Especialista explica como se vestir para enfrentar manhãs geladas, tardes quentes e as mudanças climáticas extremas previstas para os próximos meses em Mato Grosso do Sul
Apesar de o calendário ainda marcar outono, os sul-mato-grossenses já sentiram, na última semana, uma amostra do inverno que está por vir. Em diversas cidades de Mato Grosso do Sul, as temperaturas despencaram durante as madrugadas e manhãs, enquanto as tardes seguiram relativamente quentes, cenário típico do clima da região Centro-Oeste.
Em um mesmo dia, foi preciso sair de casa agasalhado, carregar casacos ao longo da rotina e terminar a tarde com calor.
Essa oscilação térmica, bastante comum no Estado, deve se tornar ainda mais desafiadora nos próximos meses.
Além da chegada oficial do inverno, meteorologistas já alertam para a influência do chamado Super-El Niño, fenômeno climático que pode intensificar extremos de temperatura, períodos de seca, ondas de calor e mudanças bruscas no tempo em Mato Grosso do Sul.
Diante desse cenário, o conceito de conforto térmico se torna uma ferramenta essencial para garantir o bem-estar em meio à variação climática. Mais do que apenas estar na moda, a escolha das roupas passa a envolver funcionalidade, respirabilidade, proteção e adaptação ao clima.
Para o fashion designer Ton Barbosa, vestir-se bem no inverno não significa usar o máximo possível de roupas ou abrir mão da estética em nome do conforto. Segundo ele, um dos principais erros das pessoas é justamente confundir conforto com desleixo.
“Às vezes as pessoas priorizam tanto o conforto que acabam saindo de casa praticamente com a mesma roupa que estavam usando dentro de casa. Claro que cada pessoa tem o direito de se apresentar da forma que quiser, mas existem ocasiões e existem formas de encontrar conforto sem perder o estilo e a elegância”, afirma.
Segundo Ton, o inverno costuma despertar uma vontade maior de montar produções mais elaboradas, mas o excesso também pode comprometer o resultado.
“As pessoas querem usar tudo o que têm de mais icônico no guarda-roupa ao mesmo tempo. Misturam estilos diferentes, muitos acessórios, referências esportivas com clássicas, e isso acaba gerando uma poluição visual. Em vez de elegante, o look acaba parecendo desorganizado”, explica.
AMPLITUDE TÉRMICA DE MS
Diferentemente de estados do Sul do Brasil, onde o frio costuma permanecer constante durante boa parte do dia, Mato Grosso do Sul apresenta um comportamento climático bastante específico. As manhãs começam frias, as tardes podem atingir temperaturas elevadas e as noites voltam a esfriar rapidamente.
Essa característica faz com que o vestuário precise ser adaptável. “O nosso clima varia muito ao longo do dia. Você sai cedo para trabalhar com bastante frio, depois faz calor no meio da tarde e à noite esfria novamente. A melhor forma de lidar com isso é através das camadas”, explica Ton Barbosa.
O chamado efeito cebola, conhecido na moda como técnica de sobreposição inteligente, vem justamente para solucionar esse problema. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, conforto térmico não significa usar muitas roupas pesadas ao mesmo tempo.
“O excesso de camadas é um erro muito comum. As pessoas acreditam que quanto mais roupa colocarem, mais aquecidas vão ficar, mas muitas vezes elas apenas abafam o corpo. Isso gera suor, desconforto e ainda obriga a pessoa a carregar várias peças ao longo do dia”, pontua.
Segundo o especialista, três camadas bem planejadas já são suficientes para enfrentar as variações climáticas típicas do Estado.
COMO MONTAR CAMADAS
Construir camadas inteligentes é a melhor forma de lidar com o inverno sul-mato-grossense - Foto: Reprodução/PinterestA primeira camada, segundo Ton, é a mais importante. Ela funciona como uma base responsável por controlar a umidade e permitir que o corpo respire.
“Pode ser uma peça de algodão, linho ou uma segunda pele tecnológica. Essas malhas inteligentes ajudam a manter o corpo seco, controlam o suor e regulam a temperatura corporal”, explica.
A segunda camada tem como função reter calor. Entram nessa categoria peças como sweaters, tricôs, fleece e blusas mais quentinhas.
Já a terceira camada é responsável por proteger do vento e das temperaturas mais baixas. Casacos estruturados, jaquetas e corta-ventos cumprem esse papel.
“A pessoa não precisa usar mil peças. Com três camadas bem executadas, ela consegue conforto térmico, mobilidade e praticidade”, destaca.
Ton também chama atenção para o peso e o volume das roupas. “Muitas vezes as pessoas colocam vários casacos pesados um sobre o outro e acabam perdendo mobilidade. A roupa fica desconfortável, limita os movimentos e ainda gera mais calor do que o necessário”, alerta o fashion designer.
MODA INTELIGENTE
Se antigamente o conforto térmico estava associado apenas às fibras naturais, hoje a indústria têxtil investe cada vez mais em tecidos tecnológicos.
Embora o algodão, o linho, a viscose e o viscolinho continuem sendo considerados excelentes opções – principalmente para climas quentes e secos –, as chamadas malhas inteligentes vêm conquistando cada vez mais os consumidores.
“Hoje existe uma procura muito grande por peças tecnologicamente inteligentes. São tecidos que conseguem entender do que o corpo precisa naquele momento”, explica Ton.
Entre as principais características dessas malhas estão: controle de umidade; respirabilidade; retenção equilibrada de calor; proteção UV; secagem rápida; redução de odores; e leveza e elasticidade.
Segundo o designer, existem versões específicas tanto para o frio quanto para o calor. “No inverno, essas malhas costumam ser peluciadas por dentro e ajudam a reter o calor sem abafar. Já as versões esportivas, usadas no calor, ajudam o suor a evaporar rapidamente”, afirma.
Outro tecido citado por ele é o modal, conhecido pelo toque macio e pela capacidade de manter conforto térmico sem gerar superaquecimento.
“O modal é extremamente confortável, respirável, não amassa com facilidade e ainda tem uma proposta mais sustentável”, pontua Ton.
O crescimento das peças funcionais acompanha também uma mudança de comportamento dos consumidores. Em uma rotina cada vez mais acelerada, roupas práticas ganharam prioridade.
“As pessoas querem peças que acompanhem o ritmo delas. Que não amassem facilmente, sejam confortáveis, respiráveis e duráveis”, afirma Ton.
Por isso, a chamada moda funcional deve crescer ainda mais nos próximos anos, especialmente diante das mudanças climáticas.
Entre as tendências funcionais apontadas pelo especialista estão: modelagens amplas; peças atemporais; roupas versáteis; tecidos tecnológicos; proteção UV integrada; roupas leves e respiráveis; e maior durabilidade.
“As pessoas querem investir em peças que consigam ser usadas de diferentes formas e em diferentes temperaturas”, destaca.
ERROS COMUNS
As botas continuam sendo uma das peças mais desejadas durante o frio, mas também exigem atenção. “As botas têm modelagens específicas e precisam conversar com o restante do look. Existe um caimento ideal na perna para que o visual fique equilibrado”, pontua.
Ton alerta ainda para o uso de peças de couro sintético de baixa qualidade, especialmente o chamado corino fake. “Muitas vezes as pessoas investem caro em peças que acabam descascando rapidamente. E continuam usando mesmo deterioradas porque gostam da peça ou porque foi cara”, afirma.
Segundo ele, vale mais a pena investir em roupas duráveis e versáteis do que em tendências passageiras.
PARA ENCARAR O EL NIÑO
Além das mudanças típicas do inverno, Mato Grosso do Sul também deve enfrentar impactos provocados pelo Super-El Niño após a estação mais fria do ano.
Além de utilizar roupas com fibras naturais, é importante investir em peças com proteção UV para enfrentar o calor mais intenso - Foto: Reprodução/PinterestO fenômeno climático costuma provocar aumento das temperaturas, períodos prolongados de seca, baixa umidade do ar e episódios de chuva intensa concentrada em curtos períodos.
Para Ton Barbosa, isso exige ainda mais atenção na escolha das roupas.
“O El Niño é um período muito difícil para a gente porque ele atinge o Estado de uma forma muito intensa. O calor fica extremo, o clima muito seco e, de repente, podem surgir tempestades fortes”, destaca.
Nesse contexto, tecidos naturais ganham importância. “Linho, algodão, viscose e viscolinho ajudam muito porque são respiráveis. Eles permitem que o corpo fique mais confortável”, pontua o especialista.
Peças com proteção UV também devem se tornar ainda mais importantes diante da intensificação do sol. “O sol fica muito mais forte. Então acessórios como chapéus, bonés e óculos escuros ajudam bastante”, recomenda Ton.
Outro ponto destacado pelo designer é a necessidade de evitar tecidos muito pesados durante períodos extremos de calor. “O jeans muito pesado pode se tornar desconfortável. Vale buscar alternativas mais leves e respiráveis”, aconselha.