Semana passada a Latam, uma das maiores empresas aéreas brasileiras, anunciou que havia pedido recuperação judicial nos Estados Unidos. A crise causada pela pandemia da Covid-19 tem mostrado a que veio. Se grandes companhias que aparentavam solidez se desfazem aos poucos diante dos olhos dos consumidores e governos, no cenário regional a situação não poderia e não é diferente.
Desde março, quando os primeiros casos forçaram a suspensão do comércio e serviços, cinco empresários acionaram a Justiça sul-mato-grossense pedindo recuperação judicial. O processo normalmente é a alternativa de grandes negócios quando as dívidas superam as receitas e o consenso com credores é necessário para tentar fôlego extra.
Estabelecimentos menores normalmente fecham as portas, isso quando têm condições financeiras de arcar com as rescisões trabalhistas de funcionários e honrar os últimos compromissos pendentes.
Dados da Junta Comercial apontam que 584 negócios encerraram as atividades em março e abril (os números de maio ainda não foram contabilizados). Esse montante representa um acréscimo de 40% em relação ao mesmo período do ano passado, quando 417 empresários não seguiram adiante no mercado.
E 2020 era um ano que prometia. Entre janeiro e fevereiro houve aumento de 19% na quantidade de novos estabelecimentos, mas a partir do terceiro mês, queda de 1,6% em março e 31% em abril.
Adelaido Vila, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas da Capital, afirma que no setor varejista, os números são ainda mais alarmantes.
“Pelos dados que nós temos, em torno de 30% das empresas podem fechar. Têm muitos empresários sem condições de oficializar os fechamentos pela total falta de condições financeiras. A pandemia afetou seriamente o varejo. Viemos de várias outras situações, de momentos de muita crise e a pandemia agravou a situação de empresas que já estavam em uma situação delicada”, disse ao Correio do Estado.
E toda essa questão econômica mais cedo, ou mais tarde, vai impactar diretamente na vida de uma grande parcela da sociedade, diz Adelaido.
“Somente em Campo Grande nós temos 320 mil trabalhadores no varejo. Desses, 70 mil já perderam ou perderão seus empregos por conta da pandemia. É um momento muito sério, muito grave”, disse à equipe de reportagem.
O problema, segundo ele, é que os créditos prometidos pelo Governo Federal para ajudar as empresas não estão chegando nas mãos dos donos dos negócios. A categoria denunciou que tinha dificuldades para obter os empréstimos necessários para quitar as folhas de pagamento e a situação continua do mesmo jeito.
“As exigências são muito altas. Muitas vezes o varejista já vinha com dificuldades de caixa antes do coronavírus e por isso o score já não era muito alto. O banco, com isso, não quer correr risco e não aprova o financiamento”, pontua.
Nesse momento, é difícil encontrar um negócio que tem condições de oferecer garantias seguras às instituições financeiras. Na Capital, foram apenas 15 dias de portas fechadas pelas restrições sanitárias. Após a reabertura, muitos clientes ainda têm receio de ir às ruas e deixam de comprar, o movimento caiu. Além disso, não é todo negócio que consegue atender por entregas. Existe ainda o problema financeiro da própria população. Muitos ficaram desempregados, outros, autônomos, perderam suas fontes de renda e recorreram aos auxílios emergenciais para quitar as contas básicas de casa.
O presidente da CDL afirma que a necessidade de socorro por parte do Governo Federal é urgente. “Ou as medidas chegam para nos salvar ou teremos um prejuízo econômico que vai expandir nas diferentes áreas, em vários outros seguimentos da sociedade. Não temos visto ainda práticas positivas. Não estamos vendo nenhuma política de socorro que realmente chegue a quem precisa. A micro e pequena empresa é que mais gera emprego. Ou ela recebe socorro, ou ela morre”, completa.