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PERFIL

Carol Duarte relembra seu início na tevê: "Cheguei sem saber nada de televisão. Não sabia me posicionar."

A atriz exalta a sua personagem, a jovem Ivana de "A Força do Querer"

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Uma novela das nove é recheada de tramas mirabolantes e elenco estelar e numeroso. Carol Duarte vivenciou tudo isso de perto durante sua estreia na tevê ao viver a jovem Ivana em “A Força do Querer”, que voltou ao ar recentemente em edição especial. Apesar de carregar inúmeras memórias e experiências dessa jornada de estreia na televisão, a atriz tem memórias especiais de seu primeiro dia nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, para a gravação de suas primeiras sequências. “Eu tenho uma profunda lembrança de acolhimento. Cheguei sem saber nada de televisão. Eu levantava e cobria meu colega de cena (risos). Não sabia me posicionar. Toda a equipe teve muita paciência para me ensinar e me ajudar. Quando entrei no estúdio pela primeira vez, o Rogério Gomes (diretor) me deu boas-vindas, falou que era para parar e sentir aquele momento. Fiz amizades para a vida”, valoriza.  

Em seu primeiro trabalho na televisão, Carol encarou uma personagem de peso na trama de Gloria Perez. Na história, Ivana é filha de Eugênio e Joyce, interpretados por Dan Stulbach e Maria Fernanda Cândido. A jovem foi criada à imagem e semelhança da mãe, uma mulher extremamente feminina e elegante. No entanto, Ivana não se identifica com esse universo e faz o que pode para não decepcionar Joyce, mas quando se olha no espelho, não consegue se reconhecer. Ao longo dos capítulos, inicia uma jornada para compreender sua identidade de gênero. “Como foi minha primeira novela, eu não tinha dimensão de como era o alcance. Logo na primeira semana de trama, a Gloria já coloca uma pulga atrás da orelha no público sobre a Ivana. As pessoas me paravam na rua e tentavam desvendar e ajudar a resolver o problema da Ivana. O público abraçou a Ivana sem entender o que estava acontecendo. Torciam pela felicidade dela”, explica.

Apesar de iniciar a novela interpretando Ivana, Carol sabia que, em determinado momento da história, o enredo seria completamente modificado. Ao passo que a personagem vai compreendendo melhor as angustias que sentia em relação ao próprio corpo e se descobre transexual, a atriz começou a criar o Ivan diante das câmeras. “Eu sabia que, no fim da novela, eu tinha de chegar no Ivan. Mas eu precisava construir essa trajetória. Obviamente, quem constrói mesmo é a Gloria. Porém, eu queria estudar e entender como aquilo se daria”, afirma Carol, que foi profundamente impactada pela temática ao longo do processo de composição. “Fui atravessada pela personagem. Essa ideia do binarismo está se desconstruindo. Também busquei entender o que era gênero, o que era ser mulher. Hoje, me sinto apta a olhar o mundo de forma diferente”, completa.

A exibição original de “A Força do Querer” foi em 2017. Apesar de reconhecer os avanços nos discursos sobre identidade de gênero, Carol alerta para a onda conservadora que dominou as discussões nos últimos anos. Para a atriz, a reprise da produção é uma forma de compreender as conquistas do passado e planejar os próximos passos. “As coisas estão muito loucas ultimamente. Estamos dando passos para trás até em questões cientificamente comprovadas há décadas, como se a terra é ou não redonda. Três anos é pouco, mas, no momento que estamos vivendo, é muito. É importante trazer essa discussão novamente. Vamos ver o quanto andamos e o quanto ainda precisamos andar”, analisa.

União faz a força

Ao saber que conquistou um papel de destaque em uma novela do horário nobre, Carol Duarte sabia que tudo poderia mudar de uma hora para a outra. As transformações, inclusive, começaram antes mesmo da estreia. Durante a primeira sessão de fotos promocionais da trama, a atriz começou a ter uma noção de sua nova rotina diante do vídeo. “Eu estava assustada com tudo. Era muito novo. O Dan falou que esse personagem iria mudar a minha vida. Fiquei gelada e senti um frio na espinha. Sabia que mudanças viriam, mas poderia ser para o bem ou para o mal. Tevê é um abismo. Nunca se sabe o que vai dar”, afirma.

Ao longo das gravações, Carol foi contando com o auxílio do elenco e da equipe durante o período de preparação para a novela. “Em um dos ensaios, a Paolla (Oliveira) virou e falou que ia dar tudo certo. A Maria Fernanda me chamava para estudar na casa dela. Essa contribuição de todos não acontece em todos os trabalhos. Infelizmente, não é algo comum”, aponta.

Instantâneas

# Após “A Força do Querer”, Carol participou de “O Sétimo Guardião” e da série “Segunda Chamada”.

# Em “A Força do Querer”, uma das cenas mais marcante para Carol foi a sequência em que Ivana corta o cabelo sozinha. “Dificilmente eu vejo essa cena de novo. Mexe muito comigo”, lembra.

# Carol começou a fazer teatro aos 15 anos.

# A atriz está cotada para o elenco da série “Mal Secreto”, protagonizada por Sergio Guizé.  

Direitos Humanos

Conselho de Psicologia defende população trans em Campo Grande

Após a Câmara Municipal aprovar o projeto de lei que trata do uso de banheiros públicos, o órgão entendeu a medida como violação dos direitos humanos

01/04/2026 17h39

Imagem Reprodução

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No Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado em 31 de março, o Conselho Regional de Psicologia da 14ª Região criticou a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 11.573/25 pela Câmara Municipal de Campo Grande.

Com 13 votos favoráveis e 11 contrários, a Casa de Leis aprovou o PL, que determina o uso de banheiros femininos exclusivamente por “mulheres biológicas”. O projeto, de autoria do vereador André Salineiro (PL), versa sobre uma suposta proteção às mulheres.

Na justificativa apresentada, o vereador cita casos ocorridos em outros países, nos quais pessoas trans teriam sido agredidas por terceiros ao tentar utilizar banheiros públicos.

Outro ponto que voltou à pauta é a questão esportiva, uma vez que anteriormente tramitou na Câmara Municipal um projeto que proibia atletas trans em equipes.

Na ocasião, um time de futebol feminino se recusou a entrar em campo devido à presença de uma mulher trans na equipe adversária. O PL foi vetado após parecer da Procuradoria-Geral do Município (PGM), que apontou que o tema é de competência da União.

No projeto atual, que pretende restringir o acesso de mulheres trans a banheiros públicos, também há a previsão de que o município deixe de financiar eventos esportivos com a participação de atletas trans, caso a proposta seja sancionada.

Defesa da dignidade

O Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul publicou, por meio das redes sociais, uma nota em defesa da dignidade da população trans.

Para o órgão, a aprovação da proposta viola os direitos humanos e configura “a instrumentalização da institucionalidade como arma contra mulheres transgênero e travestis no exercício de sua liberdade, a fim de promover a exclusão, constrangimento e violação da dignidade dessas pessoas”.

O conselho fundamentou seu posicionamento na Resolução CFP nº 01/2018, que orienta profissionais da psicologia e proíbe práticas discriminatórias ou qualquer menção patologizante.

“Além de determinar que psicólogas e psicólogos devem atuar para a eliminação da transfobia, sem se omitir diante da discriminação contra pessoas transexuais e travestis, o Conselho Regional de Psicologia da 14ª Região/MS consolida seu posicionamento em defesa da população trans, fundamentado em resoluções, notas técnicas e produções científicas que reconhecem a identidade de gênero como dimensão legítima da subjetividade humana, devendo ser respeitada em todos os espaços sociais”, diz a nota.

O conselho também ressaltou seu compromisso, lembrando que o Sistema Conselhos de Psicologia foi o primeiro a adotar o uso do nome social e a reconhecer esse direito como fundamental, assim como a identidade de gênero.

“Essa restrição de acesso a banheiros com base na identidade de gênero não possui respaldo científico, psicológico ou sanitário e contribui diretamente para o aumento do sofrimento psíquico, da vulnerabilidade social e da violência contra pessoas trans.

Como símbolo de força, orgulho, resistência e luta, agradecemos a todas as travestis, mulheres trans e pessoas transfemininas que estiveram e estão presentes na luta por uma prática mais acolhedora e diversa dentro da psicologia”, conclui a nota.

Outro lado

Também por meio das redes sociais, o vereador André Salineiro afirmou que o tema não pode ser “analisado de forma simplista”. No entanto, não propôs a ampliação do debate por meio de audiência pública antes da votação do projeto.

A reportagem questionou o parlamentar sobre a tramitação acelerada da proposta, sem a realização de audiência pública ou a convocação de especialistas de diferentes áreas. A assessoria do vereador informou que o regimento interno da Casa de Leis não requer que cada projeto de lei passe por  audiência pública. 

Mesmo envolvendo diversas questões que poderiam enriquecer o debate ao ser questionado se a Câmara Municipal não seria um espaço propício para receber especialistas, como representantes do Conselho de Psicologia, o vereador não se manifestou. O espaço segue aberto.
 

Confira a nota na íntegra:

“O Projeto de Lei nº 11.573/25 não trata de identidade ou dignidade de pessoas trans. Trata da organização de espaços específicos, como banheiros femininos e testes físicos em concursos, considerando critérios de privacidade, segurança e equilíbrio na convivência social.

Respeito opiniões divergentes, inclusive de instituições, mas é preciso responsabilidade ao analisar o conteúdo real da proposta, sem reduzir o debate a interpretações ideológicas.

O tema é complexo, envolve diferentes direitos e não pode ser tratado de forma simplista. Seguirei defendendo um debate sério, com respeito, equilíbrio e compromisso com a realidade da população”, afirmou Salineiro.

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Música

História do hip-hop de Mato Grosso do Sul passa pelo arquivo do Correio do Estado

Exposição no Museu da Imagem e do Som reúne jornais, discos e memórias do movimento, com curadoria do rapper Mano Cley e destaque para o papel da imprensa na preservação da história

01/04/2026 10h45

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogado

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogado Mariana Piell/Correio do Estado

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Organizada, documentada e aberta ao público. A exposição “Digitalizando a História: 40 anos da Cultura Hip-Hop em Campo Grande” transforma quatro décadas de resistência cultural em memória viva, reunindo recortes de jornais (em sua maioria do Correio do Estado), discos, fotografias e objetos que ajudam a contar como um movimento nascido nas ruas conquistou espaço, respeito e políticas públicas ao longo do tempo.

Instalada no Museu da Imagem e do Som (MIS) em Campo Grande, a mostra está aberta no terceiro andar do prédio, com visitação de segunda-feira a sexta-feira, das 7h30min às 17h30min. A entrada é gratuita.

À frente da curadoria está Mano Cley, rapper e um dos pioneiros do hip-hop em Mato Grosso do Sul. Com trajetória iniciada ainda nos anos 1980, ele assumiu a missão de selecionar os momentos mais marcantes dessa história – tarefa que, segundo ele, foi facilitada por ter vivido cada fase do movimento.

“Como sou um dos pioneiros aqui na Capital, ficou mais fácil para mim. Eu mesmo fiz a curadoria, selecionando os eventos mais importantes durante esses 40 anos do hip-hop campo-grandense”, explica.

MEMÓRIA IMPRESSA

Um dos aspectos mais simbólicos da exposição é a origem do acervo: grande parte do material foi construída a partir de reportagens publicadas em jornais locais ao longo das últimas quatro décadas. Entre eles, o destaque absoluto vai para o Correio do Estado, que, segundo Mano Cley, se tornou uma espécie de “bússola histórica” do movimento.

Ao todo, são 49 matérias do jornal presentes na exposição, abordando diferentes dimensões do hip-hop – da música à educação, passando por questões sociais, movimento negro, combate à violência e organização comunitária.

“A construção do acervo foi feita toda através dos jornais. Além de servir como prova da nossa existência, ficou registrado ao longo de 40 anos a nossa história. O Correio do Estado teve um papel fundamental nisso”, destaca o artista.

Outros veículos também contribuíram para a preservação dessa memória, como Diário da Serra, O Estado, Folha do Povo, A Crítica e O Progresso. 

Uma das curiosidades resgatadas pela mostra é o lançamento do disco da Falange da Rima no dia 11 de setembro de 2001 – a mesma data dos atentados às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. O episódio está registrado nas páginas do jornal, assim como diversos outros momentos emblemáticos.

INÍCIO ÁRDUO

Público pode contribuir com acervo pessoal para a mostra; no final da exposição tudo será catalogadoQuatro décadas de jornais impressos sobreviveram ao tempo dentro um baú guardado por Mano Cley - Foto: Mariana Piell

Se hoje o hip-hop ocupa palcos, editais e espaços institucionais, o começo foi marcado por escassez e improviso. Mano Cley relembra que, nos anos 1980, não havia estrutura, equipamentos ou reconhecimento.

“A cultura hip-hop teve início a ferro e fogo. Não tínhamos nada: nem equipamento, nem informação, nem respeito. A única coisa que a gente tinha era a rua”, afirma.

Sem espaços adequados, os primeiros encontros aconteciam onde era possível. Em 1989, a Praça Ary Coelho chegou a ser um ponto de encontro, mas o grupo foi retirado sob a justificativa de que não era um local apropriado para dançar, mesmo durante o dia.

A alternativa foi ocupar outros espaços urbanos – como a Avenida Afonso Pena, em frente ao Obelisco, que se tornou o primeiro grande “point” do hip-hop em Campo Grande.

Ali, grupos como Perfect Break, Street Break e Break Violento se reuniam para dançar, trocar experiências e construir identidade.

“Levávamos papelão para dançar no chão, rádio movido a pilha ou bateria de carro. Era tudo muito difícil, mas a gente fazia acontecer”, lembra.

A comunicação também era um desafio: sem celulares ou internet, os encontros eram combinados por meio de telefones públicos, com fichas e horários marcados com precisão.

CONQUISTA DE ESPAÇO

Com o tempo, o movimento se expandiu. Os encontros migraram para o Terminal Bandeirantes, onde novas gerações começaram a surgir e formar grupos. Ainda assim, o reconhecimento institucional demorou a chegar.

Segundo Mano Cley, uma das maiores transformações dos últimos 40 anos está nas políticas públicas voltadas à cultura.

“Hoje temos editais do governo federal, estadual e municipal. Isso ajuda muita gente a mostrar seu trabalho e faz com que a cultura chegue gratuitamente ao público. Esse é um dos grandes legados que conseguimos deixar”, avalia.

Ele ressalta que artistas do movimento participaram ativamente da inclusão do hip-hop em políticas de fomento cultural – algo impensável nas décadas iniciais.

Entre os inúmeros shows realizados ao longo da carreira, Mano Cley destaca um momento específico como divisor de águas: a apresentação no Festival de Inverno de Bonito, em 2023.

“Foi a primeira vez que o rap regional subiu ao palco principal. Fizemos um show com homenagem à música do Mato Grosso do Sul, e o público abraçou a ideia do início ao fim”, conta.

Transmitida ao vivo pela TVE e posteriormente exibida em programas culturais, a apresentação abriu novas portas para o grupo, incluindo premiações e convites para apresentações fora do Estado.

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Mais do que música e dança, o hip-hop sempre teve um forte componente social. Mano Cley relembra ações realizadas desde os anos 1990, como palestras em escolas sobre violência e campanhas solidárias.

“A gente sempre fez trabalho social. Quando gravamos um clipe na antiga Cidade de Deus, por exemplo, fizemos arrecadação de alimentos e agasalhos para as famílias. Sempre tivemos esse compromisso”, afirma.

Segundo ele, essas iniciativas ajudaram a fortalecer o papel do hip-hop como ferramenta de transformação social.

PARTICIPAÇÃO FEMININA

A exposição também dá visibilidade à participação feminina no movimento, muitas vezes invisibilizada ao longo dos anos. Apesar de serem minoria, as mulheres sempre estiveram presentes – e respeitadas, segundo Mano Cley.

Entre os destaques estão as b-girls Edivania, Tata, Carolzinha e Agulhinha, além da rapper Nega Bill e do grupo TNT, que posteriormente se tornou “Aliadas Periféricas”.

O grupo feminino ganhou projeção nacional, realizando shows em estados como Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, consolidando seu espaço dentro da cultura hip-hop.

MEMÓRIA VIVA

A mostra também presta homenagem a nomes importantes do movimento que já faleceram, como Osney Damasceno, Marcelinho, MHO, Flynt – parceiro de Mano Cley por mais de 30 anos –, Bolinho e Ratinho.
“São pessoas que fazem muita falta pra gente. Essa homenagem é uma forma de manter viva a memória deles”, afirma.

ACERVO COLABORATIVO

Composto por camisetas, discos, recortes de jornais, equipamentos e outros itens, o acervo impressiona pela quantidade – ainda não totalmente contabilizada.

“Eu acredito que tenha mais de 100 discos, mas ainda não contei tudo. É muita coisa mesmo”, diz o curador.
Entre os objetos, há peças simbólicas, como uma camiseta que pertenceu ao cantor Chorão, utilizada em um show em Mato Grosso do Sul em 2012, pouco antes de sua morte.

Mais do que uma exposição estática, o projeto tem caráter colaborativo. O público é convidado a contribuir com itens que ajudem a contar a história do hip-hop no Estado, ampliando continuamente o acervo.

Após o fim da exposição, todo o material levantado, seja diretamente por Cley ou pela contribuição do público, será catalogado para preservar e manter viva a história do hip-hop em Mato Grosso do Sul.

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