Seja pelo tempo de empresa, por sua performance no cargo ou porque as contas ficaram mais apertadas, você decidiu que chegou a hora de pedir um aumento a seu superior. Por mais que seus argumentos lhe pareçam mais que suficientes, especialistas em carreiras afirmam: pense e repense como fará, já que a abordagem equivocada poderá render desde um "não" até um prêmio menor do que a própria empresa estava disposta a pagar.
De acordo com a consultora de RH da Catho Online Daniella Correa, nem sempre o tempo de casa é o fator primordial no momento de pedir um aumento. "Os resultados são o maior motivador para uma empresa te premiar. Entre um funcionário desmotivado com muitos anos de casa e outro com desempenho acima da média, mas com menos tempo na empresa, o mais novo sairá na frente", diz. Conforme Daniella, se o funcionário tiver dúvidas sobre como o chefe vê seu trabalho, ele deve pedir um feedback, um retorno do superior sobre o seu desempenho, antes de considerar pedir aumento.
A consultora da Catho acrescenta que o funcionário deve também conhecer as necessidades de crescimento da empresa e verificar se seus argumentos estão de acordo com os interesses da organização, além de ter informações sobre o mercado em sua área, para determinar se o salário almejado é coerente com o que se paga em empresas concorrentes.
Para a head hunter e coach Fabiana Santiago, o aspirante a uma maior remuneração precisa também saber o momento certo de abordar o tema. Por exemplo, se ela recebeu uma avaliação em que foram apontados pontos negativos como chegar atrasada ao trabalho ou demonstrar certa dificuldade de relacionamento, ela deve demonstrar que resolveu essas questões antes de pedir o aumento. Caso não tenha essa consciência, pode chegar a inclusive receber uma "bronca" e ficar mal visto na empresa.
Análise inicial
A coach Richeli Sachetti, membro da Sociedade Brasileira de Coaching, considera que há três fases anteriores ao pedido. A primeira consiste em entender o motivo que o levou a querer o aumento que, segundo ela, é muito mais que o valor monetário. "O empregado tem que saber o que ele quer com esse aumento de valor. Se é status, segurança, qualidade de vida, merecimento, ou outro fator. Caso ele não saiba o que quer, pode ser que consiga o aumento e continue insatisfeito", diz.
Após descobrir o motivo do pedido, o funcionário deve se preocupar com a sua qualificação. "Os profissionais de sucesso se dedicaram e se prepararam antes de buscar o reconhecimento. Ou seja, o funcionário deve ter certeza se de fato está fazendo da melhor maneira possível o seu trabalho", diz. Trata-se de "valorizar o passe". "Um jogador de futebol recebe um grande aumento de salário após mostrar dentro de campo jogadas de craques. Assim, o funcionário também deve verificar se mostra o máximo do seu potencial na empresa."
Na terceira fase, o profissional deve saber se causa impacto significativo dentro do negócio da organização. "Ele tem que saber se de fato apresentou uma melhoria qualitativa e quantitativa nos resultados (da empresa). Se elaborou projetos que surpreenderam, aumentaram a receita da empresa, ou melhoraram o ambiente de trabalho", diz.
Quanto pedir e o que evitar
Segundo Fabiana, normalmente os aumentos solicitados pelos empregados variam de 10% a 20% do valor do salário. Em relação ao tempo, ela recomenda que o aumento só seja pedido após um ou dois anos na empresa ou no cargo. E, caso a empresa possua uma estrutura de cargos e salários e avaliações periódicas, o pedido pode deve ser feito após uma série de avaliações positivas. "Toda a empresa é movida por resultados, se o funcionário não traz o resultado esperado, não há porque questionar o salário. Se a empresa possui um sistema de avaliação de desempenho, os resultados estarão lá", diz.
Para Daniella, o profissional não deve estipular o percentual de aumento. "Porque poderá até ser mais baixo do que o que receberia. Ele pode mencionar que fez uma pesquisa e indicar a faixa salarial que encontrou, mas deixar em aberto para receber a proposta."
Para as especialistas, o funcionário não deve, em hipótese alguma, comparar o valor ou as qualificações de outro empregado para pedir o aumento. "É a pior coisa que pode fazer. O aumento de salário deve ter como base os próprios méritos, uma vez que cada profissional é único. Isso mostra despreparo, falta de capacidade e é muito mal visto pela empresa", comenta.
No caso de resposta negativa
Caso o pedido de aumento seja negado, a consultora da Catho não recomenda uma mudança de atitude. "O funcionário poderá demonstrar a sua insatisfação, mas não deve ameaçar ou dizer que ficou desmotivado e não irá mais desenvolver o mesmo trabalho de antes. Deixe que o chefe pense no que virá depois. Ele possivelmente pensará se você não vai perder estímulo ou procurar outro emprego. Caso fique claro na conversa que não há nenhuma possibilidade em promovê-lo ou previsão para que ocorra, é importante entender o motivo", diz.
"Ele também não deve desprezar alternativas. Seu chefe pode oferecer vantagens que podem ser até melhores do que um aumento salarial ou até mesmo, um desafio", afirma Daniella.
Se o profissional ainda achar que efetivamente merece o aumento e não tiver perspectivas de uma reavaliação, pode ser o momento de procurar outro caminho. "O empregado que não é valorizado deve se abrir para o mercado, onde aparecerão outras oportunidades", diz Fabiana.
Caso se considere qualificado, não desista de pedir outra vez o aumento, mas certifique-se de que o prazo que seu chefe deu para avaliar seu pedido se expirou e só então converse com ele novamente. 'Mas tenha cautela nas cobranças, procure entender se não ocorreu algum imprevisto nesse período. Espere um feedback positivo antes de comentar novamente sobre o aumento", comenta Daniella.
Confira os erros mais comuns ao pedir um aumento
Não se planejar: é preciso montar um diálogo e reunir evidências que justifiquem a solicitação;
Ignorar a situação econômica da empresa: saber se a empresa não está em uma crise financeira ou se congelou as contratações e promoções momentaneamente, por exemplo, é importante;
Propagar a intenção pela empresa: a reivindicação deve ser feita única e exclusivamente ao profissional que tem o poder de decisão. Caso contrário, sua história pode fazer parte de um grande telefone sem fio terminando com uma versão distorcida nos ouvidos do gestor que se armará para negar o pedido;
Blefar: evite dar ultimatos e fazer ameaças. Colocar o gestor contra a parede não vai facilitar a negociação;
Basear-se no tempo de empresa: os resultados de seu trabalho são o maior motivador para uma empresa te premiar e não o tempo de empresa;
Utilizar argumentos pessoais: não serão suas necessidades financeiras pessoais que irão convencer seu chefe a dar um aumento salarial. Baseie-se em argumentos qualitativos e quantitativos, ou seja, nas suas competências e nos resultados alcançados;
Fazer comparações salariais com colegas de empresa: basear o argumento do aumento salarial na remuneração do colega de trabalho não é uma atitude ética. Afinal, os salários são sigilosos;
Não ter coerência no valor do aumento: o ideal é ter coerência. Faça uma pesquisa de mercado para saber qual é a média salarial de um profissional na mesma função, levando em consideração o tamanho da empresa e a região em que trabalha;
Desistir com o não: é hora de ouvir as razões do chefe e renovar suas metas para uma próxima oportunidade. Questione: o que eu preciso fazer para obter o aumento esperado? Com a resposta, vá em busca dele.