Economia

EM MARACAJU

Grupo chinês vende parte do terreno que abrigaria indústria bilionária

Prefeitura avalia pedir de volta os 102 hectares doados para a construção da fábrica

Depois de ser desacreditada pela gestão estadual, a indústria bilionária de processamento de milho em Maracaju também traz desconfianças à população. Conforme apurou o Correio do Estado com moradores do entorno, o BBCA Group, grupo de investidores chineses, se desfez de parte do terreno que abrigaria a megaindústria.

O grupo adquiriu uma área de 272 hectares para a construção do que seria um complexo do segmento do agronegócio. Dos 272 hectares, 170 foram comprados pela empresa BBCA e 102 hectares foram doados pela prefeitura de Maracaju à empresa chinesa na época das negociações.  

De acordo com moradores, a administração municipal teria investido em torno de R$ 7 milhões para viabilizar o megaprojeto chinês em Maracaju. Isso contando com a doação dos 102 hectares (avaliados em R$ 3,07 milhões na época) e com a construção de uma estrada de acesso aos armazéns da BBCA.  

Ainda segundo moradores locais, nos últimos anos, o grupo de chineses teria se desfeito de parte do terreno que adquiriu com recursos próprios. Dos 170 hectares, 50 teriam sido vendidos pelos chineses a outros moradores de Maracaju. Informação que levanta ainda mais suspeita da veracidade do projeto da BBCA no município.

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ANDAMENTO

A BBCA chegou a construir, dentro dos 170 hectares comprados pelos chineses, dois armazéns graneleiros, barracões e um secador utilizado na secagem de grãos como soja e milho após a colheita.  

O que prometia ser um projeto bilionário para geração de empregos e renda ainda gera polêmica entre moradores e empresários da cidade. Principalmente em razão do montante gasto com os terrenos, dos investimentos para que desse certo e da falta de funcionamento.  

Ainda conforme apurou a reportagem, na época das negociações, entre 2013 e 2015, a prefeitura de Maracaju teria desapropriado outro terreno para ceder à BBCA. Cerca de 86 hectares, ao lado da área que os chineses já teriam adquirido, em razão de o terreno desapropriado ter acesso a um rio.  

“Sabemos que grandes empresas são importantes para o desenvolvimento dos municípios, e Maracaju merecia um grande projeto como este. Mas é preciso ter muita cautela quando são grupos de fora, de outros países, e quando envolve valores tão altos como os que foram investidos nessa indústria BBCA", disse um morador que preferiu não se identificar.

"Hoje está tudo abandonado em uma grande área onde poderiam estar funcionando pequenos negócios e girando a economia da cidade. A administração da época poderia ter investido no próprio município em vez de investir em um projeto fantasma”, completou.

A estrutura que deveria abrigar a megaindústria foi alugada desde o ano passado. Conforme apurou o Correio do Estado, uma cooperativa ocupa os armazéns. Trabalhadores do município confirmam que desde 2020 os armazéns e o barracão da bilionária chinesa foram locados pela Lar Cooperativa Agroindustrial. Informação que também foi confirmada pela gestão estadual.

Questionada sobre o período de vigência do contrato, a cooperativa disse que não se pronunciaria.  

PROJETO

O empreendimento bilionário foi anunciado em 2015, com a promessa de investimentos da ordem de US$ 1,21 bilhão (convertido em mais de R$ 6 bilhões hoje) e geração de mil empregos diretos e indiretos.  

A gestão municipal de Maracaju havia informado que um ofício foi enviado aos chineses em junho pedindo um cronograma relacionado às obras no local. Em resposta, de acordo com o secretário de Governo de Maracaju, Frederico Fellini, as alegações sobre a retomada das obras continuam as mesmas de contato feito no ano passado: a pandemia da Covid-19.

“Recebemos a devolutiva da empresa BBCA com as alegações do impedimento [pandemia] de trânsito entre os países em decorrência de restrições como quarentena, vacinação e falta de autorização de voos”, informou o secretário.

Ainda segundo Fellini, uma vistoria será realizada no local onde a indústria deveria funcionar. “O município fará uma inspeção nas instalações que estão no local para a produção de um relatório do andamento das obras e do cumprimento das obrigações”, explica. Conforme Fellini, a devolução de parte do terreno já é analisada pelo Executivo.  

EMPREENDIMENTO

As tratativas do grupo chinês com as gestões estadual e municipal começaram ainda em 2013. Em 2015, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) formalizou a parceria do Estado com os investidores do BBCA Group e o Banco de Desenvolvimento da China (China Development Bank – CDB), este último sendo o financiador da indústria esmagadora de grãos.  

O governo do Estado, que era entusiasta do empreendimento, já desistiu de cobrar os empresários. 

“Na minha avaliação, eles devem ter errado muito na estratégia deles e eu não acredito que eles venham a ter o empreendimento que tinham sinalizado lá atrás. Eu não acredito que no curto prazo retomem aquela obra da BBCA. Se retomarem, que é o que eles estão sinalizando, vão retomar com um processo menor do que o que eles planejavam”, disse o titular da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Jaime Verruck.  

A fábrica de Maracaju seria uma unidade industrial química a partir do processamento do milho e da cogeração de energia. Segundo informado em 2019, a primeira unidade consumiria US$ 100 milhões. O restante dos investimentos – superiores a US$ 1 bilhão – seria aplicado na fabricação de produtos químicos voltados à indústria alimentícia e de embalagens.  

No auge, a estimativa seria processar 1,2 milhão de toneladas de milho.

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