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LITERATURA

Com pandemia, clubes de leitura precisaram se adaptar e até incluíram séries nas discussões

Devido às medidas de biossegurança, os grupos foram para o ambiente on-line e viram surgir novos integrantes
24/11/2020 07:30 - Naiane Mesquita


Ao contrário do que se podia imaginar no início da pandemia, a leitura ganhou mais espaço no cotidiano dos brasileiros com o passar do tempo, até mesmo entre aqueles que já tinham uma relação estreita com a literatura.

A jornalista Evelise Couto, coordenadora regional do projeto Leia Mulheres CG, explica que o grupo se reuniu presencialmente apenas duas vezes em 2020, mas que isso não foi motivo para diminuir o índice de leituras do ano. “A adaptação foi melhor do que imaginei. Este ano, fizemos apenas duas reuniões presenciais [fevereiro e março]. Todas as outras foram on-line e deram muito certo. Inclusive foram e ainda são um alívio para quem estava e ainda está fazendo o isolamento social certinho. Além do mais, ter uma meta de leitura ajudou bastante no período”, explica.  

O projeto, que vem de uma inspiração nacional, tem como meta ler obras apenas de escritoras, como uma forma de valorizar e reconhecer o talento feminino. Criado em julho de 2018, o grupo conseguiu manter o número de participantes e até agregou leitoras do interior do Estado, o que antes, com os encontros presenciais, não era possível. “Entraram novos membros, mas alguns membros antigos não se adaptaram ao modo on-line, então empatamos. A parte interessante é que temos participantes do interior do Estado, como Naviraí e Corumbá. A modalidade on-line abriu a possibilidade de pessoas de qualquer canto participarem das reuniões”, ressalta Evelise.

Além dos participantes, os encontros on-line acabaram se tornando um alívio em meio a toda a tensão que existe no ano de 2020. “Os encontros on-line, às vezes, estendem-se por horas, são mais longos que os presenciais. Tem sido uma espécie de compromisso social, então, além de falar da leitura, claro que acabamos também colocando a conversa em dia. O grupo fez nascer muitas amizades e afinidades”, conta a jornalista.  

Entre os desafios, está principalmente a adaptação com os aparatos tecnológicos, que nem sempre colaboram com as reuniões. “Ainda vejo alguns participantes com dificuldades técnicas e também outros que dizem que, como passam muito tempo no computador durante a semana, não conseguem participar do grupo. Mas, de maneira geral, a adaptação foi boa”, frisa.

Apesar dos pontos positivos, Evelise ainda sonha com um reencontro presencial. “Não podemos dizer que migramos para o on-line porque, assim que for possível, vamos voltar para os encontros presenciais. Sentimos muita falta, e é uma parte imprescindível do projeto”, pontua.  

Cinema e literatura

Outro grupo de leitura que sentiu os impactos do coronavírus, mas não se abalou, foi o Vórtice Literário. Criado em 2018, a partir de outra iniciativa, o Vórtice Fantástico, o grupo reúne em média de 15 a 20 pessoas, que debatem abertamente sobre as leituras que realizaram ao longo do mês. “Nós nos reunimos desde 2014, quando era o Vórtice Fantástico. Nessa época, era um projeto nacional que tinha grupos em várias capitais, os participantes escolhiam um livro de literatura fantástica para ler, fosse terror, fantasia ou ficção científica. Esse grupo nacional se desfez em 2016, e nós seguimos nos reunindo até decidir seguir a proposta de abrir as leituras e todos participarem. Em 2018, criamos o novo grupo, mas mantivemos o número de reuniões, porque é o mesmo grupo que se encontra, só mudamos o formato”, explica Daniel Rockenbach.  

Nos moldes da leitura livre, cada participante pode escolher o livro que quiser. “A ideia de leitura livre veio quando percebemos que as reuniões juntavam cada vez menos participantes. Demos uma pausa e voltamos com essa proposta de cada um falar sobre o que leu no período, assim, todos trazem suas leituras e participam das reuniões”, ressalta.

No início da pandemia, a maior dificuldade que Daniel notou nos participantes foi manter o ritmo. “Nas primeiras reuniões, entre março e junho, muitos contavam começar uma leitura, mas, pela fadiga, ficavam sem concluir. Nesse sentido, até criamos o encontro Vórtice Cinematográfico, já que muitos estavam mais assistindo filmes e séries do que lendo. Passamos a alternar a cada duas semanas reuniões sobre literatura e cinema”, ressalta.

Por volta do mês de julho, os leitores começaram a voltar à velha forma. “O pessoal voltou a ler mais e comentar romances longos, em vez de ficar nos contos e nos quadrinhos mais curtos”, frisa.  

No formato on-line, o lado positivo é o aumento de participantes nas reuniões. “As reuniões começam com poucos participantes e terminam cheias, as pessoas entram ao longo da reunião por ser on-line. Começamos às 16h e vamos até as 21h em alguns encontros”, indica.

De acordo com Daniel, um dos pontos positivos das reuniões on-line foi o aumento no número de participantes. “Aumentou a presença dos participantes, o pessoal que costumava ir em uma ou outra reunião passou a ir sempre. Dos fixos, é raro alguém faltar, e entraram alguns novos membros”, conta.  

E-books

Outra tendência observada na pandemia é o aumento de adesão aos livros digitais. Mato Grosso do Sul está, por exemplo, entre os cinco estados do País com maior média de leitura digital, especialmente entre os estudantes.

Na faixa etária entre 14 e 17 anos, 11% preferem ler com auxílio das novas tecnologias, enquanto 10% ainda tem preferência pelo livro de papel. Na plataforma Árvore, utilizada por escolas públicas e privadas, a média geral de livros lidos é de 4,7 por aluno no ano, quase o dobro da média nacional, que é de 2,6 livros por ano, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Evelise e Daniel são adeptos do livro digital há algum tempo. “Eu já sou adepta do livro digital antes da pandemia, por uma questão de praticidade”, frisa Evelise. Já Daniel aproveita para treinar o inglês e o espanhol. “Leio e-book e físico, mas na maioria das vezes físico. E-book leio quando estou na rua ou antes de dormir, uso mais o Kindle para comprar livros que não saíram por aqui. Tenho mais livros em inglês e espanhol que em português”, pontua.