Puxada pela alta dos combustíveis, a inflação de Campo Grande chegou a 1,05% em outubro, acumulando alta de 8,80% em 2021 e de 11,41% em 12 meses.
Com o impacto dos aumentos consecutivos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode fechar o ano em dois dígitos, atingindo o maior valor da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Últimas notícias
A inflação oficial do País começou a ser aferida em Campo Grande em 2014. De lá até os dias de hoje, o ápice da inflação foi registrado em 2015, quando o índice encerrou o ano em 9,96%.
Para este ano, de acordo com os economistas ouvidos pelo Correio do Estado, a taxa pode fechar em dois dígitos pela primeira vez.
“Até janeiro ainda teremos aumentos de preços e devemos fechar 2021 com dois dígitos, principalmente pela falta de oferta de produtos, dólar mais alto e preços de combustíveis crescendo”, avalia o doutor em Economia Michel Constantino.
Para a economista Daniela Dias, vai depender de uma série de fatores, como a questão cambial e a situação político-econômica do País.
“Fechar em dois dígitos vai depender de todos esses fatores, como vai ficar o câmbio, a oferta e a demanda. E com a chegada do fim do ano os gastos tendem a aumentar, então, fica mais difícil controlar a inflação. Há necessidade de buscar o equilíbrio financeiro”.
Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados em Campo Grande, todos tiveram alta de preços nos últimos 12 meses, com destaque para transporte (19,95%), habitação (14,31%), alimentação e bebidas (11,91%), artigos de residência (10,89%) e vestuário (10,60%).
Em outubro, a alta também foi puxada por transporte (1,97%) e alimentação e bebidas (1,40%).
COMBUSTÍVEIS
Os combustíveis são os “vilões” da inflação, tanto no mês quanto no acumulado. Em 12 meses, o etanol acumula alta de 55,17%, seguido por diesel (40,02%) e gasolina (37,37%). Somente em outubro, a gasolina variou 2,85%, o etanol, 3,25%, e o diesel, 6,57%.
Conforme os dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o litro da gasolina comum custa em média R$ 6,53 no Estado, variando entre R$ 6,29 e R$ 6,94 na última semana.
Já em outubro do ano passado, o preço médio era de R$ 4,50, indo de R$ 4,44 a R$ 4,84, diferença de R$ 2 por litro do combustível.
O litro do diesel saiu de R$ 3,47, em 2020, para R$ 5,24, na semana passada. O etanol está custando em média R$ 5,30 na pesquisa mais recente, ante os R$ 3,18 em outubro do ano passado.
A Petrobras reajustou 12 vezes a gasolina e o diesel em 2021. Já o etanol hidratado sofreu aumento de 16,47% nas usinas no último mês.
“O combustível está mais caro porque o preço é ditado no mercado internacional e a gente tem uma forte desvalorização do real frente ao dólar, o que significa que o transporte vai ficar mais caro e os produtos nas gôndolas dos supermercados, também. Temos inflação de custos, de transportes e ainda a questão da oferta e demanda”, afirma Daniela.
CUSTO DE VIDA
Como consequência do alto índice e dos preços, o consumidor da Capital tem um custo de vida mais caro do que no resto do País. No ano, a inflação de Campo Grande chega a 8,80%, enquanto a média nacional é de 8,24%. No intervalo de 12 meses, o índice local vai a 11,41%, ante os 10,67% do Brasil.
“Toda inflação é ruim para o consumidor quando ela não está dentro de um equilíbrio. O primeiro ponto é a redução do poder de compra, quando o consumidor precisa fazer um malabarismo maior, buscar algumas alternativas para que o mesmo orçamento dê para comprar aquilo que é considerado importante, ou cortar alguns gastos. Para o trabalhador que ganha um salário mínimo, fica ainda mais difícil”, considera Daniela.
Ainda de acordo com a economista, o aumento do custo de vida é uma reação em cadeia da sequência de altas. No campo, há a inflação de custos para produzir, o transporte também sofreu reajustes (tanto no frete quanto nos combustíveis) e, por fim, os alimentos chegam ao supermercado e trazem o impacto ao consumidor.
DESCONTROLE
Aumentos inflacionários são muito ruins para todos, principalmente para as famílias com renda menor, destaca Constantino. Segundo o economista, em 2019, o País estava se acostumando com uma inflação caindo e taxa de juros baixa, abaixo de dois dígitos.
“Em 2019, tivemos queda significativa da inflação, abaixo dos dois dígitos, e isso é comemorado pelo mercado, pois marca uma boa gestão e melhoras no bem-estar da população. No fim de 2020 [dezembro] inicia o aumento inflacionário e não para mais. Hoje voltamos aos dois dígitos, o que mostra que os problemas da pandemia não são apenas na saúde, mas também na economia”, avalia.
O economista Eugênio Pavão explica que a inflação em descontrole passa a corroer a renda da população.
“Tornando a classe média pobre, e a classe pobre, miserável, corroendo o tecido social. Mas o governo não encontra outra saída, a não ser criar crise, com altas de juros, por meio da política monetária. Por outro lado, abandona o equilíbrio fiscal prometido com as reformas previdenciária, fiscal, tributária, etc. Somente o retorno da confiança nas autoridades econômicas e políticas pode fazer a economia reagir, algo distante no momento”.
A estratégia que tem sido utilizada pelo governo federal é o reajuste consecutivo da taxa Selic, para tentar controlar o consumo e, consequentemente, a inflação.
Em março, a taxa foi ajustada de 2% para 2,75%, em maio, para 3,50%, em junho, foi a 4,25%, em agosto, a 5,25%, em setembro, para 6,25%, e em outubro, para 7,75%. Conforme os especialistas, o reajuste em dezembro deve ser ainda maior, para tentar conter o índice inflacionário.