O wētāpunga, maior inseto da Nova Zelândia, chegou a sobreviver em apenas um pedaço de terra isolado. Ratos, arminhos e gatos haviam dizimado a espécie em todo o restante do território até meados do século 20.
Depois de décadas de trabalho em cativeiro, 11.214 exemplares já foram soltos em dez novos locais, segundo um estudo publicado no New Zealand Journal of Zoology. O levantamento, conduzido por Chris Green, pesquisador associado honorário do Department of Conservation, documenta como duas colônias de criação reverteram o quadro de quase extinção do animal.
Também chamado de weta gigante de Little Barrier Island, o inseto é considerado o ortóptero mais pesado do planeta, grupo que reúne grilos e gafanhotos. Uma fêmea adulta chega a ocupar toda a palma de uma mão, segundo o RNZ.
Um refúgio só não bastava
A espécie já esteve espalhada pelas regiões de Northland e Auckland, mas desapareceu à medida que pessoas introduziram predadores e derrubaram florestas. Por ser grande, não voar e ter hábitos noturnos, o wētāpunga ficou especialmente vulnerável à introdução de predadores e à derrubada de florestas.
Seu último abrigo foi Te Hauturu-o-Toi, também conhecida como Little Barrier Island, uma ilha florestada de 31 quilômetros quadrados no Hauraki Gulf. Mesmo ali a ameaça não desapareceu: ratos do Pacífico já tinham chegado à ilha antes da colonização europeia, e gatos passaram a habitar o local por volta de 1.870.
A reconstrução da população
Os gatos foram removidos da ilha em 1980, e os ratos só em 2004. Levantamentos feitos depois disso mostraram crescimento no número de insetos, que passou de 78 em 2005 para 171 em 2009, mas ainda era insuficiente para retirar dezenas de animais e transferi-los diretamente a outras ilhas.
A equipe optou então por capturar poucos exemplares de cada vez. Em dezembro de 2008, seis adultos foram levados ao parque Butterfly Creek, em Auckland. Novos grupos de 12 insetos, divididos entre machos e fêmeas, passaram a ser coletados periodicamente para abastecer Butterfly Creek e o Auckland Zoo.
Vida em cativeiro e reprodução em massa
Os animais ficaram em salas com temperatura controlada entre 10°C e 22°C, faixa que reproduz as condições da floresta nativa. As fêmeas depositavam os ovos em recipientes com solo úmido, e uma delas chegou a gerar 1.350 filhotes ao longo da vida.
Cada ninfa trocava de pele dez vezes antes de atingir a fase adulta. A dieta incluía folhas frescas de plantas nativas, serapilheira úmida e flocos de peixe como fonte de proteína. Os flocos eram o item mais comum no cardápio dos exemplares mais jovens.
Na natureza, os exemplares costumam se alimentar perto de fungos ou fezes de aves, fontes naturais desse nutriente.
Da criação individual à escala industrial
No início, cada inseto era criado isoladamente. Para aumentar a produção, o Auckland Zoo passou a reuni-los em grandes gaiolas de tela, método que o Department of Conservation chama de criação industrializada.
A densidade ideal era de 20 insetos por gaiola, e a sobrevivência era maior quando todos os filhotes nasciam com poucos dias de diferença. Em gaiolas com idades misturadas, os exemplares maiores acabavam devorando os irmãos menores — problema resolvido ao padronizar os lotes por idade.
O retorno à natureza
Muitos wētāpunga foram transportados até seus novos lares dentro de tubos de bambu amarrados a galhos. Grandes lotes de ninfas mais jovens eram soltos à noite diretamente sobre as árvores, e nenhuma morte foi registrada durante os transportes.
A primeira soltura aconteceu na ilha de Motuora, em 2010. Hoje, existem populações selvagens com quatro gerações nascidas fora do cativeiro, prova de que o inseto voltou a se reproduzir sozinho nos novos territórios.



