A pequena cidade montanhosa de Bolotana, na ilha da Sardenha, na Itália, chamou a atenção de pesquisadores porque suas moradoras têm uma chance incomum de chegar aos 100 anos. Entre 2021 e 2025, os registros de sobrevivência da população idosa indicaram uma chance especialmente alta de as mulheres chegarem aos 100 anos.
O dado ganha outro peso quando comparado à realidade brasileira. Em 2023, a expectativa de vida era de 79,7 anos para mulheres e 73,1 anos para homens no Brasil, em contraste com Bolotana.
Apesar do resultado chamativo no período recente, o histórico da cidade não segue sempre esse padrão. Levantamentos de anos anteriores mostraram números menos expressivos, o que impede os cientistas de classificá-la como uma nova Zona Azul confirmada.
O que são as zonas Azuis
Zonas Azuis são regiões onde a população costuma viver mais tempo do que a média observada ao redor. A Sardenha já abriga uma Zona Azul famosa, mas Bolotana fica fora dessa área original, o que torna seu caso ainda mais intrigante para quem estuda longevidade.
O grande diferencial da cidade está no acervo histórico de nascimentos e óbitos, preservado ao longo de gerações. Isso permitiu que os pesquisadores cruzassem documentos civis com registros da igreja para confirmar se os moradores apontados como centenários realmente atingiram essa idade.
Como os pesquisadores confirmaram as idades
O professor emérito S, e jay Olshansky, da University of Illinois Chicago School of Public Health, participou do estudo que analisou os arquivos da cidade. Segundo ele, o acervo histórico de Bolotana é excepcional porque permite avaliar com precisão as idades de nascimento e morte. Os registros municipais e batismais remontam a séculos passados e possibilitam uma verificação independente.
Para cada centenário identificado na cidade, os cientistas localizaram o documento civil de nascimento correspondente. Além disso, confirmaram 97% das mortes de centenários registradas ao cruzá-las com arquivos separados da igreja. Segundo Olshansky, esse procedimento torna possível validar cada pessoa que ultrapassou os 100 anos sem ambiguidade.

Números que atravessam gerações
O fenômeno não se limita a moradores recentes da cidade. Entre as 3.060 pessoas nascidas em Bolotana entre 1900 e 1925, 38 tinham registro de sobrevivência até pelo menos os 100 anos.
A taxa foi de 1.242 centenários por 100 mil nascimentos, acima dos 793 por 100 mil registrados na Itália como um todo no mesmo recorte histórico.
A vantagem das mulheres na longevidade
Ao analisar moradores com 70 anos ou mais entre 2021 e 2025, os pesquisadores contabilizaram 149 mortes nessa faixa etária. A partir desses padrões, calcularam quantos anos de vida ainda restavam a um morador de 70 anos e qual era a probabilidade de alcançar os 100.
Para os homens de 70 anos, a expectativa era de 16,02 anos adicionais de vida, com uma chance estimada de 4,92% de chegar ao centenário. Entre as mulheres da mesma idade, a expectativa subiu para 20,85 anos adicionais, com uma chance estimada de 13,83% de completar 100 anos.
Um resultado fora da curva regional
No mesmo período, a chance estimada de sobrevivência dos 70 aos 100 anos entre mulheres foi de 4,33% na Província de Nuoro, 4,43% em toda a Sardenha e 3,54% na Itália inteira. Em Bolotana, o índice foi maior que todas essas referências regionais e nacionais.
A diferença explica o interesse científico pela cidade, embora ela ainda não atenda aos critérios que confirmariam uma nova Zona Azul. Os resultados menos expressivos de 2015 a 2019, comparados aos números de 2021 a 2025, levam os pesquisadores a evitar conclusões definitivas sobre Bolotana.


