Das duas uma: ou os pilotos e até a direção da Mercedes estão falando a verdade e já em Melbourne, no fim de semana, na abertura do campeonato, haverá luta com a Ferrari pela vitória ou tudo não passa de uma ação orquestrada pela competente equipe alemã para tirar de si o favoritismo que todos lhe atribuem. Hipótese mais provável.
Quem ouve ou lê o que Lewis Hamilton, Nico Rosberg, a dupla da Mercedes, Toto Wolff e Niki Lauda, sócios e diretores da escuderia, afirmam para a imprensa não sabe o que pensar num primeiro momento. No Circuito da Catalunha, nos oito dias de testes, o modelo W07 Hybrid da Mercedes deu mostra de ser superior a todos os concorrentes, como o SF16-H Ferrari, de Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen, e FW38-Mercedes de Felipe Massa e Valtteri Bottas.
Os números têm representação relativa. Os pilotos da Ferrari estabeleceram os melhores tempos da pré-temporada, enquanto Rosberg registrou o terceiro e Hamilton, apenas o décimo tempo. Mas Vettel e Raikkonen usaram os pneus ultramacios, a novidade da Pirelli, este ano, enquanto os pilotos da Mercedes se limitaram aos macios. Nas simulações de corrida, o tempo total de Hamilton e Rosberg, depois de 21 voltas, no entanto, era menor que o de Vettel e Raikkonen, com os mesmos pneus médios e macios. Esse é um dado mais relevante.
Apesar de ser consenso na F1 de que a Mercedes deverá iniciar o campeonato num estágio mais avançado que a concorrência, e para alguns, como Fernando Alonso, da McLaren-Honda, a diferença será até maior que em 2015, Hamilton, Rosberg, Wolff e Lauda parecem ter combinado o discurso. Para eles, “a Ferrari chegou de vez”. Tudo pode acontecer já no GP da Austrália. É a leitura dos quatro contra a de toda a F1. Alguém está equivocado.
QUEM ESTÁ COM A RAZÃO?
Considerando-se os interesses que estão por trás dessa postura previamente estudada dos profissionais da Mercedes, a resposta mais provável à questão é: Alonso, Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, Adrian Newey, consultor da RBR, Vettel, Frederic Vasseur, diretor da Renault, Massa e Bottas, dentre outros, estão certos. A Mercedes vai começar na frente.
É possível perceber por trás de cada declaração dos homens da Mercedes uma tentativa de tirar da sua organização a imagem de antipatia que alguns fizeram por conta da avassaladora vantagem imposta nos dois últimos campeonatos. Hamilton venceu os dois mundiais de pilotos, Rosberg foi vice, com o terceiro colocado sempre muito distante.
Entre os construtores a hegemonia da montadora alemã é ainda mais evidente, dois títulos com quase o dobro dos pontos do segundo lugar. Resultado da extrema competência dos profissionais que planejam tudo, concebem e constroem o carro e a fantástica unidade motriz híbrida, bem como administram a equipe. Só há méritos nas conquistas da Mercedes.
Mas, do ponto de vista esportivo, apenas Hamilton ganhar quase tudo, como foi o caso nas duas últimas temporadas, é bem ruim para a F1. Não há disputa. A não ser nas três etapas finais do calendário de 2105 Rosberg conseguiu se mostrar mais presente, vencendo-as. Mas Hamilton já no GP dos Estados Unidos, restando três depois, fez a festa do bi, terceiro título na brilhante carreira.
Junto com as estatísticas que não deixam espaço aos concorrentes, fabulosas por um lado desgastante por outro, a Mercedes tem recebido um fogo cruzado dos dois principais dirigentes da competição, Ecclestone e o presidente da FIA, Jean Todt. Eles acusam Wolff e Lauda, em parceria com os líderes da Ferrari, Sergio Marchionne e Maurizio Arrivabene, de impor seus interesses na F1, em detrimento dos de todos os demais.
PALAVRAS DURAS
“Com esses motores, estamos nas mãos deles. Eles têm os melhores motores e as equipes que os compram, a preços altíssimos, devem seguir o voto de Mercedes e Ferrari nas votações sobre o regulamento. Se forem contra são ameaçados de não mais receberem o motor”, disse Bernie Ecclestone, ao GloboEsporte.com, com exclusividade, nos dias do GP do Brasil, em novembro.
O homem-forte da F1 afirmou para a imprensa inglesa que “não gastaria um centavo para levar a família assistir às corridas por saber, de antemão, que o vencedor seria Hamilton”. Falou, ainda, que as duas últimas temporadas estão dentre as piores da história da F1.
A direção da Mercedes reagiu. Dieter Zetsche, presidente da montadora, afirmou “não entender como uma pessoa que não apenas administra mas é sócia do evento fala uma coisa dessas”. Para Zetsche, se há algo que não lhe agrada, “devemos discutir internamente e encontrar soluções, nunca publicamente”.
Não é difícil compreender, agora, a tal da imagem de profundo respeito que a Mercedes gera em parte importante da torcida, pela supereficiência do projeto de F1 como um todo, mas de desgaste da marca também. E dá para falar em milhões e milhões de fãs no mundo todo, parte potencialmente ativa no mercado consumidor.
Parece não existir dúvida de que a direção da Mercedes não apenas sabe disso tudo como tomou medidas para ao menos atenuar sua imagem de ser, no fundo, uma vilã da F1. Não há como não tê-la, também, depois de os dois principais profissionais que pensam a F1 a acusarem de formar um cartel, com a Ferrari, e conduzir a competição de acordo com os interesses de ambas. Mais: a dominação de Hamilton, contrária ao que propõe qualquer esporte, é o resultado desse estado de coisas.
FRASES ESTUDADAS
Já em Barcelona, dia 4, o discurso de Rosberg sugeriu seguir um roteiro estudado na sede do time de F1 da Mercedes, em Brackley, na Inglaterra, e na da montadora, em Stuttgart, Alemanha. Rosberg havia acabado há pouco sua pré-temporada e completado 3.053,7 quilômetros com o W07 Hybrid, sempre em ritmo muito bom e sem enfrentar um único problema técnico: “Nós e a Ferrari, posso dizer, estamos bem próximos. E não estou seguro se estamos na frente ou atrás deles”. Foi uma declaração surpreendente.
Hamilton, dias mais tarde, também seguiu o que parece ser a orientação do departamento de marketing e imprensa da Mercedes, como parte de uma estratégia de dar a entender de que haverá disputa pelo título este ano: “Minha sensação é de que a Ferrari deu um grande passo adiante. Nas simulações de corrida, em Barcelona, conseguiram tempos incríveis, e imagino que vão melhorar o carro com o aprendizado dos testes. Penso que será uma bela luta, estou entusiasmado”.
SOMOS SIMPÁTICOS
Além de procurar desvincular a ideia de invencibilidade, os homens de mídia da Mercedes também visam a passar uma imagem de simpatia para o público. Como? As palavras de Wolff sobre a proibição da maior parte das conversas por rádio entre os pilotos e seus engenheiros são um bom exemplo. Uma das atrações das corridas era a exposição desses diálogos. Hamilton e Rosberg seguiam, com frequência, a orientação dos boxes, enquanto líderes, cena comum. A medida deve afetar ambos, é capaz de interferir na sua produção.
Mas Wolff a elogiou, ainda que internamente esteja preocupado. “Essa restrição cria maior variedade de resultados e esse é um aspecto importante do nosso esporte.” É mais ou menos como uma empresa produtora de bebida alcoólica fazer propaganda para não ser consumida antes de dirigir.
O diretor da Mercedes falou, ainda: “Os pilotos vão estar sujeitos a cometer erros e isso pode, de fato, mudar o andamento das provas”. Veio, a seguir, com uma declaração de grande impacto: “A torcida enjoa ao ver um único piloto vencer com um carro dominante. A torcida deseja assistir a um piloto sem possibilidade de vitória acabar ganhando”.
Importante: mesmo se tratando de uma estratégia de comunicação, é preciso reconhecer que a Mercedes poderia criar resistência para a adoção da proibição do rádio e não o fez. Há nisso, portanto, uma parcela de desprendimento louvável.
SEM ORDENS DE EQUIPE
Como parte importante do planejamento de aproximação com o torcedor, de tirar de si a responsabilidade pela redução de interesse do público pela F1, Wolff falou sobre a disputa interna na Mercedes entre Hamilton e Rosberg. Sua posição vai ao encontro do que o fã da F1 deseja, liberdade entre ambos para lutar pelas vitórias, ou seja, não haja ordens de equipe. “Penso que devemos lhes dar a possibilidade da luta franca. Estamos no movendo em novo território.”
Ex-piloto de F1, três vezes campeão do mundo, Lauda não pode fugir da realidade. Mas é possível atenuá-la. O austríaco falou a respeito do seu time, em 2016: “Não é culpa da Mercedes termos sido os mais fortes nos últimos campeonatos. Nosso objetivo é continuar assim, mas acredito que a diferença caiu. No ano passado tínhamos meio segundo de vantagem para a Ferrari, enquanto este ano penso que está em dois décimos de segundo. E com essa diferença tudo pode acontecer”.
DOMINGO, A RESPOSTA
A 67.ª temporada da história da F1 está prestes a começar. Será quinta-feira, às 22h30, horário de Brasília, 12h30 de sexta-feira em Melbourne. Primeiro treino livre do GP da Austrália. Hamilton, Rosberg, Wolff e Lauda têm o discurso pronto para domingo. Dirão que haviam previsto o combate com a Ferrari ou foram surpreendidos com as facilidades de Hamilton e Rosberg.
Observação: os fãs da F1, conscientes de que a postura de Hamilton, Rosberg, Wolff e Lauda não reflete, hoje, o que pensam, pois é provável que saibam da superioridade do seu carro, ficariam muito felizes se os quatro se surpreendessem.
Seria até engraçado ver Wolff e Lauda coçando a cabeça, ao final das 58 voltas da corrida, depois de assistirem, incrédulos, Vettel e Raikkonen andando juntos de Hamilton e Rosberg. E melhor ainda seria ouvi-los dizer: “Estávamos falando a verdade e não sabíamos”.