Correio B

ENTREVISTA EXCLUSIVA

"O folclore não não vai se acabar com a globalização"

O Dia do Folclore Brasileiro, celebrado hoje, é uma data que nos convida a refletir sobre a importância de preservar e valorizar as tradições culturais que compõem a rica identidade nacional.

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Para dar voz a essa reflexão, o Correio B publica a seguir uma entrevista com a mestre Marlei Sigrist, figura icônica no campo do folclore em Mato Grosso do Sul e no Brasil, conduzida pela ensaísta Ana Maria Bernardelli, que integra a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL

Para começarmos, poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória pessoal e profissional, destacando os principais marcos que a levaram até a sua posição atual? Ao longo de sua carreira, quais foram os desafios mais significativos que você enfrentou? 

Eu posso contar a partir da convivência que tive, enquanto estudava na faculdade, com uma professora apaixonada pelo folclore, a exemplo, também, do que ela viveu e conviveu com o mestre maior Mário de Andrade. O despertar para os estudos do folclore nasceu naquele momento e se prorrogou até hoje.

Durante minha vida, tive que fazer algumas opções momentâneas para atuar em áreas paralelas, mas o folclore permeou todas elas. Quando fui admitida como professora na UFMS [Universidade Federal de Mato Grosso do Sul], tive de deixar as escolas de Ensino Fundamental/Médio para abraçar a carreira do magistério superior.

Foi, então, que um colega me perguntou o que eu pretendia fazer na universidade, além de dar aulas. Respondi que gostaria de propor projetos de pesquisa sobre o folclore em Mato Grosso do Sul, pois dispúnhamos de pouco material teórico sobre o tema.

Em uma resposta quase debochada, ele me disse que não encontraria nada por aqui, porque folclore não acontecia em MS. Então, esse foi um dos primeiros desafios que me propus a desvendar e encontrei muito material, o que mais tarde se transformariam em livros.

Ainda há muito material intacto a se pesquisar, venho formando pessoas que, timidamente, vão trazendo os resultados.

Ao mesmo tempo, nas últimas quatro décadas, também venho atuando em outras frentes, como folkcomunicação, literatura e, principalmente educação, criando, escrevendo e publicando, mantendo 
o folclore como o ponto principal das discussões.

Quais foram as realizações mais significativas em sua carreira no campo do folclore? Existe algum projeto ou pesquisa de que você se orgulha particularmente?

Creio que todas as realizações foram e são significativas, não gosto de fazer trabalho pela metade. Mas o conjunto de todas elas é mais importante para mim, porque significa que abri um caminho, antes inexistente, em Mato Grosso do Sul, o caminho da organização desse imenso universo chamado folclore.

Claro que em uma vida não conseguiremos entrar em todos os meandros da área, porém, algumas se mostraram mais favoráveis. Por exemplo, paralelamente às pesquisas, fui dando a conhecer os achados de então de maneira mais lúdica, mais palatável, como foi o caso de criar grupos de danças folclóricas que se apresentavam em eventos e nas cidades do interior de MS.

As apresentações sempre tiveram cunho pedagógico, porque o público era informado sobre as danças, as músicas e os ritmos, as regiões onde acontecem, e alguns elementos da história permeavam nossas falas e as roupas dos dançarinos. Às vezes, até exposições de imagens como fotografias eram informações que agregavam valor e reflexão.

Como você vê o papel da educação na preservação e na disseminação do folclore? Em sua experiência, qual é a importância de incluir o folclore no currículo escolar?

A educação tem o papel de difundir a valorização do folclore como fator importante na formação de cidadãos conscientes e culturalmente informados sobre as gerações que lhes precederam e a responsabilidade que eles têm em atualizar, no presente, o que será reprocessado no futuro.

Ao incorporar o estudo do folclore nos currículos escolares, os educadores têm a oportunidade de conectar os alunos com suas raízes culturais, despertando neles o orgulho e o respeito pela sua herança.

Além disso, vai ajudar a promover a tolerância e a compreensão intercultural, à medida que os alunos entram em contato com as tradições de outros grupos e aprendem a valorizar a diversidade cultural.

Essa prática não é apenas uma ferramenta pedagógica, mas também um meio de enriquecer o imaginário dos estudantes e de fortalecer o tecido social, cultivando um senso de pertencimento e de identidade coletiva.

O que você tem a dizer sobre suas principais contribuições para a formação de profissionais da educação na área de folclore? Poderia compartilhar experiências ou resultados de iniciativas que você liderou ou participou focadas na capacitação de educadores?

Penso que a publicação dos livros que tenho realizado, principalmente o que considero como carro-chefe, “Chão Batido”, que trata do folclore em MS; seguido de “Pantanal: Sinfonia de sabores e cores”, editado pelo Senac Nacional e que evidencia os hábitos alimentares do povo pantaneiro; e de “Mestres do Sagrado”, que entra no aspecto histórico e cultural na manutenção da Festa do Divino da família Malaquias – [todas essas obras] ferramentas para os educadores começarem a pensar o folclore na sala de aula.

Depois, tem as publicações de incontáveis artigos que disponibilizo para pesquisas, palestras, cursos e oficinas, realizados especialmente para professores a convite das secretarias de Educação ou das universidades.

Todos os anos, por meio da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore [CSMFL], são realizadas atividades abertas para as escolas, os professores e a comunidade em geral.

Outra ação também importante – e que continua sendo – foi a formação de grupos de danças folclóricas como o Sarandi Pantaneiro, levado ao ECO-92 [II Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento] e aos festivais folclóricos na Bolívia e no Nordeste brasileiro.

Depois, a criação do Grupo Camalote, que já completou maioridade, 21 anos, se apresentando em vários estados brasileiros e montando diversos espetáculos, todos abertos às escolas – as quais sempre lotaram as casas de espetáculo.

Oportunidades de aprendizado sobre a história e a cultura regionais.[Ainda], grupos mirins de danças em várias escolas da rede pública de ensino, oportunidade de estudar mais o nosso folclore e estender esse conhecimento às famílias dos alunos.

E por fim, a Semana do Folclore, que chamamos de Estação Folclore de Agosto, que oferece cursos, oficinas, palestras, brincadeiras, contação de histórias do folclore, etc. – como está acontecendo nesta semana.

O que você considera essencial para a formação de uma nova geração de estudiosos e educadores comprometidos com a valorização do folclore?

É essencial que eles tenham muita sede de saber, que se disponham a ler muito, não somente livros, mas principalmente artigos acadêmicos em vários formatos, tendências e discussões sob diferentes ângulos e interfaces com diferentes áreas do conhecimento. Hoje, a maior produção teórica está nas revistas acadêmicas especializadas.

O estudo do folclore é muito abrangente e perpassa primeiramente pela própria teoria que dá embasamento para alçar outros voos ligados ao campo das religiões, da estética, da literatura, da psicologia, do imaginário, da botânica, da comunicação, da história, da sociedade em todas as suas manifestações culturais.

O folclore está lá, e são necessários olhos e expertise para trazê-lo à tona e estudá-lo. Se não, o olhar só recai sobre os mitos do saci, da mula sem cabeça, das crendices, e termina aí, sem discutir os meandros por onde passa, desde a criação do mito até as razões pelas quais sobrevive na contemporaneidade.

Como você definiria folclore em um contexto contemporâneo? A partir das suas pesquisas e experiências, como o conceito de folclore evoluiu ao longo dos anos, especialmente em um país tão diversificado quanto o Brasil?

O folclore, como todo aspecto cultural, é dinâmico, vai mudando e se atualizando conforme as necessidades dos grupos sociais. Entretanto, as expressões do folclore, que sobrevivem no meio social, carregam consigo a raiz de suas origens, muitas vezes com nova roupagem, porque atualizar é preciso.

Mas se elas estão aí presentes, é porque exercem uma função importante para as pessoas que as mantêm vivas. Então, o folclore é cultura viva – embora seja criado em um passado pelo povo, independentemente de classe social, etc. – e está presente na vida das pessoas, ou de forma mais contundente, ou simbolicamente, ou então na memória dos que se dizem distantes desse modo cultural, pronto a ser redescoberto e reavivado lá na frente.

A evolução dos estudos do folclore vem acompanhando as mudanças de paradigmas e tendências que a erudição estabelece ao longo dos tempos. Só o nome, por exemplo, já sofreu mudanças de acordo com as tendências de estudos que vêm acompanhando os grupos sociais.

É folclore porque esse foi o termo encontrado por seu criador, que se interessou em organizar os estudos, passando a ser aceito à terminologia “cultura popular” sugerida pela Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], pois nem todos os países conceituam a primeira palavra criada para defini-lo, principalmente países orientais, até chegar aos dias de hoje em que denominamos como patrimônio imaterial.

Estamos falando da mesma coisa, com olhares diferenciados e com enunciações que privilegiam ora alguns grupos, ora outros. E assim encontramos muitos outros conceitos e características do folclore atualizados na contemporaneidade.

Qual é o papel das novas tecnologias na preservação ou na transformação das tradições folclóricas? Como o folclore pode ser preservado em meio à crescente globalização e à digitalização das culturas?

As tecnologias ajudam muito as novas gerações a conhecerem o folclore de todas as partes habitáveis deste planeta, cada qual com suas identidades marcantes e prontas a mostrarem ao mundo o que têm de melhor em termos de tradição.

Para as comunidades que mantêm bem vivas as suas expressões, as tecnologias paulatinamente se transformam em ferramentas que melhoram suas condições de vida, de luta pela preservação e até de construção de seus fazeres e expressões folclóricas.

Podem fazer convites para a festa tradicional pelas redes [sociais], postar suas performances, criar seus próprios sites, possibilitando reuniões virtuais para decidirem os próximos passos na melhoria daquela expressão folclórica, enfim, são mil maneiras descobertas para participar do mundo globalizado.

Até velas virtuais por intenção aos mortos ou aos santos ou às novenas algumas comunidades vêm fazendo de maneira virtual, principalmente durante e após a pandemia [de Covid-19].

Por outro lado, ainda não abrem mão do encontro presencial, porque são nesses momentos que se fortalecem os laços de afeto, de fé, de compadrio, de reconhecimento enquanto grupo social.

As pessoas me perguntam se com a globalização o folclore vai acabar. Digo sempre que não, apesar do nivelamento cultural que a globalização proporciona e o massacre da indústria cultural sobre outras culturas, como observamos com culturas étnicas, de grupos específicos, cultura folclórica, por exemplo.

A cultura, por ser dinâmica, se adapta sempre que necessário, e no campo do folclore as pesquisas têm nos mostrado que ela está se fortalecendo, pois cada povo deseja mostrar o seu diferencial, não quer ser igual ao outro, tem orgulho de suas tradições e as estimula. Por se verem na telinha, os grupos fazem suas autocríticas, melhoram sua estética para apresentações artísticas, melhoram o vocabulário, etc.

O sincretismo cultural é uma característica marcante do folclore brasileiro. Qual a sua avaliação acerca da interação entre as tradições populares e as influências externas na construção da identidade cultural do Brasil?
 

Com certeza, os grupos migratórios carregam consigo suas culturas, e ao se estabeleceram em um determinado lugar de outra cultura, elas passam a interagir entre si. 

Com o tempo, podemos perceber que desse contato alguns elementos de ambas as culturas se fundiram, formando uma outra diferenciada. Claro que esse processo pode acontecer naturalmente ou impositivamente, gerando resistências. Não vou entrar nesse mérito agora, porque isso envolve vários tipos de relações.

O Brasil recebeu muitos povos diferentes, em meio a outros diferentes, que já existiam antes da colonização. Formou um rico caldeirão cultural, haja vista a diversidade cultural que exibe de norte a sul, de leste a oeste. Nós, aqui em Mato Grosso do Sul, fazemos fronteira com dois países e nos influenciamos mutuamente no campo da cultura. Esse processo de interação ocorreu na Europa, na Ásia, na África, há milênios e ainda não cessou.

Às vezes, as pessoas querem o impossível, a cultura pura de um lugar. Ela não existe. Desde que os humanos formaram seus grupos ainda nas cavernas, sempre migraram e puseram em contato culturas distintas.

O resultado mais imediato podemos observar na língua e seus sotaques, na culinária, na religiosidade, na organização de festas populares e seus personagens, nas histórias contadas atravessando gerações, nas formas de construção e nas técnicas artesanais. São muitos indícios que nos alertam para posterior pesquisa.
 

O folclore pode contribuir para o fortalecimento da identidade e da coesão social em comunidades marginalizadas? Você poderia compartilhar algum exemplo em que o folclore teve um impacto significativo no desenvolvimento comunitário?

O folclore é uma grande válvula de escape para comunidades marginalizadas. Entenda-se aqui que não é marginal, mas comunidades que estão à margem da cultura local, sem condições de usufruir, por vários motivos, de todas as vantagens que a sociedade oferece. Então, elas criam seus mecanismos de escape e recriam condições que lhe favoreçam.

De imediato, eu me lembro de três comunidades afrodescendentes mineiras que encontraram, no seu saber e fazer cotidianos, elementos para inseri-los dentro do que chamamos hoje de economia criativa.

Uma delas é a Comunidade dos Arturos, com suas festas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Eles têm oficinas de confecção de tambores e outras oficinas e vendem seus produtos. Outra comunidade é da família Alcântara, formada pela grande família e pelos agregados que investiram na música, principalmente afro, apresentando-se enquanto coral em eventos importantes.

E a outra comunidade é das pequenas cidades do Vale do Jequitinhonha, que é a região mais pobre de Minas. Tem cânticos belíssimos de lavadeiras, de pescadores, de fazedores de coisas, cujo repertório o amigo Frei Chico descobriu quando chegou, ainda moço, naquela região.

Ele coletou os cantos, formou o coral, gravou as músicas, e eles cantam até hoje em eventos. Além disso, os artesanatos superelaborados também vêm daquelas comunidades, como a figura da noiva, tão cobiçada pelos turistas.

Em sua opinião, qual é o papel das políticas públicas na preservação e na valorização do folclore? Quais são as principais lacunas e oportunidades nesse campo no Brasil?

As políticas públicas desempenham um papel fundamental na preservação da cultura em geral. No campo do folclore, elas atuam como instrumentos essenciais para garantir que as tradições – desde a língua até as expressões artísticas e os patrimônios – possam ser protegidas. 

Sem elas, é sempre mais difícil para os grupos mantenedores do folclore, quando se trata, por exemplo, de grupos artísticos, embora esse saber possa ser recuperado mais à frente por uma nova geração.

O risco de desaparecer é mais provável sem políticas públicas que lhes deem sustentação. Com elas, criam-se proteção ao patrimônio, marcos regulatórios com leis apropriadas de preservação, há o estímulo às ações de revitalização de importantes tradições, de museus, de pontos de cultura que abrigam comunidades de folclore, há a inclusão de conteúdos do folclore nos currículos escolares e o incentivo ao turismo cultural onde predominam grupos de folclore com suas apresentações artísticas, artesanais, religiosas, etc.

Com isso, as leis ajudam a criar oportunidades de vendas dos produtos culturais, beneficiando comunidades 
e grupos de folclore. Porém, essas mesmas políticas no Brasil ainda castigam os fazedores de cultura popular com o peso da burocracia na hora de apresentarem seus projetos, quando muitos desistem de fazê-lo.

Para nós, aqui em Campo Grande, há 22 anos venho apresentando um projeto consistente aos maiores políticos, que até o momento nada fizeram para concretizar a cedência de um espaço físico para instalação de um centro cultural, a Estação Folclore. 

Ali prevemos funcionar biblioteca específica para atender alunos das escolas, cursos para professores, escola de danças folclóricas da nossa região – como já acontece em vários países – e um pequeno espaço de exposições temporárias de objetos do folclore, como se tem nos museus.

É o projeto que ainda precisa ser acolhido pelo município, pelas empresas, mas que ele se concretize com um espaço físico decente. Um espaço como esse é uma grande vitrine cultural para o município e para o Estado.

Como você imagina o futuro do folclore brasileiro? Quais tendências você acredita que moldarão a pesquisa e a prática do folclore nas próximas décadas?

Como já falei anteriormente, as tendências para pesquisas são ditadas muito mais pelas academias e universidades, porque os pesquisadores estão vinculados à ela. Como diz Zygmunt Bauman, estamos vivendo a era da sociedade líquida, e as tendências das nossas vivências, dos estudos, estão conectadas a essa ideia.

Existem inúmeras possibilidades de pesquisa, incluindo vieses diferentes e, às vezes, divergentes, em se tratando da área das humanidades. Cada pesquisador terá de achar o seu melhor caminho para chegar a um argumento final.

Na prática, o folclore estará presente no futuro com uma nova roupagem que a geração do momento resolveu revesti-lo, como tem sido ao longo dos séculos.

Que este 22 de agosto nos lembre da riqueza cultural que possuímos e da importância de celebrá-la, não apenas como uma homenagem, mas como um compromisso com a continuidade e o fortalecimento da identidade brasileira. Professora Marlei Sigrist, agradeço profundamente sua disponibilidade e as valiosas informações que compartilhou conosco. 

Suas experiências e percepções certamente enriquecerão nossa compreensão sobre o tema folclore. Foi um prazer conversar com você e espero que possamos ter outros momentos tão ricos no futuro. Muito obrigada!

(Ana Maria Bernardelli)

Capa da semana Correio B+

Entrevista exclusiva com o ator Gustavo Falcão destaque em 'Ben Hur' da Record TV

"Ele é uma personagem que tem fascínio pelo poder, e um gosto particular pelos jogos políticos"

20/09/2026 15h12

Entrevista exclusiva com o ator Gustavo Falcão destaque em 'Ben Hur' da Record TV

Entrevista exclusiva com o ator Gustavo Falcão destaque em 'Ben Hur' da Record TV Foto: Divulgação

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Gustavo Falcão é um dos destaques do filme ‘Elize: Sombras de Uma Mulher’, que estreou no dia 22 de julho na Netflix. Dando vida a Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, ele mergulhou na complexidade emocional de seu personagem, um homem que caminha entre as sombras e a luz. Ele revela: “Heitor é um personagem que representa uma área cinzenta.

O maior desafio foi retratar seu lado animalesco e instintivo, mantendo sua humanidade. Ele é perigoso e sedutor, sempre observando ao seu redor, pronto para capturar novas oportunidades. É esse estranhamento que eu busquei transmitir ao público”.

Além do filme, Gustavo também está presente na nova adaptação de 'Ben Hur', que estreia em outubro na Univer, e em seguida na RecordTV. Nela interpreta Élio, o governador romano da Judeia. "Élio é extremamente hedonista e adora o poder. Ele é um político habilidoso, que sabe que a roda da política gira rapidamente, e esse conhecimento o torna ainda mais astuto e perigoso", comenta.

Ele descreve seu personagem como alguém que tem prazer em explorar os meandros do poder e que, por isso, se destaca em meio ao ambiente de tensões entre romanos e judeus. "A liberdade criativa que tive nesta produção foi uma experiência deliciosa, permitindo-me dar vida a um personagem sarcástico e multifacetado."

Natural de Recife, Falcão destaca a importância de sua terra natal em sua trajetória. "Cresci em um ambiente cultural rico, onde artistas como Ariano Suassuna e Francisco Brennand foram grandes influências. A cena artística pernambucana me moldou e me deu as bases para a carreira que tenho hoje", afirma. Ele começou sua trajetória profissional em 1995, com a peça "Os Biombos", de Jean Genet, dirigida por Antonio Cadengue. "Esse foi meu primeiro contato com o palco e uma experiência transformadora", relembra.

Com 31 anos de carreira, ele continua conectado com sua comunidade e está atualmente desenvolvendo um projeto especial lá. "Estou trabalhando na adaptação para o cinema da vida do pintor pernambucano Cícero Dias, em parceria com meu irmão e a REC Produtores", compartilha. "Queremos filmar grande parte da história no Recife, trazendo à tona não só a figura de Cícero, mas também a riqueza cultural da nossa cidade", enfatiza.

Em novelas o ator de 50 anos deixou sua marca como Faísca em "As Filhas da Mãe", onde encarnou um surdo mudo com uma sensibilidade própria, além de interpretar Jonas em "Cobras & Lagartos", um jovem dividido entre a religiosidade e a malandragem de sua família. "Ambos os papéis exigiram um equilíbrio delicado entre drama e humor, e me permitiram explorar áreas muito diferentes da atuação", destacou.

Gustavo também é um diretor ativo, tendo liderado montagens como "Partiu 90!" e a remontagem de "A Máquina". "Dirigir essas peças foi um processo enriquecedor que ampliou minha visão sobre a atuação e a colaboração entre os elencos", enfatiza ele. Além disso, dirigiu e roteirizo o curta metragem ‘30 Moedas’ ao lado de Marcos Arzua Barbosa, a produção narra um embate no meio do mar entre dois personagens de classes sociais distintas e orientações ideológicas deformadas pela corrupção política, religiosa e social sistêmica dos tempos atuais.

"Criar um ambiente onde a arte possa florescer e impactar a vida das pessoas é uma missão que me motiva profundamente", completa.

Gustavo é a Capa do Correio B+ desta semana, e em entrevista exclusiva ao Caderno, ele fala sobre papéis, carreira e estreias.

Entrevista exclusiva com o ator Gustavo Falcão destaque em O ator Gustavo Falcão é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Gabí Souza - Diagramação: Denis Felipe
Por: Flávia Viana

CE - Você tem 31 anos de carreira, como você vê sua trajetória até agora?
GF - 
Vejo minha trajetória profissional repleta de realizações, mas também olho em frente. Ao mesmo tempo, penso no passado e também no futuro. Percebo que construí uma carreira sólida e realizei trabalhos diversos e muito especiais em tantas frente, mais de uma centena de projetos em cinema, teatro, tv, audiolivros, arte e educação, atuando, produzindo, dirigindo, dando aulas e oficinas - mas também miro o que ainda desejo fazer.

Depois de tanto tempo de estrada - e o percurso de um artista é inevitavelmente dinâmico, repleto altos e baixos, de recomeços e redescobertas - tenho muita consciência do que já fiz e vivi, mas também do que ainda quero viver e fazer.

CE - Além de atuar em diferentes frentes do audiovisual, você tem um trabalho junto ao Lunático. Pode falar mais dele?
GF -
 O Lunático é um espaço cultural que fundei no Rio em 2007 com minha companheira e parceira Juliana Féres, dedicado ao ensino e difusão das mais diversas manifestações culturais, em vários formatos - cursos, oficinas, exposições, palestras, mostras, espetáculos…

Hoje estamos em 17 instituições de ensino do Rio de Janeiro com aulas de circo, tecido acrobático, cinema, teatro, stop Motion. É gratificante compartilhar continuamente vivências artísticas com quase trezentas crianças e adolescentes e promover a transformação que a arte provoca na vida delas.

CE - Fala mais sobre o seu personagem em 'Ben hur'?
GF -
 Élio é o governador romano da região que compreende a Judéia, cuja capital é Antioquia, uma das maiores cidades do Império Romano no oriente naquele tempo (séc. I). Devido às agitações provocadas pela resistência dos judeus, que não aceitam se submeter às regras de Roma - especialmente as religiosas - Élio se transfere para Jerusalém a fim de acompanhar mais de perto a questão.

Ele é uma personagem que tem fascínio pelo poder, e um gosto particular pelos jogos políticos. A relação com Pôncio Pilatos, funcionário do império responsável pela região da Judeia, por exemplo, se sustenta em uma tensão constante de colaboração e rivalidade.

Élio é estratégico, astuto e gosta de ser sarcástico. Gosta de submeter seus antagonistas, gosta de levar vantagem e se dar bem em tudo que faz. Gosta também de aproveitar ao máximo os prazeres, inclusive os carnais, que advém de sua posição. 

CE - Você também estará em 'Lá na minha terra', próxima trama das 18h. O que pode falar do seu personagem (sem dar spoilers).
GF -
 Ainda não posso revelar muito, mas aqui vai uma breve apresentação: Josias é um dos vilões da trama de Mário Teixeira, dirigida por Allan Fiterman. Comparsa de Celestina (Lilia Cabral), inicia na novela trabalhando no Jóquei paulistano, onde conhece Ismalia (Camila Morgado). Nascido em São Paulo, sempre teve de se virar pra sobreviver, nem sempre de forma lícita ou legal. 

CE - Você também teve um personagem no filme sobre Elize Matsunaga que estreou na Netflix em julho. Como foi a recepção do público a sua participação?
GF -
 Foi surpreendente a resposta de público ao meu personagem e ao filme. Sabia do potencial pelos apelos da história, o projeto tinha uma equipe e elenco incríveis e a havia uma boa expectativa. O filme ficou incrível, mas ainda assim fiquei surpreso.

O sucesso foi gigantesco. O longa ficou 3 semanas no primeiro lugar como filme mais assistido no mundo inteiro em língua não inglesa dentro da Netflix. A repercussão em torno de meu trabalho foi muito positiva, e fiquei feliz com isso, já que busquei construir um personagem complexo - denso, torpe e com um humor perverso. 

Entrevista exclusiva com o ator Gustavo Falcão destaque em O ator Gustavo Falcão é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Record TV - Diagramação: Denis Felipe
Por: Flávia Viana

CE - O teatro tem um papel bem importante na sua carreira. O que você destaca nesses anos?
GF -
 O teatro é fundamental pra mim. Preciso voltar a ele sempre. É o começo de tudo, e é também recomeço, me nutre de uma forma muito particular. Não dá pra ficar muito tempo longe. Ano passado tive a felicidade de fazer dois espetáculos, e completamente distintos: ‘O Pequeno Circo de Mediocridades’, uma crítica ácida à mesquinhez humana, e o ‘De Perto Ninguém é Normal’, uma comédia divertidíssima inspirado no clássico cinematográfico Arsênico e Alfazema.

CE - Além disso, você também tem uma ligação muito forte com sua terra natal e vai produzir projetos lá. O que pode adiantar deles?
GF -
 Estou o tempo inteiro pensando em maneiras de realizar projetos no Recife e em Pernambuco. No momento estou desenvolvendo um projeto sobre episódios da vida extraordinária do pintor pernambucano Cícero Dias, em parceria com uma produtora pernambucana. Espero que possamos produzir o filme nos próximos anos.

CE - Como você vê esse ano de 2026 na sua carreira?
GF - 
Este tem sido um ano de muito movimento. Filmei a série ‘Ben Hur’, estou começando a novela ‘Lá na minha Terra’, lancei o audiolivro ‘Odisseia’ pela Cia das Letras, participei de uma mesa da FLIP como convidado pela primeira vez, dirigi diversas práticas de montagem, além da coordenação do projeto com o Lunático, meu espaço cultural, que segue em expansão.

CE - Você menciona a importância do longa 'Arido Movie' na sua carreira e como ele te levou para diferentes públicos. Pode falar mais dessa experiência?
GF - 
O ‘Arido Movie’ foi minha primeira experiência em longa-metragem, que rodamos em 2003. Então foi algo especial em minha vida e um marco em minha carreira. Até ali só tinha feito em cinema alguns curtas e tinha experiência em TV, com a novela As Filhas da Mãe, da Globo, de 2001. O Arido foi marcante, era um roteiro sensacional, primorosamente bem dirigido por Lírio Ferreira, com um super elenco.  

CE - Com tantos novos trabalhos chegando no final de 2026, o que você espera de 2027?
GF -
 Espero que 2027 seja um ano de ainda mais trabalho e que a gente siga com o crescimento do setor cultural, tanto em termos das políticas públicas quanto da conexão do público brasileiro com a arte que fazemos no Brasil. É para e pelas pessoas que nos assistem que fazemos o que fazemos e a arte é uma forma de um povo construir sua identidade, se conhecer e entender melhor, como indivíduo e em sua coletividade.

 

Dança Correio B+

Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São Paulo

Inspirado na obra Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo, La Esmeralda é um dos grandes títulos do repertório do ballet clássico.

20/09/2026 14h30

Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São Paulo

Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São Paulo Foto: Sergio Bemfica

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Escola que transformou o ballet adulto em espaço de arte, acolhimento e realização celebra uma década de história com apresentação nos dias 26 e 27 de setembro, no Teatro Ítalo-Brasileiro.

Há dez anos, o BLA – Ballet Livre Adulto nasceu com uma proposta que ia muito além dos passos, das posições e da técnica do ballet clássico: mostrar que não existe idade para dançar, aprender, se desafiar e realizar sonhos.

Ao longo de uma década, o BLA que tem como sócias a bailarina, professora e coreógrafa Márcia Ylana, e as bailarinas Thais Natale e Larissa Santo André que construíram uma trajetória marcada pela paixão pela dança, pelo incentivo de bailarinos adultos e, principalmente, pela criação de um ambiente em que diferentes histórias se encontram em torno de um mesmo propósito: viver a experiência do ballet de maneira plena e transformadora.

Para celebrar seus 10 anos de existência, o BLA leva ao palco o clássico La Esmeralda e Divertissement, espetáculos que serão apresentados nos dias 26 e 27 de setembro, no Teatro Ítalo-Brasileiro, em São Paulo.

Inspirado na obra Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo, La Esmeralda é um dos grandes títulos do repertório do ballet clássico. A história de amor, paixão, conflitos e preconceitos envolvendo a jovem Esmeralda ganha vida no palco por meio da dança, da música e da interpretação.

A montagem representa também um momento especial para os bailarinos do BLA.
Para um grupo formado por adultos, muitos dos quais retomaram a dança após anos de afastamento ou iniciaram a prática já na vida adulta, estar em cena em uma obra clássica de grande porte representa a realização de um sonho que, por muito tempo, pareceu distante

Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São PauloAs sócias do BLA – Thais Natale – Márcia Ylana e Larissa Santo André – Foto: Sérgio Bemfica

“O BLA nasceu para mostrar que o ballet não precisa ter idade. Cada pessoa chega com uma história, um sonho e um motivo diferente para dançar. Ao longo desses dez anos, fomos construindo uma família através da dança e provando que sempre é tempo de começar, recomeçar e se permitir viver o palco”, destaca a direção do Ballet Livre Adulto.

Mais do que uma celebração, os dez anos do BLA representam uma trajetória de dedicação, amizade, superação e amor pela dança. O grupo se tornou um espaço de encontro para pessoas que encontraram no ballet uma nova forma de expressão e também uma maneira de se reconectar consigo mesmas.

A escolha de La Esmeralda para marcar essa data especial reforça a essência do projeto que nasceu há 10 anos, sendo o primeiro espetáculo da escola a subir no palco, que agora vem com nova roupagem, elenco, maturidade e as três sócias do BLA: Márcia Ylana, Larissa Santo André e Thaís Natale que estarão entre as oito Esmeraldas do espetáculo.
  
Uma nova oportunidade para unir a tradição do ballet clássico à realidade e à potência dos bailarinos adultos.

Em cena, técnica, emoção e histórias de vida que se encontram para celebrar uma década de BLA e reafirmar uma mensagem que acompanha o grupo desde sua criação: dançar é também realizar sonhos — em qualquer idade.

Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São PauloBallet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São Paulo - Foto: Sergio Bemfica

SERVIÇO

BLA – Ballet Livre Adulto | 10 anos

Espetáculo: La Esmeralda (sábado) e Divertissement (domingo)

26/09 – 19h e 27/09 – 17h30

Teatro Ítalo-Brasileiro – São Paulo (SP)

BLA – Ballet Livre Adulto

Ingressos à venda: https://ingresso-master.com/70/la-esmeralda-divertissement-spazio-italia/



 

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