O mercado de trabalho de Mato Grosso do Sul iniciou este ano em ritmo mais aquecido, com a abertura de 14.030 vagas formais no primeiro trimestre, segundo dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged).
O resultado representa crescimento de cerca de 7% em relação ao mesmo período de 2025, quando o saldo foi de 13.025 postos, e confirma um cenário de retomada mais consistente da atividade econômica no Estado.
Apesar de ainda ficar abaixo do desempenho de 2024, quando foram criadas 15.120 vagas no mesmo intervalo, o avanço deste ano sinaliza uma mudança de trajetória, com maior dinamismo em setores estratégicos e forte influência de investimentos industriais e obras de infraestrutura.
Os dados mostram que a construção civil liderou a geração de empregos no trimestre, com saldo de 5.297 vagas, seguida por serviços (4.257), indústria (2.350) e agropecuária (2.310). O único setor com resultado negativo foi o comércio, que fechou 184 postos no período.

Para o economista Eduardo Matos, o desempenho positivo reflete um ciclo econômico mais robusto, impulsionado principalmente pelos investimentos em grandes projetos industriais, como as fábricas de papel e celulose, mas também por outras cadeias produtivas.
“O crescimento aponta um ciclo de atividade mais forte, puxado, claro, por esses grandes investimentos de papel e celulose, mas também por outras cadeias, como a bioenergia, e ampliações de algumas plantas frigoríficas. Isso impulsiona inclusive obras civis. Quando isso acontece, a construção civil tende a aparecer em primeiro lugar, porque é o setor que reage mais rápido. Nós consideramos inclusive esse setor como um termômetro da economia”, afirma.
A liderança da construção civil no saldo de empregos reforça esse diagnóstico. O setor não apenas contrata diretamente, mas também exerce um efeito multiplicador relevante sobre a economia, estimulando uma cadeia ampla de fornecedores e serviços.
“Ela abre frentes de trabalho, contrata mão de obra, movimenta fornecedores e gera um efeito multiplicador na economia. A construção civil tem esse poder de acionar outros setores por meio do fornecimento de serviços e de materiais”, explica Matos.
Segundo ele, as obras ligadas às grandes fábricas têm impacto significativo, pois envolvem desde terraplanagem até construção de estruturas complexas, além de exigirem investimentos em logística, energia e infraestrutura urbana.
Ainda assim, o economista pondera que o bom desempenho do mercado de trabalho não pode ser atribuído exclusivamente às chamadas megafábricas.
“Não dá para colocar tudo somente nas megafábricas. Entram também as obras públicas e o próprio mercado imobiliário urbano, com residências e grandes incorporadoras chegando a Mato Grosso do Sul”, destaca.
Esse movimento, segundo ele, está associado também ao crescimento populacional em algumas regiões do Estado, impulsionado pela migração de trabalhadores atraídos pelos novos empreendimentos.
“O efeito multiplicador dessas obras gera renda e amplia a demanda por serviços e comércio. Muitas pessoas passaram a morar em Mato Grosso do Sul, e isso gera um efetivo de renda importante”, pontua.
PERFIL
Apesar do resultado positivo, Matos alerta para a qualidade e a sustentabilidade das vagas geradas, especialmente aquelas vinculadas às grandes obras industriais.
“Grande parte desses empregos tende a ser temporária, concentrada na fase de implantação das unidades industriais. É preciso olhar com atenção para a evolução do emprego em outros setores, principalmente na indústria e nos serviços, que são atividades permanentes e sustentáveis no longo prazo”, afirma.
Nesse contexto, o setor de serviços aparece como peça-chave para a manutenção do crescimento do emprego, já que tem forte dependência de mão de obra e responde diretamente ao aumento da demanda.
“Quando se amplia a capacidade de atendimento, amplia-se também a contratação. Indústria e serviços são primordiais para analisar o indicador de emprego no Estado”, diz.
Além disso, atividades estruturais como silvicultura, logística e operação das cadeias produtivas ligadas à indústria tendem a sustentar parte das vagas após a conclusão das obras.
Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade desse ciclo de expansão, impulsionado por projetos logísticos e novos investimentos. Um dos destaques é a Rota Bioceânica, que pode ampliar a competitividade do Estado e atrair empresas.
“Tudo isso fortalece a economia de forma estrutural, desde que haja continuidade nas políticas públicas e qualificação da mão de obra”, observa o economista.


