pagamento por meio de uma confissão de dívida, com parcelamento do valor.
Eles buscaram então uma solução amigável e repactuaram a transação em um novo valor, de R$ 896 mil, dividido em seis parcelas. G.P, no entanto, não honrou nenhuma delas.
Depois de constatar o golpe, G.S.A. descobriu uma prática sistemática de negócios fraudulentos envolvendo G.P.
Os supostos golpes praticados por G..., cujas informações já estão em posse da Polícia Civil, são os seguintes: calote de R$ 479 mil pela compra não paga de 85 vacas; um prejuízo de R$ 1 milhão ao pecuarista R.B. de C., de quem G... recebeu valores antecipados por 679 bezerros que nunca foram entregues.
Há ainda a cobrança de R$ 778,2 mil do pecuarista L.B.S.F., referente a um contrato de hotelaria de gado (boitel) envolvendo 383 vacas.
C.A.M. também cobra G... em R$ 238 mil. Ele foi avalista de uma nota promissória inadimplida pelo investigado.
C.G.R.C.S. cobra R$ 230 mil, valor referente a um adiantamento para compra de gado, formalizado por meio de confissão de dívida.
Também consta um cheque sem fundos no valor de R$ 416 mil entregue por G... a L.A.C.F., além da maior dívida registrada até o momento: três cheques sem fundos que totalizam R$ 1,5 milhão, emitidos em favor de L.A.C.N..
Para a Agropecuária Tereré (Monza), são dois cheques sem fundos que somam R$ 726,1 mil.
A pecuarista Â.F. também pagou adiantado por bezerros comprados de G..., que não foram entregues. Ela cobra R$ 277 mil na Justiça, prejuízo remanescente da operação.
A dívida cobrada por T. C.M.S.M. é de R$ 585,5 mil e tem origem em inadimplência em contrato de parceria pecuária.
G... também não pagou R$ 242 mil pela compra de bovinos do pecuarista João Antônio, nem R$ 802 mil devidos a J.Q.. Nos dois casos, os animais foram pagos com cheques sem fundos.
Há ainda valores cobrados pelo dono do Confinamento Santa Clara, localizado entre Campo Grande e Terenos.

