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Embargo da UE ameaça avanço da carne de MS no mercado europeu

Exportações cresceram 22,5% em valor e 16,2% em volume de janeiro a julho; CNA cobra reação do governo federal

A suspensão da entrada de produtos brasileiros de origem animal na União Europeia (UE) ameaça interromper o avanço das exportações de carne bovina de Mato Grosso do Sul para o bloco.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), consultados pelo Correio do Estado, mostram que as vendas de carne bovina sul-mato-grossense para os países europeus cresceram 22,5% em valor e 16,2% em volume entre janeiro e julho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025.

Nos sete primeiros meses deste ano, MS exportou US$ 59,5 milhões em carnes bovinas desossadas congeladas e frescas ou refrigeradas para a União Europeia. No mesmo período de 2025, o valor havia sido de US$ 48,6 milhões.

Em volume, os embarques passaram de 5,54 mil toneladas para 6,44 mil toneladas, crescimento de aproximadamente 900 toneladas em um ano.

O resultado vinha sendo positivo justamente antes da entrada em vigor da suspensão europeia, iniciada na quinta-feira. A medida pode atingir frigoríficos, produtores rurais e outros segmentos ligados à cadeia da carne no Estado.

No acumulado de 2025, considerando as principais categorias de carne bovina e outros produtos bovinos registrados no levantamento do Mdic, Mato Grosso do Sul exportou US$ 126,4 milhões, correspondentes a 14,5 mil toneladas para a União Europeia.

A maior expansão neste ano ocorreu nas exportações de carne bovina desossada congelada. Entre janeiro e julho de 2025, MS havia vendido US$ 27,1 milhões, equivalentes a 3,57 mil toneladas, para o mercado europeu.

No mesmo período deste ano, foram US$ 34,1 milhões e 4,26 mil toneladas, crescimento de 25,9% no valor e de 19,5% no volume.

Nas carnes bovinas desossadas frescas ou refrigeradas, as exportações passaram de US$ 21,45 milhões e 1,98 mil toneladas nos primeiros sete meses de 2025 para US$ 25,35 milhões e 2,18 mil toneladas no mesmo período deste ano. O avanço foi de 18,2% em valor e 10,3% em volume.

A evolução dos dados evidencia a importância do mercado europeu para a pecuária sul-mato-grossense. A suspensão ocorre em um momento em que o Estado ampliava tanto a receita obtida com os embarques quanto a quantidade de carne enviada ao bloco.

REAÇÃO

Diante do bloqueio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) acionou o Ministério das Relações Exteriores e o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, Nelsinho Trad.

Em ofício enviado ao ministro Mauro Vieira, o presidente da CNA, João Martins, pediu que o governo avalie o acionamento do mecanismo de reequilíbrio de concessões, previsto para situações em que medidas unilaterais possam alterar as condições comerciais acordadas entre as partes.

A entidade afirma que a suspensão europeia pode provocar prejuízos imediatos às cadeias produtivas brasileiras e criar uma distorção no acesso dos produtos nacionais ao mercado europeu.

“Diante da gravidade e urgência da situação, a CNA solicita a Vossa Excelência a avaliação formal quanto à viabilidade e oportunidade de acionamento do mecanismo de reequilíbrio de concessões previsto no acordo”, solicitou Martins no documento encaminhado ao Itamaraty.

A CNA também pediu ao Senado a realização de uma audiência pública com representantes dos Ministérios das Relações Exteriores, da Agricultura e Pecuária e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

A intenção é discutir os impactos econômicos do bloqueio e as alternativas de defesa comercial que poderão ser adotadas pelo Brasil.

A entidade pediu ainda que a CRE promova uma reunião com representantes da União Europeia e das missões diplomáticas dos países integrantes do bloco para buscar esclarecimentos e possíveis soluções para a retomada do comércio.

Para Martins, a participação do Senado é necessária diante dos possíveis prejuízos aos produtores brasileiros.

“A pronta intervenção do Senado Federal é indispensável para garantir a competitividade do produtor rural brasileiro e restabelecer o equilíbrio nas relações bilaterais com a União Europeia”, afirmou.

SENADO

Ao Correio do Estado, o senador Nelsinho Trad afirmou que a Comissão de Relações Exteriores já vinha acompanhando o problema antes mesmo da entrada em vigor do bloqueio. 

Segundo ele, no dia 4 de agosto, o grupo de trabalho que acompanha o Acordo Mercosul-União Europeia realizou uma reunião dedicada às novas restrições europeias aos produtos de origem animal. O encontro contou com a participação da CNA, além de representantes do governo e do setor produtivo.

“A Comissão de Relações Exteriores já se antecipou ao problema”, disse Nelsinho Trad.

Na ocasião, ficou encaminhada uma reunião com o novo embaixador da União Europeia no Brasil, assim que ele estiver no pleno exercício de suas funções.

“O objetivo é levar diretamente à representação europeia as preocupações do setor e buscar uma solução baseada em critérios técnicos e científicos”.

Trad explica que o novo ofício encaminhado pela CNA reforça uma preocupação que já vinha sendo tratada pelo grupo de trabalho.

“A CRE continuará atuando como espaço de articulação entre o setor produtivo, o governo brasileiro e as autoridades europeias”.

ANTIMICROBIANOS

A suspensão europeia está relacionada às normas do bloco sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. Para a CNA, porém, a decisão desconsidera os mecanismos brasileiros de defesa e inspeção sanitária.

A entidade sustenta que o Brasil tem sistemas de controle capazes de garantir a segurança dos produtos de origem animal e avalia que a decisão europeia pode representar perda de benefícios comerciais esperados pelo País.

O governo brasileiro poderá recorrer a mecanismos de reciprocidade caso a exclusão seja mantida.

Além do bloqueio sanitário, Brasil e os demais países do Mercosul enfrentam uma divergência sobre a divisão da cota de 99 mil toneladas anuais de carne bovina destinada à União Europeia com tarifa reduzida de 7,5%.

O Paraguai defende uma divisão igualitária de 25% para cada integrante do bloco. Brasil, Argentina e Uruguai têm posição mais próxima da participação histórica de cada país no mercado europeu.

A definição da cota é mais um fator de atenção para a cadeia da carne de Mato Grosso do Sul, que vinha ampliando os embarques para o mercado europeu neste ano.

(Colaborou Daniel Pedra)

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