Em meio à crise econômica provocada pela Covid-19, o número de inadimplentes em Campo Grande aumentou 25,64% no mês de junho em comparação com os últimos dois anos.
Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
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Atualmente, a Capital possui um total de 49,4 mil pessoas sem condições de quitarem suas dívidas.
Enquanto em 2019, período sem pandemia, o volume de pessoas que não estavam em dia com seus compromissos financeiros chegou a 39,3 mil na Capital.
A economista Daniela Dias ressalta que o resultado já era esperado, considerando os impactos da pandemia sobre a renda dos consumidores, visto que muitas famílias estão sem condições de saldar as dívidas.
“Ainda estamos vivendo os reflexos na economia durante esse longo período de pandemia.
Tudo oscila muito rápido e as consequências são a perda ou a diminuição de renda, que percebemos no aumento do endividamento e da inadimplência.
A pessoa se torna endividada porque não tem receita, e sem renda fica complicado de pagar as dívidas”, apontou a economista.
Em 2020, o número de pessoas inadimplentes em junho teve uma queda e foi a 33,7 mil.
Conforme noticiou o Correio do Estado no ano passado, nos primeiros meses de pandemia, as pessoas estavam mais cautelosas com os gastos.
SEMESTRE
Após mais de um ano de pandemia e diversos reflexos no bolso do consumidor, Campo Grande conta com 631.490 pessoas endividadas no primeiro semestre de 2021, somando aqueles que têm contas em atraso por até três meses e aqueles que estão inadimplentes há mais de três meses e sem condições de pagar.
No mesmo período do ano passado, eram 605.503 pessoas com contas para quitar na Capital, (aumento de 4,2%).
Enquanto no comparativo com o primeiro semestre de 2019 o aumento é de 11%; antes da crise sanitária, eram 566.973 pessoas com contas em atraso.
Em números absolutos, Campo Grande tinha 212.804 (67,4%) pessoas endividadas no mês de junho, seja com cheques pré-datados, cartões de crédito, carnês de lojas, empréstimo pessoal, prestações de carro e seguros.
O porcentual apresentou aumento em comparação com o mesmo período do ano passado, quando o levantamento indicou 190.621 famílias endividadas (33,4%).
No topo do ranking de endividamentos em Campo Grande, o grande vilão é o cartão de crédito, que corresponde a um total de 57,7% entre as fontes de dívidas dos gastos excessivos neste ano, logo depois aparece o carnê, com 27,2%.
Financiamento de casa vem logo em seguida, com 15,3%, e depois financiamento de carro, com 9,2%.
No primeiro semestre de 2020, o cartão de crédito também foi o maior motivo das dívidas em atraso, citado por 57,8% dos entrevistados.
“Existe uma necessidade de se controlar a utilização do cartão de crédito, porque é muito fácil virar uma bola de neve.
Diante de uma dívida, é fundamental comparar as taxas de juros, pensar nas possibilidades de entradas para amenizar o máximo possível os impactos nas contas no fim do mês”, pontua a economista.
DICAS
O motorista de aplicativo José de Almeida, 48 anos, teve de refinanciar as parcelas de seu carro, que também utiliza para trabalhar, para então quitar suas dívidas em meio à pandemia.
“Fiquei sem renda do nada e ainda cheio de contas, com isso, comecei a fazer corridas de aplicativo e continuo até hoje, ninguém contava com a pandemia.
Tive que procurar alternativas para resolver minhas contas e resolvi refinanciar meu carro, que está quase quitado; de repente, tudo virou uma bola de neve”, relatou.
O Correio do Estado conversou com especialistas para mostrar o que pode ser feito para organizar as finanças e sair do vermelho.
Segundo eles, é fundamental, primeiramente, entender o valor total da dívida e o quanto você conseguiria pagar.
O economista Marcos Almeida alerta que a pandemia afetou diretamente a renda de milhares de famílias, em virtude das medidas de restrição e do isolamento social, sendo necessário repensar antes de iniciar uma nova conta, para assim não ter grandes problemas.
“Hoje em dia, é necessário repensar antes de iniciar qualquer conta grande, sempre analisando o que é necessário quitar e resolver primeiro, isso é importante para não entrar no vermelho, estamos atravessando momentos de muitas incertezas, mas com esperança de atravessarmos essa crise”, pontuou o economista.
O especialista ressalta a importância da utilização da matemática básica, ou seja, gastar menos do que se ganha.
Pois o orçamento das famílias durante a pandemia tem sido comprometido por fatores como inflação mais elevada e valor reduzido do auxílio emergencial.
“O fundamental é ter equilíbrio, se você gosta de uma coisa, invista, mas pense no que é necessário resolver financeiramente, é necessário termos esperança em dias melhores, mas com consciência do que é realmente necessário”, alegou.
O professor e economista Eugênio Pavão reitera que a população precisa repensar alguns gastos e ter organização e planejamento com as contas para fugir de gastos desnecessários e endividamentos.
“A dica para sair do vermelho é um conjunto de atitudes, que devem se guiar pela redução dos gastos supérfluos, gastos de lazer e diversão, viagens.
É um esforço grande, pois significa uma mudança de hábitos, mas, no atual momento, é necessário termos planejamento para enfrentar os desafios da economia pós-vacinação”, pontuou.
O primeiro semestre deste ano terminou com 69,7% das famílias brasileiras com alguma dívida em atraso ou não, alta de 1,7% em relação a maio e de 2,5% em comparação com junho de 2020.
Segundo a CNC, esse é o maior patamar de endividamento familiar da série histórica, iniciada em 2010.