Experimento com 200 bezerros aposta em alimentação controlada e estruturas de baixo custo para enfrentar a seca, aumentar o peso dos animais e garantir maior rentabilidade aos produtores.
Uma estratégia que combina alimentação controlada, estruturas de baixo custo e planejamento de mercado pode garantir lucro líquido de aproximadamente R$ 160 mil a pecuaristas do Pantanal de Mato Grosso do Sul. Batizada de "Sequestro Pantaneiro", a técnica está sendo testada na Fazenda Aparecida, onde 200 bezerros recém-desmamados são mantidos temporariamente em piquetes para ganhar peso e evitar a venda antecipada durante períodos de seca.
O experimento é conduzido pelo grupo Pecus, em parceria com o Grupo Real e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e busca enfrentar um dos principais desafios da pecuária pantaneira: a escassez de pastagens durante os períodos de estiagem, que pode obrigar produtores a comercializar o rebanho em condições desfavoráveis.
A proposta consiste em retirar temporariamente os bezerros das pastagens comprometidas pela seca e mantê-los em uma estrutura de alimentação intensiva, com fornecimento controlado de nutrientes.
Dessa forma, os animais continuam ganhando peso enquanto os produtores aguardam condições mais favoráveis de comercialização.
Em um lote de 200 bezerros, a expectativa dos responsáveis pelo projeto é alcançar ganhos líquidos próximos de R$ 160 mil.
O resultado, entretanto, ainda é uma projeção, dependente do desempenho dos animais, dos custos de alimentação e dos preços praticados pelo mercado no momento da venda.
"A gente não está inventando a roda, mas estamos quebrando paradigmas. O objetivo é técnico e financeiro. Tiramos o bezerro do pasto, que está com restrição, e o levamos para uma estrutura fechada para agregar peso até o mercado reagir", explicou o pantaneiro Marcelo Rondon, em concersa com o Correio do Estado.
Estrutura simples busca reduzir os custos
Diferentemente dos sistemas tradicionais de confinamento, que podem exigir investimentos elevados em instalações e equipamentos, o "Sequestro Pantaneiro" utiliza estruturas adaptadas para reduzir os custos de implantação.
Na Fazenda Aparecida, os 200 bezerros permanecem em piquetes cercados, com áreas de sombra e espaços destinados ao fornecimento de água e alimentação.
Entre as soluções adotadas estão cochos produzidos com materiais reaproveitados de grandes sacos industriais, conhecidos como big bags. Conforme os responsáveis pelo experimento, o custo estimado é de aproximadamente R$ 50 por metro.
A alternativa busca tornar o sistema mais acessível aos pecuaristas, especialmente em uma região onde as distâncias, as condições das estradas e as variações do nível das águas dificultam o transporte de equipamentos e insumos.
A alimentação também recebe atenção especial. Em vez de depender exclusivamente das pastagens, os bezerros passam a consumir feno, associado a suplementos proteicos formulados para melhorar o aproveitamento das fibras vegetais.
Essa combinação busca compensar a perda de qualidade nutricional do capim durante a estiagem, permitindo que os animais continuem ganhando peso mesmo quando as pastagens naturais apresentam limitações.
O projeto também prevê o uso de preparados homeopáticos na água, com a finalidade declarada de reduzir o estresse relacionado ao desmame e às altas temperaturas. A eficácia específica dessa intervenção, porém, não foi demonstrada pelos dados apresentados sobre o experimento.
Ganho pode chegar a R$ 900 por bezerro
Além do manejo alimentar, o projeto aposta no momento adequado para a comercialização do rebanho.
A estratégia prevê a permanência dos animais na estrutura por aproximadamente 100 dias, período considerado suficiente para aumentar o peso dos bezerros sem que ultrapassem a faixa etária de 12 meses e passem a ser classificados comercialmente como garrotes.
A diferença é importante porque a categoria, o peso e a idade dos animais podem influenciar diretamente o preço pago pelos compradores.
Segundo Rodrygo Sanchik, coordenador técnico da Pecus, a expectativa é que os bezerros alcancem aproximadamente 260 quilos em novembro, permitindo maior valorização na comercialização.
"O custo estimado para manter essa estrutura é de cerca de R$ 500 por animal. Com o ágio do bezerro pesado, projetado para 260 kg lá em novembro, a expectativa é ter um ganho limpo de R$ 800 a R$ 900 por cabeça", detalha.
Considerando a estimativa mais conservadora, de R$ 800 líquidos por animal, um lote de 200 bezerros poderia proporcionar retorno de R$ 160 mil.
Na projeção superior, de R$ 900 por cabeça, o resultado chegaria a R$ 180 mil.
Os valores, no entanto, representam expectativas de retorno apresentadas pelos responsáveis pelo experimento, e não resultados financeiros já obtidos.
A viabilidade econômica dependerá especialmente dos preços de venda, do desempenho dos bezerros e dos custos efetivos durante o período de alimentação controlada.
Seca pode reduzir produtividade do rebanho em até 20%
A iniciativa ganha relevância diante dos riscos associados às alterações climáticas e à ocorrência de períodos prolongados de seca no Pantanal.
Segundo as informações técnicas apresentadas pelos responsáveis pelo projeto, episódios de calor intenso e restrição hídrica associados ao fenômeno El Niño representam ameaças à produtividade da pecuária de corte.
Uma revisão científica mencionada no material de divulgação aponta que a combinação de estresse térmico e alimentação de baixa qualidade pode reduzir em até 20% a eficiência produtiva do rebanho.
O problema começa nas pastagens. Com a redução das chuvas e o avanço da estiagem, o capim perde qualidade nutricional, apresenta maior concentração de fibras de difícil digestão e pode registrar níveis de proteína bruta inferiores a 5%.
Essa condição dificulta o aproveitamento dos nutrientes pelos bovinos e compromete o desenvolvimento dos animais.
Na fase de reprodução, os efeitos podem incluir prejuízos à gestação e redução da produção de leite das matrizes. Durante a recria, a deficiência nutricional pode diminuir significativamente o ganho diário de peso.
As estimativas apresentadas pelos especialistas apontam que animais nessa fase podem deixar de ganhar até 300 gramas por dia em situações de restrição proteica.
Na engorda, uma redução de 20% na produtividade de um bovino com peso final projetado de 20 arrobas representaria uma diferença de quatro arrobas por animal.
Em um rebanho de 100 cabeças, essa perda potencial corresponderia a 400 arrobas, demonstrando o impacto que a combinação de calor e deficiência alimentar pode provocar sobre a receita de uma propriedade.
Os percentuais representam cenários técnicos de perda de produtividade e não necessariamente os resultados registrados na Fazenda Aparecida.
Nutrição é considerada fundamental para enfrentar a estiagem
Para os responsáveis pelo experimento, o enfrentamento das dificuldades climáticas exige mudanças no planejamento das propriedades rurais, principalmente no manejo alimentar.
A suplementação estratégica pode ajudar a manter o funcionamento adequado do sistema digestivo dos bovinos, permitindo melhor aproveitamento das fibras disponíveis mesmo quando as pastagens apresentam qualidade inferior.
"Não controlamos a chuva, mas temos controle absoluto sobre o cocho. Quando o pasto perde qualidade no bioma pantaneiro ou no cerrado, é preciso intervir de forma exata para manter a flora ruminal ativa e proteger o caixa da fazenda", alerta Leonardo Stábile, zootecnista e gerente comercial do Grupo Real.
O especialista destaca que a formulação dos suplementos deve considerar as necessidades nutricionais dos animais e obedecer às Boas Práticas de Fabricação (BPF), conjunto de procedimentos destinados a garantir a qualidade e a segurança dos produtos.
Outro fator considerado essencial é a disponibilidade de água, especialmente durante os períodos de temperaturas elevadas.
De acordo com Stábile, o consumo diário de um bovino pode passar de aproximadamente 40 para 80 litros em condições de calor extremo, aumentando a necessidade de planejamento das estruturas de abastecimento.
A recomendação envolve ainda a utilização de fontes nutricionais adequadas, incluindo compostos que fornecem nitrogênio, energia e minerais necessários ao metabolismo dos animais.
"A estratégia nutricional para blindar o rebanho exige nitrogênio não proteico de alta segurança, energia de rápida fermentação e microminerais de alta absorção. Quando entregamos essa nutrição exata e somamos ao olhar cuidadoso do produtor, com um planejamento estratégico de ponta a ponta, como vemos no Sequestro Pantaneiro, a pecuária prova que não há mais espaço para amadorismo", finaliza Stábile.
Experimento busca oferecer alternativa à pecuária pantaneira
A proposta do "Sequestro Pantaneiro" é demonstrar que produtores podem utilizar estratégias temporárias de alimentação intensiva para reduzir os prejuízos causados pela escassez de pastagens.
O sistema não elimina os impactos da estiagem, mas procura oferecer uma alternativa à venda antecipada dos bezerros, prática que pode reduzir a rentabilidade quando os animais ainda não atingiram o peso desejado ou quando os preços de mercado estão desfavoráveis.
Além do potencial de retorno financeiro, a experiência da Fazenda Aparecida busca avaliar a viabilidade de estruturas simplificadas, capazes de atender às condições logísticas e ambientais características do Pantanal.
Embora a estimativa inicial aponte para lucro líquido próximo de R$ 160 mil em um lote de 200 animais, a confirmação desse desempenho dependerá dos resultados efetivos do experimento.
Se as projeções forem alcançadas, o sistema poderá representar uma alternativa de manejo para pecuaristas que enfrentam dificuldades recorrentes durante a seca, ao permitir maior controle sobre a alimentação, o ganho de peso e o momento de comercialização do rebanho.