Economia

CONSEQUÊNCIA

Preço do milho dispara e conta chega ao consumidor

A alta do grão vai se refletir, principalmente, nos valores da carne e do leite

A valorização de até 75% nos preços da saca de milho em Mato Grosso do Sul, deve impactar diretamente no bolso do consumidor em altas que vão se refletir principalmente nos preços da carne e do leite, atividades que dependem ditretamente da matéria-prima principal das rações.

“Estamos na entressafra sem pastagens e para manter os rebanhos e a produção de leite os produtores dependem da ração animal, que por sua vez tem o milho como matéria-prima”, esclarece o economista e professor do Nepes da Uniderp, Celso Correia de Souza. Segundo ele, o milho aumentando na ponta do mercado interfere na cadeia produtiva do leite da carne. “Estes reajustes na ração animal deverão ser repassados para os valores da carne e leite, que por sua vez já estão ocorrendo”, enfatiza.

Ele lembra que a soja já estava com preços elevados e o milho ajudava a manter o equilíbrio no custo da ração, no entanto, com a alta no dólar, este aumento das exportações para a China deverão impactar negativamente no estoque regulador. “Se o Governo não intervir vamos pagar alto pelos preços”.

Os efeitos, segundo ele, devem ser sentidos a partir de setembro no consumidor final. Mas os primeiros reflexos já podem ser verificados, hoje, no leite e derivados. Segundo o Sindicato das Indústrias de Laticínios de MS, o reajuste do leite de saquinho chegou a 25% no último mês, enquanto os produtos derivados do leite, como a muçarela, a alta alcançou 40%.

Em junho, o leite era encontrado nos supermercados por R$ 2,80 o litro, enquanto agora o valor é de R$ 3,50 o litro. Já o queijo muçarela foi o derivado que teve a maior alta, saltando de R$ 20,00 para R$ 28,00. 

A consumidora Maria de Araújo, técnica de enfermagem de 50 anos, percebeu a diferença. “O leite está mesmo mais caro. Só não reduzi a quantidade que compro porque são poucas pessoas em casa, não costumo consumir muito”, explicou, em mercado no centro da Capital.

O produtor rural e presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, Júlio César Bortolini, acredita que o consumidor sentirá todos os aumentos dos preços nas prateleiras dos mercados até antes de setembro, já neste mês. “A alta costuma ser imediata. Só existe demora quando é pra reduzir os preços, porque os comerciantes esperam queimar todo o estoque que compraram com os preços mais caros.

Acredito que, em poucos dias, o consumidor já vai começar a sentir diferença de preço no milho e derivados, e depois na carne, principalmente frango e porco. Ainda não é possível dizer o quanto vai subir, mas o aumento vai acontecer”, explica.

Bortolini ressalta que os preços elevados do grão estão trazendo diferentes consequências para a economia do Estado. Por um lado, os produtores que estão comercializando a produção agora estão lucrando mais; por outro, a indústria de carne suína e avícola prepara-se para levar prejuízos consideráveis.

“A ração representa 60% dos nossos custos de produção, então, nós já estamos sentindo muito esse impacto no bolso”, afirma Adroaldo Hoffmann, produtor e presidente da Associação de Avicultores de MS (Avimasul). Segundo Hoffmann, se o preço continuar subindo, a alternativa para o setor seria buscar milho em outros países. “Já teve época de precisarmos comprar de fora, o que pode acontecer novamente”.

PRODUÇÃO

Apesar do lucro dos produtores em consequência do valor alto da saca, o analista técnico do Sistema Famasul, Luiz Gama, ressalta que nem tudo será vantajoso para quem produz milho no Estado. “O preço subiu, mas nós temos a questão do aumento de custos. Em razão do tabelamento do frete, tivemos alta de 22% no preço do frete. Além disso, há estimativa de queda de 30% na produção de milho dessa safra, ou seja, o produtor vai ter menos grão para vender”, pontua.

Para a analista de grãos da Rural Business, Tânia Tozzi, o momento pede cautela aos produtores. “Com a guerra comercial da China e dos Estados Unidos, e a China sinalizando que vai importar milho brasileiro, tudo pode acontecer.

O que sabemos é que o milho é um alimento básico em toda cadeia alimentar. Se as exportações aumentarem e faltar milho no mercado interno, teremos mudanças brutais no agronegócio. E, caso subam demais os custos de produção da indústria de proteína animal, veremos mais produtores saindo da pecuária e indo para a agricultura”, finaliza.

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