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Papai Noel, operário do Natal que lida também com as emoções

Papai Noel, operário do Natal que lida também com as emoções

Redação

21/12/2013 - 10h00
Notícia sem imagem

As figuras mais representativas do Natal também têm contas a pagar, não tiram férias no fim do ano e precisam ir ao banheiro. Ser Papai Noel só parece ser fácil. Ninguém está com a vida ganha, mesmo já sendo bem velhinho.

O ex-motorista de caminhão de coleta de lixo, Osvaldo Pereira Rosa, de 58 anos, vende a imagem de Papai Noel há três anos em Campo Grande. Essa foi a saída que encontrou para ganhar um dinheiro extra no fim de ano depois que se aposentou por invalidez.

Ele gosta de interpretar a figura por causa do contato com as crianças. Porém afirma que se fosse para ser Papai Noel o ano todo não aceitaria, já que é bastante exaustivo incorporá-lo.

Foi a cunhada que deu a Osvaldo a ideia de deixar a barba e o cabelo crescerem com a intenção de conseguir trabalhos temporários no período de Natal. Desde então, ele tem que descolorir os pelos e os fios - que não são completamente brancos - para se parecer ao máximo com o bom velhinho.

Apesar de entregar presentes em uma motocicleta de modelo popular, e não em um trenó puxado por carismáticas renas, o aposentado está sempre lá, sentado na poltrona vermelha, todo receptivo aos adultos e crianças que quiserem vê-lo.

Invalidez

A vontade de ajudar e fazer bem ao próximo, um dos sentimentos compartilhados no Natal, acabou comprometendo a saúde do ex-motorista. Certa vez, resolveu ajudar um colega na época em que trabalhava na empresa de coleta de lixo, mas se deu mal. Ele trocou de função com o amigo, que pediu para praticar a direção do caminhão enquanto Osvaldo coletava o lixo nas ruas. O resultado foi uma grande “fisgada” sentida no nervo ciático quando ele recolhia um saco cheio de terra. Pouco depois, descobriu que o problema era crônico e que não poderia mais exercer nenhuma profissão por causa dele.

Como Papai Noel, ele ainda sente dores no fim do dia por ter que pegar várias crianças no colo e ficar tanto tempo sentado. Mas garante que a magia do Natal supera qualquer queixa que tenha sobre a coluna. “É recompensante ver o brilho nos olhos das crianças, não me importo com a dor”, conta.

Figura original

Roberto Ribeiro de Oliveira, de 60 anos, se considera o Papai Noel de Campo Grande que mais se assemelha à figura original. Este ano, ele vai faturar mais de R$ 10 mil pela permanência em um cenário montado em um shopping da Capital e pelas visitas a residências na véspera de Natal.

Os olhos de Roberto são azuis, o rosto é rosado, e o cabelo e a barba são esbranquiçados naturalmente. Ele só precisa mesmo de um enchimento para pôr na barriga porque é magro. Há oito anos ele tem freelance garantido como Noel.

Quando o Natal acaba, acabam-se as alegrias com os pequenos, e ele lamenta. Fora o trabalho temporário, ele cuida de um bar do qual é dono há mais de 15 anos. Antes de ter seu próprio negócio, já foi pedreiro, carpinteiro e garçom.

Para ser Papai Noel é preciso preparações que vão além do cuidado com a caracterização. Roberto, que é uma figura completa, se preocupa com o hálito, o cheiro do corpo e até com a quantidade de vezes que se levanta da poltrona. “De manhã, bebo pouca água e como pouco no almoço para não ir tanto ao banheiro quando estou trabalhando”, relata.

Mesmo assim, de vez em quando ele se levanta para “esticar as pernas” e evitar o cansaço que causa ficar sentado por muito tempo.

Bondade

Antônio Carlos Ferrari, de 55 anos, é um jovem Papai Noel que pratica a imitação há 30 anos - a maioria deles profissionalmente. Ele já gravou comerciais para shoppings de São Paulo e Fortaleza, e atualmente é o bom velhinho do Shopping China, em Ponta Porã.

Os olhos verdes, a barba comprida e branca, e o tipo físico o confundem com a figura lendária. Este ano, ele resolveu até incrementar a roupa vermelha com algum brilho, mas de resto, fica vestido tradicionalmente.

Emoção

Para Antônio Ferrari, se transformar no bom velhinho não é perrengue nenhum, pelo contrário. É pura emoção.

Todos os anos, alguma criança o toca de alguma forma emocionalmente, e ele toma isso como recompensa. O Papai Noel lembra de certa vez que escutou o desejo de uma menina de 6 anos, que não queria saber de smartphones, tablets e bonecas falantes. “Ela só pediu para eu fazer com que o pai dela desse um pouco mais de carinho, atenção e que brincasse mais com ela. Segurei as lágrimas, mas depois de atender a criança, fui ao banheiro para chorar”, conta.

Ferrari afirma que cobra pelo trabalho porque os empresários se beneficiam comercialmente da exploração da sua figura, porém destaca que é ele quem mais ganha com a mágica “mentira” do Papai Noel. 

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