Economia

POLÊMICA

Comércio de Campo Grande não está disposto a ceder ao bloqueio parcial

Medidas restritivas podem gerar desemprego e fechamento de lojas, dizem empresários

Adriel Mattos

07/08/2020 - 08h00

Com o aumento de casos do novo coronavírus (Covid-19) em Campo Grande, o governo do Estado, por meio do Programa de Saúde e Segurança da Economia (Prosseguir), recomendou que a Prefeitura de Campo Grande adotasse medidas mais restritivas. 

Entidades e associações que representam o comércio não se mostram dispostas a adotarem as recomendações e apontam como “desnecessário” o fechamento das atividades não essenciais (lockdown).

A Capital está classificada no nível extremo do programa desenvolvido pelo governo do Estado, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), desde a segunda quinzena de julho. Com este nível de classificação, são recomendadas medidas mais agressivas de distanciamento social. Hoje, o assunto será discutido judicialmente entre os envolvidos.

Para o gerente de Relações Sindicais da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de MS (Fecomércio-MS), Fernando Camillo, não há necessidade de adotar medidas mais rígidas. 

“Nós entendemos que o prefeito elaborou essas medidas paulatinamente, de acordo com as necessidades. O comércio é o motor da economia e acaba sendo prejudicado com restrições. Concordamos plenamente com ele [prefeito] que não há necessidade de lockdown: fechar o comércio todo é impraticável. O comércio já está obedecendo rigorosamente as medidas de biossegurança. Quem vai ser prejudicado? Empresas e empregados, porque muitos terão de demitir. Fechar não resolve, se não houver fiscalização dos outros setores”, disse Camillo.

Levantamento do Instituto de Pesquisa Fecomércio-MS (IPF-MS), em parceria com o Sebrae-MS, aponta que muitas empresas se adaptaram à nova realidade e registraram recuperação nos meses de junho e julho. 

De acordo com a terceira edição da pesquisa “Impactos do Coronavírus no Comércio de Bens e Serviços de MS”, entre maio e junho, 24% dos empresários do Estado demitiram funcionários, enquanto em março e abril o número era de 37,33%. A perspectiva é a de que nos próximos três meses haja uma amenização ainda maior e o porcentual chegue a 8%.

A pesquisa mostra ainda que a maioria dos empresários (67%) realizou alterações nos canais de comercialização: passaram a vender pelas redes sociais (34%); utilizaram ou intensificaram o uso de plataformas on-line de comercialização (22%); e investiram no atendimento em domicílio ou a distância (11%). 

E, destas mudanças, a maioria (80%) disse que serão mantidas no pós-crise. Conforme a pesquisa, muitas empresas ampliaram as vendas. Entre os segmentos que tiveram ampliação mais significativa, estão os eletrônicos e as peças para automóveis.

RESTRIÇÕES

Entre março e abril, Campo Grande vivenciou o fechamento das atividades econômicas. O primeiro-secretário da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), Roberto Oshiro, diz que o setor ainda não se recuperou. 

“As empresas ainda não se recuperaram das duas semanas de março. A nossa economia é dependente dos pequenos comércios e serviços. Se fechar de novo, vai ser o caos. O ‘minilockdown’ [fechamento nos fins de semana] já trouxe o fim de empresas e funcionários demitidos. A falta de renda e o desemprego trazem outros problemas sociais. O desastre econômico é muito grave: o lockdown é um remédio que mata toda a sociedade”.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MS) disse, por meio de nota, que vê com extrema preocupação um possível lockdown, pois o setor não tem fôlego para se manter totalmente fechado, uma vez que as restrições impostas, como redução de horário de atendimento e fechamento nos fins de semana, já trouxeram inúmeros prejuízos. 

“Até agora, já foram fechados mais de cinco mil postos de trabalhos e o grosso das demissões ainda está por vir – no fim de agosto, início de setembro, quando começam a vencer os períodos de estabilidade oriundos dos afastamentos pelas suspensões dos contratos de trabalho. Mesmo com a abertura parcial, já tivemos fechamentos de estabelecimentos do setor e isso poderá se intensificar”, informou.

COMPORTAMENTO

Para os empresários, o que precisa mudar é o comportamento da população, não a abertura das lojas. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande (CDL-CG), Adelaido Vila, disse que parte dos negócios vão morrer caso haja nova medida de restrição. 

“Vivemos isso nos dois sábados que ficamos fechados: as pessoas tratam como um feriado. Quem está trabalhando, está cumprindo as medidas no ambiente de trabalho. Com as restrições, corremos o risco de aumentar o índice, sem falar nas reuniões de família e festas clandestinas. Há necessidade de entender os hábitos das pessoas que estão contaminadas: tem gente que está em casa há muito tempo e fica doente do mesmo jeito. Quem prova para nós que essa é a melhor saída? Qual o dado que o comércio é o responsável pela contaminação? Será que o caminho não é abrir mais leitos? Nos shoppings, por exemplo, de um universo de 10 mil trabalhadores, 12 foram contaminados pela Covid-19. A solução não é fechar, é ter um outro olhar sanitário”, explicou.

A ideia foi reforçada pelo presidente da Associação dos Lojistas dos Shoppings Campo Grande e Norte Sul, Kermson Martins. De acordo com o empresário, nos dois fins de semana de “minilockdown” as pessoas não respeitaram o distanciamento.  

“Quando as pessoas estão trabalhando, estão respeitando as medidas de segurança. Se estão em casa, vão à casa de amigos e familiares e não se cuidam. O consumidor no shopping também cumpre todos os regramentos, tem de usar máscara, aferir temperatura, as lojas respeitam a capacidade por metro quadrado, então esse consumidor está protegido. Sem shopping, comércio, essa pessoa pode estar na casa de outras”, reiterou.  

O representante da ACICG também frisa que o ambiente do comércio é controlado. Oshiro afirma que, se as pessoas respeitarem as medidas, o contágio será menor. 

“A própria experiência de Campo Grande mostra que quanto mais restritivas as medidas, mais a curva de contágio aumentou. Já estamos passando do pico, para quê vamos penalizar a economia? Não há nenhum fato que mostre que fechar o comércio vai resolver. A nossa população precisa é mudar os hábitos”, destacou.  

Economista ouvido pelo Correio do Estado acredita que restrições por um período maior agora estimulariam uma retomada até o fim do ano. 

“Antes fechar de uma vez só agora do que ficar abrindo e fechando, que é mais difícil de fechar um planejamento para a recuperação”, explicou economista, que preferiu não ser identificado.

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