A história conta que a mudança da lei de impedimento fez surgir o primeiro sistema tático organizado do futebol. O técnico escocês Herbert Chapman quis acabar com o festival de gols produzido depois de a regra deixar em fora de jogo quem tivesse dois, em vez de três adversários entre si e a linha de fundo.
Chapman puxou um médio para a defesa e fez nascer o WM.
Como se a história fosse sempre cíclica, o que se vê no futebol mundial lembra o velho sistema.
O Manchester City, de Pep Guardiola, puxa o lateral esquerdo para formar como segundo volante. Faz isto com o português João Cancelo. Guardiola transformou um lateral direito mediano num médio pela esquerda fundamental para a equipe.
Muitos dos jogos da Europa têm times mais frágeis tentando defender-se com linha de cinco defensores contra equipes mais fortes invadindo o campo rival com cinco ou seis avantes.
Foi assim no sábado (20), na vitória do Manchester City por 2 a 0 sobre o Everton. O duelo de dois técnicos especiais, Guardiola x Carlo Ancelotti, só se resolveu quando o City colocou em campo seu craque, Kevin De Bruyne. O belga participou do primeiro gol e marcou o segundo.
A formação da ilustração é a do primeiro jogo das oitavas de final da Champions, contra o Borussia Mönchengladbach. Foden pela esquerda, Sterling pela direita, Cancelo como lateral armador e saída de jogo com três.
Lembra o WM, não?
À medida que o adversário se defende com mais gente, mais avançam as linhas para chegar a ter até seis homens na frente. O problema é a falta de espaço.
Em Everton x City, a linha de cinco defensores de Ancelotti se contrapunha aos seis avantes de Guardiola, num espaço que ia da marca do pênalti até a meia-lua. Ou seja, havia momentos com onze jogadores espremidos em doze metros.
Em 2020, o Leipzig cometeu ousadia ainda maior, fazendo a saída com um homem à frente dos três zagueiros e infiltrando seis jogadores quase em linha no ataque. Venceu e eliminou o Atlético de Madrid com um 3-5-2 torto, Kampl de primeiro volante, quatro homens à frente dele e dois na área.
Enquanto isso, o City esbarrou e foi eliminado pelo Lyon, que usava linha de cinco defensores, semelhante à vencida por Guardiola contra Ancelotti, no sábado (20).
O catalão tenta alcançar seu terceiro título de Champions e o sorteio colocou-o diante de um cruzamento duríssimo. Nem tanto contra o Borussia Dortmund, adversário das quartas, mas especialmente se chegar às semifinais, contra Bayern ou PSG.
Os bávaros têm o melhor time da Europa, e os franceses, Neymar e Mbappé. Nenhum dos possíveis adversários possui o cardápio tático de Guardiola, mas o Bayern tem uma máquina de fazer gols como Lewandowski e o PSG conta com uma dupla de craques, capazes de abrir cadeados defensivos.
Cíclico, o mundo nos dá uma pandemia e um novo tipo de WM, cem anos depois. Mas também nos lembra que o homem –e o craque –é o único capaz de produzir antídotos contra a maldade e a retranca.
O Retorno
Neymar voltou a ficar à disposição do técnico Mauricio Pochettino contra o Lyon, neste domingo (21). Vai entrar no time aos poucos e se aprontando para tentar repetir o que fez em 2015, ano em que se tornou o único jogador a marcar em todos os jogos entre as quartas e a final da Champions.
DEFINIÇÃO
Abel Ferreira deu aulas de sobriedade, elegância e liderança nas entrevistas da semana. Uma das histórias mais lindas foi quando relatou que os jogadores do PAOK queriam jogar de maneira mais defensiva. Revelou o diálogo com os atletas: "Eu não posso ensinar o que não sei fazer".