Natural de São Bernardo do Campo, Kauê Moreira de Souza conseguiu realizar o sonho da maioria das crianças ao tornar-se jogador de futebol. O problema é que o meia ofensivo precisou pendurar as chuteiras precocemente, aos 24 anos. Diante do processo aberto contra o Corinthians, o jovem conquistou o direito de receber indenização do clube paulista até 2035.
Recorrendo a seus direitos após ter sido abandonado pelo Time do Povo, Kauê alegou negligência médica do alvinegro entre o período de abril de 2021 a abril de 2024. Segundo o ex-jogador, o Corinthians ofereceu tratamento inadequado para tratar lesões no joelho direito, como o espessamento fibrocicatricial do ligamento colateral medial e tendinopatia patelar.

Como resultado de descaso operado internamente pelo clube paulista, o jovem sonhador enfrenta dificuldades de realizar atividades básicas do cotidiano, como subir e descer escadas, andar de bicicleta, dirigir um carro e praticar exercícios físicos. Em entrevista cedida ao ge, lamentou a chance perdida e busca contornar sua situação atual.
“O Corinthians tirou o meu sonho, a minha esperança. Eu acho que tirou até um pouco do meu brilho. O meu maior sonho virou a maior frustração da minha vida. Não foi só o futebol, tirou a minha vida”, explicou o meia, que em outubro recebeu a sentença da Justiça do Trabalho de São Paulo condenando o clube a pagar indenização por danos morais e uma pensão de R$ 12 mil mensais até que Kauê complete 35 anos.
Lesão sofrida e o descaso da instituição
Em abril de 2019, Kauê assinou com o Time do Povo, sendo integrado à categoria Sub-23, criada na gestão do ex-presidente Andrés Sanchez, com o salário de R$ 3 mil. Meses após, renovou seu vínculo, passando a faturar mensalmente R$ 12 mil. O que parecia ser o início da projeção ao profissional acabou virando uma das maiores decepções do atleta.
“Tomei um encontrão no treino, coisa normal. Estiquei demais o meu joelho e tive uma torção. Senti muita dor, muita dor mesmo. Fui para o departamento médico, eles avaliaram meu joelho no achismo, pega aqui, pega ali, dizem que não é nada. Só que eu não consigo me mexer. Eles (departamento médico) dizem que vou ter que ficar um período na fisioterapia”, relembrou.
O problema é que a dor de cabeça só estava começando, mesmo acreditando na competência dos profissionais do Corinthians. Em maio de 2021, Kauê foi submetido a duas ressonâncias magnéticas que constataram duas lesões no joelho direito: tendinopatia patelar e espessamento fibrocicatricial do ligamento colateral medial. Na ocasião, os médicos optaram por um tratamento conservador.
Durante 11 meses, o meia ofensivo ficou sob os cuidados dos fisioterapeutas da base sem apresentar melhora. Contudo, mesmo machucado e se queixando de dores, foi emprestado ao Marcílio Dias sem ter um minuto sequer em campo no Campeonato Catarinense. Nesse ínterim, em março de 2022, Kauê foi operado por Joaquim Grava, à época consultor médico do Corinthians.
“O doutor olhou meu caso e disse que era urgente. Se era urgente, poderia ter resolvido antes. Meu tendão poderia romper e tinha uma fissura no osso da patela. Eu opero e continuo com dor, a mesma coisa. Parece que até um pouco pior. Eu falo: “Meu Deus do céu, o que está acontecendo?”. Era uma coisa para resolver e piorou”, recordou o garoto.
Corinthians comete novo erro
Em julho de 2023, após 27 meses da lesão, a jovem promessa foi submetida à segunda operação com Joaquim Grava. No entanto, mesmo com o procedimento sendo realizado, o atleta voltou a se queixar de dores, sendo realocado para dar sequência ao tratamento com o departamento médico do elenco profissional. Diante do entrave, o contrato do meia foi renovado várias vezes até que a recuperação fosse alcançada.
“Um doutor do Corinthians me passou um remédio, dizendo que a dor era coisa da minha cabeça. E eu sabia que não era. Eles (departamento médico) queriam me fazer acreditar que era da minha cabeça. Eu tomei um remédio, não sei para que que servia, mas falaram que era para a ansiedade e mais alguma coisa”, contou Kauê, afirmando ter sido vítima de pressão psicológica.
A medicação citada por Kauê é Velija 30mg (cloridrato de duloxetina), que é indicada para tratamento de transtorno depressivo, dor neuropática, estados de dor crônica associados à dor devido à osteoartrite do joelho (doença articular degenerativa) em pacientes com idade superior a 40 anos e transtorno de ansiedade generalizada. A receita foi assinada pelo médico Leonardo Hirao, que já não integra o alvinegro.
O fim de uma carreira promissora
Sem indícios de que teria novamente sua carreira reestabelecida, o meia decidiu pendurar as chuteiras em abril deste ano, três anos após a lesão. Ainda sofrendo com o descaso perante o Corinthians, tentou dar certo no Itaberaí e, mais tarde, no Inhumas, ambos de Goiás. A decisão de encerrar seu ciclo foi motivada pela falta de força no joelho direito.
“Entrei dentro do ônibus e comecei a mandar mensagem para minha família. Não estava bem, me faltava o ar. Eu comecei a chorar, chorar muito mesmo. Não entendi o que estava acontecendo, todos falavam que eu estava com crise de ansiedade. Eu sofria sozinho. Hoje, faço terapia. A terapia foi uma coisa boa porque consegui me soltar mais. Qualquer pessoa com a cabeça um pouco mais fraca teria feito merda”. É complicado. As pessoas podem falar que estou me vitimizando, mas só quem passou sabe”, relevou.
Agora, com a sentença sendo favorável a seu pedido, Kauê espera o início dos depósitos para novamente voltar a operar o joelho. Mesmo sendo vítima de constantes negligências, o ex-jogador projeta recuperar força e resistência em seu membro. No mais, está disposto a iniciar a formação universitária em 2026, em curso ainda não decidido.





