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ENTREVISTA

Camila Pitanga está no ar em "Aruanas"

Na série, a atriz potencializa discurso sobre a defesa do meio ambiente
10/06/2020 11:37 - Caroline Borges/TV Press


 

Camila Pitanga sempre teve suas convicções e ideais sociais bem delimitados. Por isso mesmo, a atriz valoriza quando tem a chance de unir seus princípios e ideologia com suas pretensões artísticas. E foi exatamente isso que ocorreu em “Aruanas”, série da Globo e do Globoplay, em que Camila vive a vilã Olga. O thriller ambiental, escrito por Estela Renner e Marcos Nisti, levanta debates sobre a exploração desregulada e acelerada dos recursos naturais na Amazônia e o complexo trabalho dos ativistas ambientais. “Quando recebi a proposta para ‘Aruanas’, vi que era importante dar corpo e voz a essa história que pode conscientizar as pessoas. É uma trama que fala da luta pela terra, defesa do meio ambiente e do ativismo ambiental. Tudo é calcado na realidade. Nos últimos anos, ficou mais agudo como essa ferida ficou aberta e necessária. É preciso entender quem são esses ativistas ambientais, esses heróis anônimos”, defende.

Aos 42 anos, Camila tem mantido uma regularidade pontual, mas intensa na tevê. Longe dos folhetins desde o fim de “Velho Chico”, a atriz, além de gravar a série “Aruanas”, integrou o elenco do especial de Natal “Juntos a Magia Acontece” e esteve à frente da última temporada do “Superbonita”, do GNT. “O ‘Superbonita’ foi uma experiência muito gratificante. Conheci mulheres e histórias que eu não tinha no meu repertório. Ampliei meus horizontes com as mulheres que participaram do programa”, valoriza.

P – Como foi seu processo de criação para viver a Olga? 

R - Essa androginia, essa coisa mais escorregadia e dúbia, tem muito a ver com esse texto da série. A Olga tem uma solidão, mas também tem um amor, uma outra atmosfera. Eu fui tentando elaborar essas facetas para uma personagem que é quase uma esfinge nessa primeira temporada. Eu não me baseei em nenhum personagem prévio. Mas eu tenho muitos personagens em mim, vilãs e heroínas, como referência. Nessa primeira temporada, a gente sabe muito pouco da história da Olga, da intimidade dela. Por um lado, isso me dava uma liberdade enorme para compor. Fui tecendo várias facetas na sedução e nessa lógica matemática que ela tem para mover as peças. No início, a Olga seguiria uma linha muito mais sedutora, mas, ao lado da direção e dos autores, acabamos mudando isso.

P – Por quê? 

R – A Olga é uma mulher que tem noção do seu poder de sedução, uma mulher rica com penetração no congresso e em outros setores elitistas da sociedade. A ideia inicial era ir por um lado de sedução tipo Jessica Rabbit, se valer do seu corpo. Ao longo da pré-produção, a gente viu que seria mais interessante ela ser mais racional do que investir nessa sexualidade. Isso seria o mais óbvio. A Olga foi pautada em frieza e sobriedade. Até reescrevemos algumas cenas para encaixar isso melhor. O prazer da Olga está na conquista do território. Não chegamos a zerar essa sensualidade dela porque o erotismo e o tesão também estão no jogo. A Olga tem o apetite pelo poder e pelo dinheiro.

P – Como funciona essa relação entre a Olga e o quarteto de protagonistas?

R - As mulheres da Aruana são pedras no sapato da Olga... Vai-se criando uma rivalidade, principalmente com a Verônica. Como se fosse um espelho ao contrário, porque a Verônica também é advogada e representa em termos de valores o oposto da Olga. Elas vão se tornando arquirrivais, porque em nome de cuidar dos remanescentes indígenas e dos rios que estão sendo contaminados pelo garimpo, trava-se uma disputa que parte para o pessoal.

P – Você consegue enxergar a vilania da Olga dentro da estrutura da sociedade atual?

R – Acho que a Olga e o Miguel (Luiz Carlos Vasconcelos) se enxergam como iguais, se interessam como iguais, mas ele é o chefe. Ela não mede esforços para valer o seu apetite por poder. Miguel e Olga cuidam de seu feudo e dos seus interesses, são individualistas. Eles não consideram nada a sua frente, são míopes da sua própria condição de humanidade. Estamos falando de uma luta que de um lado não há ética. Acho que é muito importante a gente compreender que quem sofre dessa miopia não dá valor ao patrimônio da humanidade que a Amazônia representa. É a miopia que mata, que aniquila e que se mata. São personagens que não se veem dentro da condição humana. Acho que a Olga traz um toque de Odete Roitman (personagem de Beatriz Segall em “Vale Tudo”). Ela tinha um desprezo pelo outro, pela própria família, estava nem aí para nada. 

P – Recentemente, você se posicionou contra a Medida Provisória 910, que trata de regularização fundiária. Como você enxerga a política ambiental do atual governo?

R – É inadmissível essa MP. Tivemos uma grita muito forte. Foi um oportunismo tentar aprovar essa MP durante uma pandemia. É uma MP que busca formalizar ou institucionalizar a pratica da grilagem. A gente precisa ficar de olho para não ficarmos anestesiados com práticas assim. Estamos de olho no congresso e não podemos deixar isso passar em silêncio. Temos de botar nossas vozes no mundo. Houve uma grita e eles tiveram de recuar. A gente vê o desmonte do Ibama, da Funai. É um governo com uma necropolítica, uma política de extermínio. Mas temos uma sociedade que tem voz.

P – Inicialmente, “Aruanas” foi lançada no Globoplay. De que forma essa chegada na tevê aberta auxilia na luta pelo meio ambiente?

R – Antes, havia uma justificativa de desmatar em prol do desenvolvimento. Mas não há nada que justifique desmatar. “Aruanas” é para abrir os olhos e mostrar que não podemos nos acomodar com o que está acontecendo. É muito bom ver a série em um veículo como a Globo e termos êxito nessa exibição. Estamos falando de vida na série, a luta pela vida. Nos últimos anos, vimos uma piora em todos os níveis. Não há fiscalização, quem fiscaliza está atrelado a essa máquina de moer gente, números absurdos de desmatamento. É um tiro no pé. É uma política de desmonte e extermínio.

P – Você chegou a gravar algumas sequências da segunda temporada de “Aruanas” antes da paralisação dos trabalhos por conta da pandemia. Como vai ser essa nova leva de episódios?

R – Não posso dar muito “spoiler” (risos). Na próxima temporada, vamos ver mais a solidão dessa mulher, vamos ver o que está por trás da história da Olga. 

P – Sua última novela foi “Velho Chico”, em 2016. Você tem planos para retornar aos folhetins? 

R – Eu estou pronta para voltar às novelas. Estou de coração aberto, mas, por enquanto, não tenho nenhum projeto nesse sentido. Vou fechar essa segunda temporada quando a nossa rotina retornar. Mas estou completamente disposta.

Campanha verde

Camila tem um histórico de vínculo com grandes organizações de defesa do meio ambiente, como a WWF Brasil e o Greenpeace. Porém, para a atriz, o dia a dia também é importante para auxiliar na luta a favor do meio ambiente. “Temos o ativismo do cotidiano. É importante saber descartar o lixo de forma correta, saber de onde comprar, se organizar no dia a dia para isso”, pontua.

Nos últimos anos, Camila tem aprendido bastante também ao observar sua filha, a pequena Antônia, de 12 anos. “Minha filha me dá aula sobre vários assuntos. Ela virou vegetariana porque entendeu que isso é uma questão política. Claro que, na série, a gente fala sobre o macro, mas esse dia a dia também é muito importante”, defende. 

Novo Mundo

Assim como boa parte do mundo, Camila foi pega de surpresa com a quarentena em decorrência do avanço da pandemia do novo coronavírus. A atriz acredita que a sociedade possa sair mais forte e melhor dessa experiência. “Ninguém será como antes, não tem como recuar. Precisamos fazer valer o respeito ao diferente. Fazer uma reconstrução. Me apego nessa janela de oportunidades para repensar o nosso mundo”, ressalta.

Apesar de se manter otimista, Camila sabe que mudar o pensamento de algumas pessoas é uma tarefa complexa. “Também não sou completamente Poliana. A pandemia veio para exacerbar as desigualdades no nosso país e no mundo. Mas sou otimista para seguir nessa caminhada, me instruindo. Espero que a humanidade acorde e faça valer seu desejo de vida”, torce.

Instantâneas

# Camila é filha do ator Antônio Pitanga e da atriz Vera Manhães, e irmã do também ator Rocco Pitanga.

# Em 1987, Camila tornou-se Angelicat, uma das assistentes de palco da apresentadora Angélica nos programas “Nave da Fantasia”, “Clube da Criança” e “Milk Shake”, na Rede Manchete. 

# Ao lado Beto Brant, a atriz é diretora do documentário “Pitanga”, que narra a trajetória e carreira do ator Antônio Pitanga.

# Camila estreou no vídeo aos sete anos de idade, no filme “Quilombo”, de Cacá Diegues.  

Felpuda


Apressadas que só, figurinhas tentaram se “apoderar” do protagonismo de decisão administrativa. Não ficaram sequer vermelhas quando se assanharam todas para dizer que tinham sido responsáveis pela assinatura de documento que, aliás, era uma medida estabelecida desde 2019. Quem viu o agito da dupla não pode deixar de se lembrar daquele pássaro da espécie Molothrus bonarienses, mais conhecido como chupim, mesmo. Afe!