O mercado de financiamento imobiliário voltou a dar sinais de recuperação em Mato Grosso do Sul no primeiro semestre deste ano, após registrar o pior desempenho dos últimos anos em 2025. Entre janeiro e junho, foram financiados 2.406 imóveis no Estado, movimentando R$ 864,6 milhões em operações com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE).
Na comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram contratadas 2.029 unidades e liberados R$ 686,1 milhões, o avanço foi de 18,6% no número de imóveis financiados e de 25,9% no volume de recursos.
Os dados foram enviados com exclusividade ao Correio do Estado pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
Apesar da recuperação, o mercado ainda está distante do auge registrado em 2021 e 2022. Há quatro anos, Mato Grosso do Sul atingiu o maior volume da série recente, com 4.531 imóveis financiados e R$ 1,29 bilhão em crédito habitacional. Desde então, o setor acumulou três anos consecutivos de retração antes de voltar a crescer neste ano.
Os dados mostram que, em 2023, o volume financiado caiu para R$ 936 milhões, com 3.236 contratos. Em 2024, foram R$ 893 milhões, distribuídos em 2.858 financiamentos. Já em 2025 o mercado chegou ao menor número de operações desde 2020, com apenas 2.029 imóveis financiados.
Embora o número de contratos tenha voltado praticamente ao mesmo nível observado em 2020, quando foram financiadas 2.395 unidades, o valor movimentado cresceu significativamente.
Naquele ano, o crédito imobiliário somava R$ 569,8 milhões, cerca de R$ 295 milhões a menos que os R$ 864,6 milhões registrados no primeiro semestre deste ano.
Em entrevista recente ao Correio do Estado, o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da 14ª Região de Mato Grosso do Sul (Creci-MS), Roberto da Cunha, disse que parte dessa recuperação é resultado das mudanças implementadas no programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo ele, a reformulação do programa para o biênio 2025-2026 ampliou o acesso ao financiamento, principalmente para as famílias de menor renda.
“Houve avanços importantes nos programas habitacionais e na diversificação das linhas de financiamento, especialmente com a reformulação e atualização do Minha Casa, Minha Vida, que ampliou o alcance, reajustou as faixas de renda e reforçou os subsídios para famílias de menor renda. Essas mudanças ajudaram a ampliar o acesso à casa própria, principalmente nas faixas 1 e 2 do programa”, afirmou.
O desempenho de MS acompanha o cenário positivo nacional - Foto: Gerson Oliveira / Correio do EstadoCUSTO
Apesar disso, o presidente do Creci-MS destaca que o custo do crédito continua sendo um entrave para muitas famílias.
“As taxas de juros ainda elevadas em 2026, em geral acima de 10% ao ano para financiamentos tradicionais, continuam limitando o poder de compra de muitas famílias, especialmente aquelas com renda formal instável ou informal. Além disso, a exigência de comprovação de renda formal permanece como um obstáculo relevante para uma parcela da população que tem capacidade de pagamento, mas não atende aos critérios tradicionais das instituições financeiras”, disse.

O desempenho de MS acompanha um cenário positivo no mercado nacional. Segundo a Abecip, as concessões de crédito imobiliário no País somaram R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre deste ano, crescimento de 23% em relação aos R$ 147,1 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.
Ao todo, aproximadamente 850 mil imóveis foram financiados com recursos do SBPE, do FGTS e outras fontes.
Somente as operações realizadas com recursos da poupança alcançaram R$ 93,7 bilhões entre janeiro e junho, alta de 29% em relação aos R$ 72,9 bilhões do primeiro semestre de 2025.
Dentro desse segmento, os financiamentos destinados à construção cresceram 107%, enquanto as operações para aquisição de imóveis avançaram 12%, com predominância dos imóveis usados, responsáveis por mais de 70% das contratações.
Na avaliação do presidente da Abecip, Michel Cury, os números demonstram que a demanda por moradia continua elevada, mesmo em um ambiente de juros altos.
“O crescimento de 23% do crédito imobiliário no primeiro semestre reforça a resiliência do setor para a economia e para as famílias brasileiras. Houve avanços expressivos no FGTS, especialmente com o Minha Casa, Minha Vida, além da alta de 12% nas operações via SBPE. Ao mesmo tempo, a elevação da curva de juros pressiona o custo do funding e reforça a necessidade de diversificar as fontes de recursos do setor”, avaliou Cury.
A entidade alerta, porém, que o financiamento habitacional enfrenta um desafio estrutural. Nos últimos cinco anos, a caderneta de poupança acumulou retiradas líquidas de R$ 273 bilhões, enquanto a demanda por crédito continua crescendo.
Apenas no primeiro semestre deste ano, a saída líquida de recursos da poupança foi de R$ 31 bilhões, inferior aos R$ 38 bilhões retirados no mesmo período de 2025.
Segundo a Abecip, esse cenário reforça a necessidade de ampliar fontes alternativas de financiamento para garantir recursos de longo prazo capazes de sustentar a expansão do crédito imobiliário nos próximos anos.


