Economia

RETRATAÇÃO

Construção civil projeta crescimento menor para 2022

Aumento de insumos e financiamentos mais caros impactam diretamente o segmento

A Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) apontam crescimento tímido no Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil. Em 2021, apesar da pandemia, o crescimento registrado foi de 8%; para 2022, a projeção é de 2%. 

Alta de insumos e financiamentos mais caros influenciarão nos resultados na cadeia produtiva.

Os economistas ouvidos pelo Correio do Estado indicam diferentes fatores que influenciarão na economia e no segmento: as eleições, o custo dos materiais e o encarecimento dos juros.

Para o economista Marcio Coutinho, o ano de eleições para o principal cargo do executivo nacional requer uma maior atenção por parte de todos. 

“Tudo indica que este ano teremos grande volatilidade no mercado, em função desta situação. Esta volatilidade pode causar insegurança entre os empresários e os consumidores. Portanto, com o aumento dos insumos para o mercado específico da construção civil, o produto final tende a ficar mais caro e o empresário ficará de olho em como será a demanda deste mercado, o que poderá ser afetado negativamente pelo aumento das taxas de juros”, avalia Coutinho.

Segundo o economista, por mais que a casa própria seja um sonho do consumidor brasileiro, o custo de aquisição deste produto tende a ficar mais caro em função dos fatores como o aumento de insumos e a taxa de juros. 

“E também associado ao nível de desemprego que continua alto, o que pode ser um fator determinante para a tomada de decisão em assumir um compromisso de longo prazo, podendo fazer com que o crescimento deste setor não seja tão expressivo”, completa.

A economista Daniela Dias aponta que a questão fiscal deve influenciar no segmento. “A construção civil acabou sendo beneficiada quando houve redução nas taxas de juros em 2020 [que impactou o financiamento de imóveis] e também pelo fato de as pessoas ficarem mais em casa, o que fez com que elas investissem mais em melhorias nas residências [obras e reformas]”, analisa.

A redução da projeção de crescimento também pode estar atrelada ao consumo mais cauteloso. “Se as pessoas estão se sentindo em um cenário muito volátil, essas tomadas de decisões são impactadas, tanto no consumo quanto na tomada de empréstimos”, detalha Daniela.

CUSTOS

A inflação medida pelo Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) foi de 0,69% em dezembro, em Mato Grosso do Sul, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado no ano, atingiu aumento de 24,47%, sendo o maior do País, subindo 17,3 pontos porcentuais em relação a 2020, quando o índice foi a 7,17%.  

Considerando a desoneração da folha de pagamento, o custo do metro quadrado passou de R$ 1.197,89 em dezembro de 2020 para R$ 1.490,96 em dezembro passado.

Ainda de acordo com o Sinapi, sem considerar a desoneração da folha de pagamento do setor, o custo estadual da construção por metro quadrado chegou a R$ 1.578,85 em dezembro de 2021, sendo R$ 919,65 relativos aos materiais e R$ 659,20 à mão de obra. 

Em dezembro de 2020, o custo havia sido de R$ 1.277,15, quando R$ 684,22 eram empregados em materiais (por metro quadrado) e outros R$ 592,23 da mão de obra .  

Aumentos no preço dos insumos na construção civil refletem em toda a cadeia da construção. O presidente da Associação dos Construtores de Mato Grosso do Sul (Acomasul), Diego Canzi Dalastra, relata que no setor de acabamentos, que engloba, pisos, torneiras, pias e afins, o ano já iniciou com aumento de 15%.  

“Em 2021, esse setor teve aumento de mais de 50% nos preços. Isso está encarecendo a obra, e quando nós chegarmos no meio do ano, o imóvel vai ser comercializado com preço reajustado”, estima.

De acordo com o vice-presidente do Sindicato Intermunicipal da Indústria de Construção de MS (Sinduscon-MS), Amarildo Miranda Melo, o setor pode levar de quatro a seis meses ainda para processar as entregas. E que há dificuldade para encontrar outros materiais como aço e alumínio, o que atrapalha a rotina das obras. 

“O aço ainda requer uma antecedência, mas dependendo do cronograma de pedido e de execução da obra atrapalha pouco, o alumínio a mesma coisa, mas isso tudo deve ser restabelecido até junho ou julho”, acredita.

A explicação dada pela indústria, de acordo com eles, é de que em decorrência das medidas restritivas adotadas em 2020, as fábricas pararam a produção, mas a construção civil não, assim os estoques foram consumidos e ainda não houve reposição de oferta. 

“A demanda continuou normal, com isso as fábricas tiveram de retomar em um mercado ainda aquecido”, diz Melo.

Em 2021, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-FGV) subiu 13%. Este é o principal parâmetro de preços relacionados ao setor.  

O presidente da Acomasul ainda explica que a construção trabalha com venda de imóveis finalizados há cerca de seis meses do momento da compra, isso significa que se os insumos utilizados na construção são do ano anterior, e, com os aumentos em 2021, o imóvel deve ficar mais caro neste ano.

JUROS

A taxa Selic chegou ao menor patamar em 2020, e com isso levou outros juros a ficarem mais baixos, como o imobiliário, facilitando a aquisição de imóveis. 

Mantida a 2% entre agosto de 2020 e março de 2021, o Comitê de Política Monetária (Copom) subiu a taxa básica sete vezes desde março de 2021, saltando para 9,25% em dezembro. Para 2022, a previsão do boletim Focus é de que a Selic chegue até a faixa dos 11,50%.

“É um agravante também, além de a parcela subir de preço por causa do imóvel, os juros vão encarecer ainda mais. E, o que tudo indica, a renda do brasileiro não aumentou. Então o setor está preocupado se a demanda dará conta do absorver todas essas altas”, admite o vice-presidente do Sinduscon-MS.

O motivo disso está ligado ao aumento da taxa de juros, em 2021, era possível financiar um imóvel com taxa de 5,5% e renda mínima mensal de R$ 5,5mil. Atualmente, as taxas praticadas giram em torno de 9%, o que requer renda familiar de R$ 6,6mil.

Segundo o doutor em Economia Michel Constantino, o movimento das autoridades monetárias tem um só objetivo: conter a inflação. “Ao aumentar a taxa de juros Selic, o Copom permite que todo mercado financeiro aumente suas taxas de juros”.

Ele explica que isso faz com que os pagamentos a prazo passem a ficar mais caros e desincentive o consumo a prazo. 

“Esse tipo de movimento desencadeado pela Selic mais alta só tem efeito negativo no mercado para os imóveis que têm compra a prazo. Para os imóveis comprados à vista, o mercado aquece, pois os preços estarão mais baixos e os poupadores [compradores a vista] são incentivados a comprar”.

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