História

Marco Aurélio deixou uma reflexão que segue atual: "A opinião de dez mil homens não vale nada"

Uma maioria pode repetir o mesmo erro indefinidamente.

A frase frequentemente atribuída a Marco Aurélio sobre dez mil homens questiona um erro fundamental: confundir a quantidade de pessoas que concordam com uma ideia com a validade dela. Se nenhuma dessas pessoas conhece o assunto, o consenso numérico desmorona, e a ideia continua atual.

Uma maioria pode repetir o mesmo erro indefinidamente, convencida de sua própria certeza. A popularidade de uma afirmação não a torna verdadeira; só a torna popular.

A diferença entre opinião e conhecimento

Opinião é uma coisa: pode expressar preferência pessoal, impressão ou interpretação baseada no que alguém sabe naquele momento. Conhecimento é outra. Quando o tema exige fatos verificáveis, a afirmação precisa ser confrontada com evidências, fontes confiáveis e argumentos que sustentem sua validade, não com o número de pessoas que concordam com ela.

O número dez mil na frase funciona como símbolo de grande maioria — qualquer multidão capaz de repetir o mesmo erro. Eles podem partir de uma informação errada ou simplesmente reproduzir o que ouviram de alguém, sem investigação própria. Assim, a multidão não questiona nem verifica a informação: apenas a repete.

O estoicismo questionava as impressões precipitadas

A ideia está de acordo com o pensamento presente nas Meditações de Marco Aurélio. O filósofo estoico valorizava julgamentos racionais e procurava distinguir o que acontecia da interpretação que a mente construía sobre os fatos. Antes de aceitar uma representação mental como verdadeira, era preciso examiná-la.

Para o estoicismo, uma reação imediata não deveria ser confundida com uma conclusão verdadeira. Os filósofos dessa tradição examinavam as impressões que chegavam à mente e revisavam conclusões precipitadas quando as evidências exigiam. Essa atitude racional é justamente o oposto do que a frase de Marco Aurélio critica — aceitar acriticamente o que a multidão afirma.

Por que conferir origem, evidências e contexto importa

Antes de compartilhar ou concordar com uma afirmação, sobretudo em temas técnicos, é preciso checar sua origem, as evidências que a sustentam e o contexto no qual ela foi produzida. Uma pessoa que conhece o assunto pode estar certa contra dez mil que repetem um erro, e uma fonte confiável vale mais que mil rumores.

A frase em si, embora coerente com o pensamento de Marco Aurélio, não pode ser apresentada como uma citação comprovadamente retirada das Meditações — ela combina com os temas centrais da obra. Mas sua origem exata permanece questionável, e como a frase sugere, é preciso examinar racionalmente aquilo que chega até nós, mesmo quando vem acompanhado de um nome ilustre.

Ciência

Consumo de álcool diminui o risco de sofrer um infarto, afirma cardiologista

Uma taça de vinho no jantar carrega fama de aliada do coração.

07/10/2026 12h38

Foto: David Brown/Pexels

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Uma taça de vinho no jantar carrega fama de aliada do coração, mas o cardiologista José Abellán defende que essa ideia esconde um risco maior do que parece. Segundo ele, embora o álcool realmente reduza a chance de infarto, o efeito protetor desaparece quando se olha o conjunto das doenças cardiovasculares.

Em entrevista ao El Confidencial, o médico afirmou que é verdade que a bebida diminui o risco de sofrer um infarto. Ele reconhece que esse dado existe, mas insiste que ele não conta a história inteira sobre o impacto do álcool no organismo.

Os riscos que vão além do infarto

O problema, segundo Abellán, surge quando se analisam outras doenças ligadas ao coração e ao sistema cardiovascular. Mesmo um consumo moderado eleva, ainda que de forma leve, a probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca e arritmias — dois problemas cardiovasculares com importantes repercussões sobre a saúde.

Há ainda a possibilidade de dilatação do coração, já que o álcool age de forma direta sobre o músculo cardíaco. Para o médico, trata-se de um tóxico que atinge esse tecido diretamente, causando danos que superam qualquer proteção contra infarto. Uma substância que reduz a chance de um problema pontual não protege necessariamente o órgão como um todo.

Na balança, o álcool sai perdendo

Colocando tudo na balança, conforme informou ao El Confidencial, o álcool é muito mais prejudicial que benéfico até mesmo quando se considera apenas o coração. Essa conclusão vai na contramão de uma crença comum, segundo a qual pequenas doses de álcool fariam bem à saúde cardíaca.

O alerta de Abellán é claro: não é adequado utilizar o possível efeito protetor frente ao infarto como argumento geral para defender o consumo de álcool. A lógica muda quando se olha para doenças específicas isoladamente — uma abordagem que o especialista considera fundamental para entender o impacto real da bebida.

A exceção avaliada caso a caso

Ainda assim, o cardiologista cita uma situação pontual em que a lógica pode mudar: pacientes com risco bastante elevado de infarto e baixa chance de desenvolver outras complicações cardíacas. Em alguns desses casos específicos, conforme informou ao El Confidencial, pode considerar a opção de não retirar completamente uma pequena quantidade de álcool.

A avaliação, porém, precisa ser individual, feita diretamente pelo médico responsável por cada paciente. Fora dessa exceção pontual, a recomendação de Abellán é clara: não tratar o álcool como ferramenta de prevenção cardiovascular. Para a maioria, conforme informou ao El Confidencial, o álcool é um companheiro prejudicial à saúde do coração.

Insetos liberados

11 mil insetos gigantes são libertados na Nova Zelândia após serem criados por especialistas

Insetos foram liberados após décadas de trabalho em cativeiro

07/10/2026 12h17

Imagem: Dinobass/Wikimedia Commons

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O wētāpunga, maior inseto da Nova Zelândia, chegou a sobreviver em apenas um pedaço de terra isolado. Ratos, arminhos e gatos haviam dizimado a espécie em todo o restante do território até meados do século 20.

Depois de décadas de trabalho em cativeiro, 11.214 exemplares já foram soltos em dez novos locais, segundo um estudo publicado no New Zealand Journal of Zoology. O levantamento, conduzido por Chris Green, pesquisador associado honorário do Department of Conservation, documenta como duas colônias de criação reverteram o quadro de quase extinção do animal.

Também chamado de weta gigante de Little Barrier Island, o inseto é considerado o ortóptero mais pesado do planeta, grupo que reúne grilos e gafanhotos. Uma fêmea adulta chega a ocupar toda a palma de uma mão, segundo o RNZ.

Um refúgio só não bastava

A espécie já esteve espalhada pelas regiões de Northland e Auckland, mas desapareceu à medida que pessoas introduziram predadores e derrubaram florestas. Por ser grande, não voar e ter hábitos noturnos, o wētāpunga ficou especialmente vulnerável à introdução de predadores e à derrubada de florestas.

Seu último abrigo foi Te Hauturu-o-Toi, também conhecida como Little Barrier Island, uma ilha florestada de 31 quilômetros quadrados no Hauraki Gulf. Mesmo ali a ameaça não desapareceu: ratos do Pacífico já tinham chegado à ilha antes da colonização europeia, e gatos passaram a habitar o local por volta de 1.870.

 

A reconstrução da população

Os gatos foram removidos da ilha em 1980, e os ratos só em 2004. Levantamentos feitos depois disso mostraram crescimento no número de insetos, que passou de 78 em 2005 para 171 em 2009, mas ainda era insuficiente para retirar dezenas de animais e transferi-los diretamente a outras ilhas.

A equipe optou então por capturar poucos exemplares de cada vez. Em dezembro de 2008, seis adultos foram levados ao parque Butterfly Creek, em Auckland. Novos grupos de 12 insetos, divididos entre machos e fêmeas, passaram a ser coletados periodicamente para abastecer Butterfly Creek e o Auckland Zoo.

Vida em cativeiro e reprodução em massa

Os animais ficaram em salas com temperatura controlada entre 10°C e 22°C, faixa que reproduz as condições da floresta nativa. As fêmeas depositavam os ovos em recipientes com solo úmido, e uma delas chegou a gerar 1.350 filhotes ao longo da vida.

Cada ninfa trocava de pele dez vezes antes de atingir a fase adulta. A dieta incluía folhas frescas de plantas nativas, serapilheira úmida e flocos de peixe como fonte de proteína. Os flocos eram o item mais comum no cardápio dos exemplares mais jovens.

Na natureza, os exemplares costumam se alimentar perto de fungos ou fezes de aves, fontes naturais desse nutriente.

Da criação individual à escala industrial

No início, cada inseto era criado isoladamente. Para aumentar a produção, o Auckland Zoo passou a reuni-los em grandes gaiolas de tela, método que o Department of Conservation chama de criação industrializada.

A densidade ideal era de 20 insetos por gaiola, e a sobrevivência era maior quando todos os filhotes nasciam com poucos dias de diferença. Em gaiolas com idades misturadas, os exemplares maiores acabavam devorando os irmãos menores — problema resolvido ao padronizar os lotes por idade.

O retorno à natureza

Muitos wētāpunga foram transportados até seus novos lares dentro de tubos de bambu amarrados a galhos. Grandes lotes de ninfas mais jovens eram soltos à noite diretamente sobre as árvores, e nenhuma morte foi registrada durante os transportes.

A primeira soltura aconteceu na ilha de Motuora, em 2010. Hoje, existem populações selvagens com quatro gerações nascidas fora do cativeiro, prova de que o inseto voltou a se reproduzir sozinho nos novos territórios.

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