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Capa B+: Entrevistas exclusivas com mãe e filha, as atrizes Vanessa Goulartt e Bárbara Bruno

"Minha mãe é uma profissional incrível, dedicada, criativa e apaixonada. Ela também é uma pessoa linda, doce e afetuosa, e eu ainda tenho o privilégio de a chamar de mãe".

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Recentemente as atrizes Bárbara Bruno e Vanessa Goulartt, se uniram novamente na vida e na arte.
Ambas cresceram nas coxias dos teatros e das TVs, afinal de contas, a família Goulart atravessa gerações de talentos hereditários.  

Vanessa atualmente dirige Alice e Picasso, que será exibido dia 04 de julho em São Paulo, e logo após um mini-documentário dirigido por Jamil Kubruk, que mergulha nos bastidores da peça e revela as camadas criativas e afetivas que compõem essa montagem instigante com texto de Alcides Nogueira.

Além da celebração da arte e do pensamento, a noite também marca uma data muito especial: o aniversário da atriz Bárbara Bruno, que integra o elenco ao lado de Joca Andreazza e Patrícia Vilela.

Para o Correio B+ desta semana, mãe e filha compartilharam com o Caderno simultaneamente e com exclusividade, momentos emocionantes de suas carreiras, inspirações em família  e também como é dividir a vida e os palcos juntas.

As atrizes Bárbara Bruno e Vanessa Goulart são a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fernando Diaz - Diagramação: Denis Felipe - Por Flávia Viana

Entrevista exclusiva com a atriz Vanessa Gourlartt:

CE - Você sempre quis ser atriz?
VG -
 Sempre foi um chamado muito natural pra mim. Acho que não foi uma decisão, foi quase uma consequência. Cresci nos bastidores, cercada por gente que respirava arte, emoção, transformação.

Mas mesmo com todas essas referências incríveis dentro de casa, nunca senti que era uma obrigação — era mais como uma necessidade interna, uma vontade de me comunicar com o mundo de um jeito mais profundo, mais simbólico. Então sim, de certa forma, eu sempre quis — ou melhor, eu sempre fui. Ser atriz pra mim não é só profissão, é identidade.

CE - A sua família influenciou nas suas escolhas?
VG -
 Com certeza influenciou, mas não no sentido de imposição — foi uma influência orgânica, quase inevitável. Cresci cercada por artistas que vivem com paixão o que fazem, que tratam a arte com respeito, entrega e verdade.

Ver meus avós, minga mãe, meus tios, tão comprometidos com a cena, com a palavra, com o público, me mostrou desde cedo que a arte pode ser um caminho de expressão profunda, de conexão com o outro e com a própria essência. Então sim, a minha escolha foi muito influenciada pela minha família — não porque disseram “vai por aqui”, mas porque fizeram eu enxergar a beleza e a força desse caminho.

CE - Como foi crescer nas coxias do teatro, da TV?
VG -
 Foi mágico. Crescer nas coxias do teatro e nos bastidores da TV é como viver entre dois mundos: o real e o encantado. Enquanto outras crianças brincavam de casinha, eu brincava de silêncio nos bastidores, ouvindo a respiração da plateia, sentindo o calor das luzes e o frio na barriga dos atores antes de entrar em cena. Aprendi a respeitar o ritual do palco, a potência de uma fala bem dita, o valor do coletivo.

Na televisão, via o jogo entre técnica e emoção, aquele universo que parece tão distante quando a gente assiste, mas que ali, nos bastidores, era quase minha segunda casa. Convivi com grandes artistas, mas antes de tudo, com grandes seres humanos.

E mesmo entre cabos, figurinos, ensaios e roteiros, o mais bonito era perceber que por trás de tudo aquilo havia afeto, dedicação e uma paixão quase sagrada pelo fazer artístico. Foi uma escola — de vida, de arte, de alma.

CE - Como era a sua relação com seus avós?
VG -
 Era (e é) uma relação de alma. Meus avós foram muito mais do que referências profissionais — foram pilares afetivos, companheiros de vida, mestres silenciosos e também barulhentos, no melhor sentido da palavra. Cresci cercada pelo amor deles, pela sabedoria generosa, pelo humor afiado e por um exemplo diário de ética, afeto e entrega à arte e à família.

Com a minha avó Nicette, aprendi sobre a força da delicadeza, a disciplina do ofício e a fé inabalável na vida, mesmo diante da dor. Com meu avô Paulo, descobri o poder do humor, da leveza e da palavra como instrumento de transformação.

Eles estavam presentes em tudo: nas minhas primeiras leituras, nas minhas dúvidas, nos meus aplausos e nos meus silêncios. E quando dividi o palco com eles, foi como se o tempo se curvasse — ali estavam  gerações unidas pelo mesmo encantamento.

Minha relação com eles é uma herança viva, que me atravessa todos os dias — na minha arte, nas minhas escolhas e, principalmente, na forma como enxergo o mundo.

CE - Você trabalha com sua mãe, Barbara, como é?
VG - 
Trabalhar com a minha mãe,  Bárbara, é uma mistura linda de entrega, intensidade, afeto e... um certo caos organizado — no melhor estilo de quem se conhece até o silêncio. A gente tem uma conexão muito forte, quase telepática em cena, mas ao mesmo tempo, sabemos exatamente onde cutucar uma à outra fora dela (risos).

Ela é uma atriz brilhante, comprometida, visceral, e como diretora ou parceira de cena, me desafia, me provoca, me inspira. 

É uma troca muito rica, porque vem carregada de verdade. A gente se respeita muito como profissionais, mas nunca deixa o amor de fora. E isso, pra mim, é o maior privilégio: poder criar ao lado de alguém que me conhece tanto e que eu admiro profundamente — como mãe, como artista e como mulher.

CE - E o jornalismo, como aconteceu?
VG -
 O jornalismo chegou meio de mansinho, mas com muita força. Sempre tive essa inquietação com o mundo, essa vontade de entender as coisas mais a fundo, de ouvir histórias, de provocar reflexões. E, ao mesmo tempo, sempre gostei de comunicar, de transformar informação em algo vivo, que tocasse as pessoas.

Então, quando percebi que podia juntar tudo isso — curiosidade, escuta, sensibilidade e comunicação — o jornalismo fez todo sentido. Não foi uma ruptura com a atuação, mas uma expansão. É como se eu tivesse encontrado uma outra forma de estar em cena, só que com o mundo real como palco.

Apresentar, entrevistar, escrever… tudo isso me alimenta como artista e como pessoa. Porque no fundo, seja no teatro, no rádio ou na TV, meu desejo é o mesmo: criar conexões e despertar algo em quem me ouve ou me assiste.

CE - Fale um pouco sobre o seu livro que lançou em 2023 e o programa Despadronizada na Rádio Mundial...
VG -
 Lançar meu primeiro livro em 2023 foi uma jornada transformadora. Nele compartilho fragmentos da minha vida – memórias de família, escolhas artísticas e a construção da minha identidade entre tantas gerações de artistas. Não é apenas um relato da carreira, mas um mergulho em emoções e histórias que moldaram quem sou.

Foi um processo de revisão, de ressignificação: transformar lembranças em palavras, trazer o íntimo ao público. Cada página carrega afeto, desafios, aprendizados... e uma verdade que pulsa no fundo do peito. Uma libda parceria com a editora Leader.

O “DeZpadroniZada” nasceu dessa inquietação com padrões pré-estabelecidos. Toda semana, na Vibe Mundial FM, a gente conversa com convidados que trazem visões que fogem do comum: especialistas, artistas, pessoas que provocam o pensar.

Levar essa pluralidade de olhares ao rádio me deu outra forma de ver meu trabalho: não apenas como atriz ou jornalista, mas como provocadora, mediadora, inquieta. Falar de temas menos óbvios, trazer uma linguagem leve, genuína virou parte da minha missão no “DeZpadroniZada”.

Em Família - Divulgação

CE - Conta pra gente sobre a peça “Gertrude, Alice e Picasso”.
VG -
 "Gertrude, Alice e Picasso" é uma peça muito especial pra mim. Dirigir esse texto do Alcides Nogueira, que foi escrito originalmente pra minha avó Nicette, é um presente afetivo e artístico. A peça mistura passado e presente, com humor, delicadeza e muita inteligência. Traz Gertrude Stein, Alice B. Toklas e Picasso num encontro imaginário que brinca com o tempo e com a arte.

Tem minha mãe, Bárbara Bruno, no papel que foi da minha avó, Nicette, ao lado de Patrícia Vilela e Joca Andreazza — um trio potente em cena. E pra mim, como diretora e neta, é também um ato de amor, de continuidade e de reinvenção. É memória viva, pulsante, com um olhar atual. Uma celebração da arte e da nossa história familiar.

CE - Qual a sua maior inspiração ou inspirações?
VG - 
Minhas maiores inspirações vêm de muitos lugares, mas, sem dúvida, começam dentro de casa. Meus avós, Nicette Bruno e Paulo Goulart, são faróis na minha vida — pela ética, pela entrega à arte, pelo amor que colocavam em tudo o que faziam. Minha mãe, Bárbara Bruno, também é uma inspiração constante: pela força, pela coragem e pela generosidade com que vive e trabalha.

Mas também me inspiro muito em mulheres que desafiaram padrões, que ousaram existir fora das caixinhas — na arte, na literatura, na vida. Gente que transforma dor em beleza, rotina em poesia, dúvida em potência criativa. E me inspiro também na imperfeição, no tropeço, no cotidiano — porque, no fundo, é aí que moram as melhores histórias.

Ah, e claro… me inspiro muito em quem ri de si mesmo. Porque ter senso de humor é uma forma muito séria de resistir.

CE - Tem algum personagem que tem vontade de atuar e outro que tenha sido muito marcante?
VG -
 Um marcante foi a Ana Paula no filme "Dois Córregos", de Carlos Reichenbach. Quanto a vontade, gosto de ser surpreendida! Sem muitos planos!

CE - Um saudade que a Vanessa tem...
VG - 
Muitas...minha avó Nicette, meu avô Paulo, minha bisavó Nonoca, minha tia Dedeia, minha Nonna Ida, meu Nonno Atílio, meu padrinho Carlos Armando, enfim...muita gente amada do lado de lá!

CE - Quais são seus projetos futuros?
VG -
 Como disse, não gosto muito de planos e sim de me surpreender, mas meu programa DeZpadronizada dá margem a muitas possibilidades, quero que ele se expanda cada vez mais. 

As atrizes Bárbara Bruno e Vanessa Goulart são a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fernando Diaz - Diagramação: Denis Felipe - Por Flávia Viana

Entrevista exclusiva com a atriz Bárbara Bruno:

CE - Bárbara, ser atriz foi uma influência da sua família?
BB -
 Eu nasci numa coxia de teatro o palco era o quintal da minha casa se você considerar isso como influência Sim foi uma influência agora se você me perguntar se eu escolhi ser atriz por influência aí a resposta não Eu sempre tive absoluta liberdade de escolha e quando escolhi seguir essa carreira eu sabia exatamente o que eu estava fazendo.

CE - Você gosta mais de atuar, dirigir ou produzir? Ou todas as alternativas?
BB -
 Essa é uma pergunta difícil de responder, mas sem dúvida nenhuma em primeiro lugar eu sou uma atriz, nasci atriz, e vou morrer atriz, dirigir foi uma consequência, e é uma consequência maravilhosa porque eu sempre tive essa intimidade com o palco e esse olhar crítico que é tão importante para quem dirige e tive grandes mestres como diretores Antônia bujão Roberto Lage Antonio mercado Marcelo Marchioro, meu Deus, foram foram muitos e grandes. Gosto de dizer que eu sou uma mulher de teatro e para ser uma mulher de teatro a gente tem que atuar em todas as áreas. 

CE - Como foi crescer nas coxias de teatros e da TV? Alguma lembrança especial?
BB -
 Crescer numa coxia de teatro num estúdio de televisão nada é mais enriquecedor para uma criança, não é porque ali o mundo é lúdico, o mundo é cheio de fantasias, mas ao mesmo tempo é extremamente educador, porque doce ilusão achar que no teatro não se precisa de disciplina, ao contrário foi ali que eu aprendi a disciplina e foi ali que eu aprendi que pra sonhar a gente precisa ter os pés no chão, e tenho grandes lembranças de assistir muita gente boa e importante, isso ficou sem dúvida nenhuma plasmado no meu coração e no meu intelecto.

CE - Como era a sua relação com os seus pais?
BB -
 Minha relação com meus pais foi muito rica, recheada de acertos e erros, mas principalmente uma via de Mão Dupl,a isso é tão importante porque te estimula em primeiro lugar a não ser dona da Verdade, e em segundo lugar a procurar sempre o valor verdadeiro dos sentimentos, isso eu tive o privilégio de nascer dessas duas criaturas incríveis e que sempre buscaram uma verdade grande e uma justiça maior de vida.

CE - Como foi a homenagem do Prêmio Shell para a família Goulart?
BB -
 A homenagem do prêmio shell foi linda! Poxa vida, o que que eu posso te dizer sobre isso a não ser a grande emoção que é ver o trabalho e o legado dessa nossa família ser reconhecido por um prêmio tão importante. Foi uma emoção muito grande e um estímulo para que a gente não não desista nunca.

CE - Você chegou a exercer a publicidade?
BB -
 Exerci a publicidade sim, e foi um período muito rico de muitas experiências para mim. Trabalhei por mais de dois anos na Saldiva e Associados, uma agência que teve uma grande importância aqui em São Paulo de experiências maravilhosas. Eu fazia parte do grupo de criação, e fazia dupla de criação com Ricardo de Almeida que foi um grande parceiro .Eu dirigi comerciais para televisão então foi um período muito rico na minha experiência na minha experiência de vida.

CE - Como era atuar antigamente como na TV Tupi e agora?
BB -
 Uma diferença gritante de quando eu eu estreei em 1972 na TV Tupi para agora... A técnica cresceu e mudou muito, muito mesmo, consequentemente a forma de se fazer televisão ela acompanhou essa mudança, então era um processo muito diferentes no início a televisão, era muito mais próxima do fazer teatral,as duas linguagens estavam mais próximas porque a televisão vinha do teatro depois ela criou a sua linguagem própria e a partir daí a técnica de fazer televisão mudou.

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CE - Você tem um personagem marcante e um que ainda deseja fazer?
BB - 
Eu costumo dizer que o personagem de maior desafio ainda está por vir não é porque eu gosto de acreditar que o pulo será sempre para frente mas isso não significa que eu não tenha um grande amor e um grande respeito por todos os personagens que eu realizei na minha os personagens são como filhos então é muito difícil a gente ter prioridades com relação a eles mas Gertrudes está em Sem dúvida nenhuma.

Uma personagem extremamente forte extremamente rica que tá me dando um prazer enorme de realização é te ver o privilégio de interpretar a Laura Wimgfield texto de Tenesse Williams ". A margem da vida" foi um personagem lindo, meu Deus do céu marcante, inesquecível fiz há uns anos atrás, a Norma um personagem das meninas velhas escrito pelo Cláudio Tovar que foi um prazer.

Uma emoção grande meu Deus do céu tive tantos personagens marcantes importantes tive a oportunidade de fazer um personagem do romance da Zíbia Gasparetto e que foi um espetáculo que ficamos fazendo por mais de 5 anos, e que foi tão importante para tantas pessoas eu vou cometer injustiça se eu começar, se eu continuar falando que eu tenho que citar todos eles e todos eles têm a certeza foram feitos a base da paixão e na sequência com muito amor.

CE - Fala pra gente sobre a peça “Gertrude, Alice, Picasso”.
BB -
 Gertrude, Alice, e Picasso, é um desses raros espetáculos, porque são personagens muito efervescentes. A essência deles é exatamente a inquietação, a busca pelo novo, a busca pelo questionamento, a busca pela qualidade, essa mola propulsora interna, que esses personagens têm dentro de si, que impulsionam, inclusive, a geração perdida, que entre aspas foi criada pela Gertrude Stein, então é um espetáculo muito estimulante para nós, interpretes, e acredito que para o público também, porque essa vivacidade está muito presente em cena. Então, eu repito, é um espetáculo extremamente estimulante.

CE - Qual a sua relação com a internet?
BB -
 Uma relação de amor e ódio, estou sempre correndo atrás da internet e não consigo acompanhá-la,  por outro lado é estimulante, porque não me acomodo. 

CE - Como é trabalhar com a Vanessa?
BB -
 Trabalhar com a Vanessa é um presente, isso a gente foi conquistando ao longo da nossa trajetória profissional. Vanessa é uma profissional muito precisa, muito crítica, no bom sentido da palavra. Ela é uma profissional séria, e ao mesmo tempo com muito sentimento.

Então é muito estimulante,nós nos damos muito bem cenicamente e profissionalmente, independente da nossa relação como mãe e filha. Aliás, isso na nossa família, a gente nasceu sabendo, a gente não mistura as coisas não, são processos bem diferentes o processo profissional, do processo familiar.

CE - Tem alguma lembrança de vocês duas que nunca se esqueceu?
BB -
 Muitas lembranças, pessoais e profissionais. Mas sem dúvida, o nascimento dela.

CE - Como você vê o artista nos tempos de hoje?
BB -
 O artista está sempre refletindo a sociedade que ocupa. Nossa sociedade está bastante tecnológica, muito rápida,  as coisas acontecem numa velocidade impressionante e o artista precisa dialogar com seu tempo. 

 

Música

História do hip-hop de Mato Grosso do Sul passa pelo arquivo do Correio do Estado

Exposição no Museu da Imagem e do Som reúne jornais, discos e memórias do movimento, com curadoria do rapper Mano Cley e destaque para o papel da imprensa na preservação da história

01/04/2026 10h45

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogado

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogado Mariana Piell/Correio do Estado

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Organizada, documentada e aberta ao público. A exposição “Digitalizando a História: 40 anos da Cultura Hip-Hop em Campo Grande” transforma quatro décadas de resistência cultural em memória viva, reunindo recortes de jornais (em sua maioria do Correio do Estado), discos, fotografias e objetos que ajudam a contar como um movimento nascido nas ruas conquistou espaço, respeito e políticas públicas ao longo do tempo.

Instalada no Museu da Imagem e do Som (MIS) em Campo Grande, a mostra está aberta no terceiro andar do prédio, com visitação de segunda-feira a sexta-feira, das 7h30min às 17h30min. A entrada é gratuita.

À frente da curadoria está Mano Cley, rapper e um dos pioneiros do hip-hop em Mato Grosso do Sul. Com trajetória iniciada ainda nos anos 1980, ele assumiu a missão de selecionar os momentos mais marcantes dessa história – tarefa que, segundo ele, foi facilitada por ter vivido cada fase do movimento.

“Como sou um dos pioneiros aqui na Capital, ficou mais fácil para mim. Eu mesmo fiz a curadoria, selecionando os eventos mais importantes durante esses 40 anos do hip-hop campo-grandense”, explica.

MEMÓRIA IMPRESSA

Um dos aspectos mais simbólicos da exposição é a origem do acervo: grande parte do material foi construída a partir de reportagens publicadas em jornais locais ao longo das últimas quatro décadas. Entre eles, o destaque absoluto vai para o Correio do Estado, que, segundo Mano Cley, se tornou uma espécie de “bússola histórica” do movimento.

Ao todo, são 49 matérias do jornal presentes na exposição, abordando diferentes dimensões do hip-hop – da música à educação, passando por questões sociais, movimento negro, combate à violência e organização comunitária.

“A construção do acervo foi feita toda através dos jornais. Além de servir como prova da nossa existência, ficou registrado ao longo de 40 anos a nossa história. O Correio do Estado teve um papel fundamental nisso”, destaca o artista.

Outros veículos também contribuíram para a preservação dessa memória, como Diário da Serra, O Estado, Folha do Povo, A Crítica e O Progresso. 

Uma das curiosidades resgatadas pela mostra é o lançamento do disco da Falange da Rima no dia 11 de setembro de 2001 – a mesma data dos atentados às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. O episódio está registrado nas páginas do jornal, assim como diversos outros momentos emblemáticos.

INÍCIO ÁRDUO

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogadoQuatro décadas de jornais impressos sobreviveram ao tempo dentro um baú guardado por Mano Cley - Foto: Mariana Piell

Se hoje o hip-hop ocupa palcos, editais e espaços institucionais, o começo foi marcado por escassez e improviso. Mano Cley relembra que, nos anos 1980, não havia estrutura, equipamentos ou reconhecimento.

“A cultura hip-hop teve início a ferro e fogo. Não tínhamos nada: nem equipamento, nem informação, nem respeito. A única coisa que a gente tinha era a rua”, afirma.

Sem espaços adequados, os primeiros encontros aconteciam onde era possível. Em 1989, a Praça Ary Coelho chegou a ser um ponto de encontro, mas o grupo foi retirado sob a justificativa de que não era um local apropriado para dançar, mesmo durante o dia.

A alternativa foi ocupar outros espaços urbanos – como a Avenida Afonso Pena, em frente ao Obelisco, que se tornou o primeiro grande “point” do hip-hop em Campo Grande.

Ali, grupos como Perfect Break, Street Break e Break Violento se reuniam para dançar, trocar experiências e construir identidade.

“Levávamos papelão para dançar no chão, rádio movido a pilha ou bateria de carro. Era tudo muito difícil, mas a gente fazia acontecer”, lembra.

A comunicação também era um desafio: sem celulares ou internet, os encontros eram combinados por meio de telefones públicos, com fichas e horários marcados com precisão.

CONQUISTA DE ESPAÇO

Com o tempo, o movimento se expandiu. Os encontros migraram para o Terminal Bandeirantes, onde novas gerações começaram a surgir e formar grupos. Ainda assim, o reconhecimento institucional demorou a chegar.

Segundo Mano Cley, uma das maiores transformações dos últimos 40 anos está nas políticas públicas voltadas à cultura.

“Hoje temos editais do governo federal, estadual e municipal. Isso ajuda muita gente a mostrar seu trabalho e faz com que a cultura chegue gratuitamente ao público. Esse é um dos grandes legados que conseguimos deixar”, avalia.

Ele ressalta que artistas do movimento participaram ativamente da inclusão do hip-hop em políticas de fomento cultural – algo impensável nas décadas iniciais.

Entre os inúmeros shows realizados ao longo da carreira, Mano Cley destaca um momento específico como divisor de águas: a apresentação no Festival de Inverno de Bonito, em 2023.

“Foi a primeira vez que o rap regional subiu ao palco principal. Fizemos um show com homenagem à música do Mato Grosso do Sul, e o público abraçou a ideia do início ao fim”, conta.

Transmitida ao vivo pela TVE e posteriormente exibida em programas culturais, a apresentação abriu novas portas para o grupo, incluindo premiações e convites para apresentações fora do Estado.

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Mais do que música e dança, o hip-hop sempre teve um forte componente social. Mano Cley relembra ações realizadas desde os anos 1990, como palestras em escolas sobre violência e campanhas solidárias.

“A gente sempre fez trabalho social. Quando gravamos um clipe na antiga Cidade de Deus, por exemplo, fizemos arrecadação de alimentos e agasalhos para as famílias. Sempre tivemos esse compromisso”, afirma.

Segundo ele, essas iniciativas ajudaram a fortalecer o papel do hip-hop como ferramenta de transformação social.

PARTICIPAÇÃO FEMININA

A exposição também dá visibilidade à participação feminina no movimento, muitas vezes invisibilizada ao longo dos anos. Apesar de serem minoria, as mulheres sempre estiveram presentes – e respeitadas, segundo Mano Cley.

Entre os destaques estão as b-girls Edivania, Tata, Carolzinha e Agulhinha, além da rapper Nega Bill e do grupo TNT, que posteriormente se tornou “Aliadas Periféricas”.

O grupo feminino ganhou projeção nacional, realizando shows em estados como Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, consolidando seu espaço dentro da cultura hip-hop.

MEMÓRIA VIVA

A mostra também presta homenagem a nomes importantes do movimento que já faleceram, como Osney Damasceno, Marcelinho, MHO, Flynt – parceiro de Mano Cley por mais de 30 anos –, Bolinho e Ratinho.
“São pessoas que fazem muita falta pra gente. Essa homenagem é uma forma de manter viva a memória deles”, afirma.

ACERVO COLABORATIVO

Composto por camisetas, discos, recortes de jornais, equipamentos e outros itens, o acervo impressiona pela quantidade – ainda não totalmente contabilizada.

“Eu acredito que tenha mais de 100 discos, mas ainda não contei tudo. É muita coisa mesmo”, diz o curador.
Entre os objetos, há peças simbólicas, como uma camiseta que pertenceu ao cantor Chorão, utilizada em um show em Mato Grosso do Sul em 2012, pouco antes de sua morte.

Mais do que uma exposição estática, o projeto tem caráter colaborativo. O público é convidado a contribuir com itens que ajudem a contar a história do hip-hop no Estado, ampliando continuamente o acervo.

Após o fim da exposição, todo o material levantado, seja diretamente por Cley ou pela contribuição do público, será catalogado para preservar e manter viva a história do hip-hop em Mato Grosso do Sul.

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Felpuda

Que ninguém se surpreenda com algumas figurinhas políticas que já estão...Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quarta-feira (1)

01/04/2026 00h03

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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LEANDRO KARNAL - ESCRITOR BRASILEIRO

"O dramático do mundo de 2017 é que aumentamos tanto a comunicação que ela corre o risco de se tornar irrelevante. Talvez por isso a gente digite tanto: não há mais nada a dizer”.

 

FELPUDA

Que ninguém se surpreenda com algumas figurinhas políticas que já estão andando por aí em trajes que parecem criações de estilista que está naquela fase difícil “de marré deci”. O modo look cheio de glamour foi desativado até o término das eleições, pois o momento é de mostrar para o distinto eleitor que não existe nenhum tipo de diferença entre o chamado povo comum e a galerinha que está investida de um mandato político. Não há como deixar de parafrasear George Orwell, em sua obra “A Revolução dos Bichos”: “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”.

Diálogo

Chegou...

Quem chegou com pompas e circunstâncias no Republicanos foi o deputado federal Beto Pereira, que, tão logo se filiou, assumiu o comando estadual do partido. O parlamentar era tucano de quatro costados, tendo sido eleito para seu primeiro mandato de deputado estadual em 2014.

Chegando

Em 2024, ainda no ninho tucano, disputou a prefeitura da Capital, sem sucesso. Sua entrada no Republicanos, em Brasília, teve aval do governador Eduardo Riedel (PP) e do ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), além do presidente do seu novo partido, Marcos Pereira. Huum...

DiálogoLuis Pedro Scalise
DiálogoDra. Gabrielle Borges Schunke

Cá ou lá

Do trio de deputados federais de MS do ninho tucano, Geraldo Resende deverá ser quem apagará a luz. O primeiro a deixar o PSDB foi Beto Pereira, que vai tentar a reeleição pelo Republicanos. Dagoberto Nogueira também “bateu as asas” para fazer parte do Progressistas (PP). Resende, por sua vez, não está com permanência concretizada e pode, dependendo da situação política, migrar para o Republicanos, da direita, ou PV, da esquerda.

Se...

O deputado federal Marcos Pollon fez questão de fazer selfie com o presidenciável Flávio Bolsonaro, nos EUA. Político da direita não conservadora comentou que, se o parlamentar tentou mostrar que continua sendo o “pré-candidato do bilhete” ao Senado, não mudou nada do que está sendo articulado nos bastidores para definição e, se buscou agradar o eleitor, não deve ter atingido o objetivo em sentido mais amplo. E acrescentou: “O deputado deve lembrar que será submetido às urnas em MS, e não nos EUA”. Essa gente...

De saída

O secretário de Administração, Frederico Felini, estaria cogitado para deixar o cargo com a finalidade de coordenar a campanha eleitoral à reeleição do governador Riedel. Em seu lugar ficaria o secretário-adjunto Roberto Gurgel de Oliveira Filho, ex-delegado-geral da Polícia Civil. Felini, antes de assumir a SAD, foi secretário-adjunto da Segov da atual administração estadual e exerceu cargos na prefeitura de Maracaju. É um dos homens de confiança do chefe do Executivo.

Aniversariantes

Carlos Edson Lopes Elesbão,
Auto Soares,
Maria Clara Viçoso Kawahata Barreto,
Augusto César Ribeiro Barbato,
Celso Reggiori Brito,
Sônia da Silva Dantas Galindo,
Florindo Mituo Gondo,
Benjamim Alves de Arruda,
Carlos Roberto Stradiot,
Eurípedes Guedes,
Edgar da Costa Marques Filho,
Irene Brites Barbosa,
Maria Elismar de Souza Saraiva,
Mara Catarina Unamuzaga Fiorenza,
Norma Suely Lins Mendes,
Mauricio Parreira Pimenta,
Hugo Firmino Ramires,
Marta Beatriz Galdino de Alencar,
Cássio Possas,
Vitor Rabelo Gonçalves,
Lucila de Azevedo,
Deise Alves Monteiro,
Laurice Hernandes,
Anaisa Huga Basto,
Débora do Amaral,
Oswaldo Arruda Mendes,
Luis Carlos Asato,
Washington Costa (Xitão),
Dr. Germano Vieira de Freitas,
Décio Mansano Rosa,
Dr. Victor Rocha Pires de Oliveira,
Dulce de Oliveira Mariúba,
Virgínia Ladeira Guimarães,
Ana Cristina Silva Cangussu,
Berenice Freire Costa,
Nilton Vieira Coutinho,
Tiyokaio Oshiro,
Francisco Teixeira Delmondes,
Sonia Ferreira da Silva,
Celestina Concepcion Cardozo Ayala,
João Paulo de Lima,
José Barbosa dos Santos,
Reginaldo Batista,
Dom Dimas Lara Barbosa,
Agnelo Simonetti,
Rita de Cássia Santos Manvailler,
Dra. Joselaine Boeira Zatorre,
Regina Coeli Adania,
José Kleber Borges de Barros Reis,
Francisco de Souza Bexiga,
Antônio Carlos Rezek,
Luiz Claudio Neves Serafim,
André Luiz da Costa Pacheco,
Márcia Celis Ferreira,
André Freitas dos Santos,
Hugo Cavalcanti Garcia,
Ormália Felix Pereira dos Santos,
Alda Ferreira,
Dr. Eduardo Gimenez Coletti,
Willian Tiyoso Nishioka,
Romeu Leite Cavassa,
Luiz Roselei Pereira Rodrigues,
Reynaldo Hilst Mattar,
Bruno Custódio Ribeiro,
Francisca Barbosa de Oliveira,
Ana Cristina Nogueira Silva,
Pedro Mendes Fontoura Netto,
Marcelo Esnarriaga de Arruda,
Leandro Henrique Rufato Zaia,
Homero Jandrey Locatelli,
Rosalina Feitosa dos Santos Silva,
Alexandre Haralampidis,
Mohamed Sleiman Ale,
Jussara Cintra Weiss Ramos,
Lenie Saraiva de Albuquerque,
Maricy Gomes de Souza,
Salvador Cuenca Dure,
Fabiano Antonio Bessan Junior,
José Roberto Vieira,
Renato Akira Inoue Junior,
Ana Maria Gouveia Pelarin,
Heloina Helena Alves Dias,
Juliane Vargas Ordacowski,
Regina Alves de Carvalho,
Marcos Alfredo Flora Melare,
Francisco Nogueira de Lima,
Regina Duarte Gonçalves,
Migueloncito dos Santos,
Alexandre Dourado Salina,
Sueli Arruda Cangussu Maymone,
Douglas Ribeiro Neves,
José Ernane Alenar,
Marcelo Joaquim Gonçalves,
Alcindor Mascarenhas Neto,
Claudio da Silva Malhada,
Janaína de Araújo Sant’ana,
Clarice Maria Ramos de Albuquerque Assis,
Gustavo Campos Lopes,
Tania Pereira Gouvêa,
Anísio Antônio de Lima,
Marco Antonio Vieira Souza,
Patrick Ferrreira Nunes,
Rafael Martins Mendonça,
Anna Rita Ferreira Barbosa,
Silvia Pereira de Oliveira,
Francisco Mário de Assis,
Luiz Enrico Marques,
Cristina Correia Antunes. 

COLABOROU TATYANE GAMEIRO

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