Com pressões sobre a produção, como a quebra da safra 2021/2022 em toda a região sul do País e de Mato Grosso do Sul, há expectativa entre produtores rurais e mercado de que o preço da saca de soja possa ultrapassar a marca dos R$ 200 nos próximos meses.
O mercado nacional, inclusive, já paga próximo a essa cotação no Rio Grande do Sul, um valor um pouco acima do que os agricultores de Mato Grosso do Sul conseguem nos portos onde negociam o embarque da produção.
Apesar de os preços assustaram à primeira vista, o presidente da Associação de Produtores de Soja e Milho de MS (Aprosoja-MS), André Dobashi, argumenta que a impressão de que o preço da saca está alto não passa de uma ilusão.
“O produtor faz trocas e vendas baseadas em custos dos insumos de produção, ele não consegue vender pelo melhor preço. Isso porque faz as travas lá atrás em sacas, consequentemente, ele não pega o valor mais alto, ele lastreia o custo na moeda dele, que é a saca de soja”.
Essa dinâmica, segundo Dobashi, em uma época de colheita como a atual, deixa um custo alto para a produção, e neste ponto o valor da saca não é visto com alegria pelo mercado.
“Vale a pena esclarecer que este valor está assim por não ter o produto no mercado, e isso faz com que ninguém saia ganhando. A soja é valorizada para estimular o pouco grão que tem a ser comercializado, e não necessariamente significa lucro alto”.
Segundo Carlos Dávalo, corretor da Granos Corretora, “esse valor [R$ 200] está na cabeça do mercado e todo mundo sente que ele pode chegar lá, mas há uma janela entre o início e o fim da colheita para que isso aconteça”.
O consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, já é um pouco mais reticente com o preço da commodity.
“Para o produtor, o preço varia dos R$165 a R$ 185 a saca, dependendo da região. Nos portos, sim, a soja já está sendo negociada na região dos R$ 200, isso por causa da adição do preço do frete”.
OFERTA
Os especialistas se referem à relação entre demanda e oferta do produto neste momento de colheita, principalmente em Mato Grosso do Sul. Para Brandalizze, o preço direto ao produtor não passará muito da faixa citada.
“Mato Grosso do Sul está na época da colheita, e, como o Estado produz mais do que a própria capacidade de armazenamento, a alta oferta pressiona o preço para longe dessa faixa dos R$ 200”, analisa. O último boletim da Aprosoja-MS aponta que o Estado havia colhido 2,8% da safra de soja até esta terça-feira.
O consultor acredita ser muito difícil o produtor receber este valor por saca.
“Em MS, o preço da saca negociada pelo produtor fica na casa dos R$ 165 a R$170, diferentemente dos quase R$ 190 pagos no Rio Grande do Sul, mas esse fator existe porque lá a seca foi mais severa. Da mesma forma, isso se alastra para os vizinhos Paraguai e Argentina, que também sofrem com a quebra da colheita e têm um efeito de alta no preço”, diz Brandalizze.
Ontem, a saca foi negociada a R$ 199 em Passo Fundo (RS).
PREÇOS
Segundo dados da Granos Corretora, a saca de soja fechou a quarta-feira sendo comercializada a R$ 175,50 em Dourados. Já em Campo Grande o valor estava em R$ 174,00.
Na quinta-feira, o grão já apresentava alta novamente e estava negociado a R$ 180 nas duas praças, muito distante da última cotação de 2021, quando a saca fechou negociada a R$ 156 em Dourados e a R$ 159 em Campo Grande, aumento de 13,33% e 11,66%, respectivamente.
Os analistas veem esta força inflacionária no preço da soja também influenciada pelo dólar, que aumentou muito nos últimos cinco anos.
De janeiro de 2017 até janeiro de 2022, o dólar amarga alta de 70,55% no acumulado, saltando de R$ 3,09 para R$ 5,27. Em 2021, a valorização da moeda internacional atingiu 7,27% de alta.
Especialista em mercado exterior, Aldo Barrigosse afirma que esse é um dos principais fatores para a saca poder atingir a marca dos R$ 200.
“Dólar forte frente ao real, além de efeitos climáticos e demanda internacional e nacional em alta, são os principais motivos para a commodity ser negociada acima dessa marca”, explica.
Outro ponto de forte pressão é a quebra da safra. Carlos Dávalo relata quebra de 10 milhões de toneladas apenas no Brasil. “Nos vizinhos Paraguai, Uruguai e Argentina, temos um número próximo de 25 milhões de toneladas, então é possível que o preço suba no futuro”.
No mercado futuro norte-americano, as cotações encerraram o dia com os contratos de maio chegando aos US$ 15,47, e os de julho, a US$ 15,42 por bushel (27,2 kg).
“O mercado puxou forte em Chicago e no mercado interno, com prêmios também fortes diante da quebra da América do Sul, e tudo isso leva, naturalmente, a estimarmos uma maior demanda pela soja americana em 2022 para compensar essa quebra aqui. Então, são dois fatores importantes”, afirma ao Notícias Agrícolas o analista de mercado da Safras & Mercado Luiz Fernando Gutierrez.
SAFRA
Boletim da Aprosoja-MS divulgou nesta semana números do prosseguimento da temporada. Segundo o documento, os dados da estiagem ainda consideram que as lavouras de MS seguem 31% em bom estado, 36% regulares e 33% ruins.
Nesta safra 2021/2022, a área plantada aumentou 7%, saindo de 3,529 milhões de hectares no último ciclo para 3,776 milhões de hectares.
A expectativa de produtividade da colheita, que estava na marca de 63 sacas por hectare, foi reduzida no começo de dezembro para 56 sacas e reduzida novamente no mês de janeiro, atingindo a marca de 50 sacas por hectare.
Os valores colocam o volume estimado na casa dos 11,464 milhões de toneladas, bem abaixo das 12,7 milhões de toneladas esperadas na época do plantio e ainda mais distante da safra recorde no ciclo passado, de 13,3 milhões de toneladas.
Os dados caíram ao longo da temporada por causa da falta de chuvas. Janeiro apresentou volume médio 50% abaixo do esperado para o período, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).