Gilberto Verardo - Psicólogo, psicoterapeuta
Bons e virtuosos da história humana sempre foram discretos. Será a discrição um jeito de ser que camufla e depois revela talentos? É bem provável, pois cria um espaço quase anônimo para fermentar revelações necessárias ao mundo. O discreto é observador, convincente e humilde.
Diferente dos falantes vigorosos que gostam de conquistar espaços no grito. Não são bons ouvintes e quase sempre vaidosos. Raras exceções aparecem. É o perfil, porém, da maioria dos candidatos quando se depara com um ajuntamento de seu alvo preferido: o eleitor.
Se na Grécia antiga, o palco para dirigir-se ao público era ao ar livre, hoje, temos microfones e auditórios fechados próprios para uma comunicação pública participativa. Então não fale ao deserto, mas dialogue com as pessoas.
As regras eleitorais da hipermoderna democracia nos brindaram com um enfadonho horário político nas telinhas, mas não teve como nos ajudar a errar menos na incansável busca por representantes bons e virtuosos.
Então, nós, pobres eleitores, devemos reconhecer que vamos precisar de auxílio para encontrar com mais segurança bons e virtuosos candidatos. Será um auxílio divino, intuitivo ou as próprias regras eleitorais bastam?
O exercício pleno e legal das regras do processo eleitoral começa nos diretórios partidários. É aqui, porém, que começa o equívoco democrático.
No dicionário da língua portuguesa a palavra “político” tem como sinônimo “astuto”. Então já podemos imaginar inocentemente a razão da apaixonante e ideológica busca pela reeleição.
As justificativas são as mais criativas. Sou absolutamente contra a reeleição em qualquer nível. Acomoda ao poder, que lascivo em qualquer lugar e instância.
Agora, que as regras nos partidos políticos para dimensão de influência começa e termina em quem possui mandato eletivo, isto é publico, mas não é notório.
Usualmente, os dirigentes partidários foram colocados lá com a divina missão de fabricar um consenso para escolher candidatos, em um arremedo de semideuses, ao dotarem os pretensos escolhidos a glória de tornarem-se, dali em diante, em pessoas boas e virtuosas, em uma espetacular metamorfose de caráter a toda prova.
Quem não quer ser candidato para purificar seu caráter? É como se nesse processo repentinamente passassem a amar o bem comum. Um milagre de dar inveja até no pessoal neopentecostal.
Pronto, cá estamos nós eleitores de mãos atadas, com a missão nada secreta de apenas referendar o que já foi decidido pelo olimpo democrático.
Nessa engrenagem maquiavélica, com espírito democrático duvidoso, a última palavra na composição da “lista de Schindler” é de quem esta com mandato, com a caneta Bic na mão, com a chave do cofre, como se diz no jargão dos pelegos partidários.
Neste cenário, obtém-se um perdulário consenso fabricado, em um perigoso jogo de faz de conta. É aí que mora o perigo para a saúde da democracia, pois também aí ocorre a substituição da informação real por uma espécie de indução sob a tutela do pessoal do marketing político.
É neste momento que a imprensa daria uma ajuda enorme para o amadurecimento da nossa democracia, ao facilitar informações sobre a história ou estória “democrática” dos pretensos representantes da população, já que seu nobre papel é facilitar o acesso dos contribuintes aos serviços oferecidos pelo Estado já bem remunerado pelos contribuintes.
Este 2022 é uma ótima oportunidade para encontrar bons e virtuosos. Neste processo, será a vez do eleitor se tornar bom e virtuoso na sua escolha.
O momento para toda a humanidade é delicado. Não podemos permitir programas e propostas que não incluam a crise climática. Será inevitável para a pauta política, pois nisso está embutido o futuro das crianças e dos bebês.
Tal como na presunção de inocência, todos os candidatos se qualificam como boníssimos e virtuosíssimos. No entanto, indução e propaganda se fundem para dirimir a dúvida do referendo fabricado sobre a lista de Schindler, construindo artificialmente bons e virtuosos candidatos. Então, vamos ter critérios claros e objetivos.
As crianças merecem.
Depois de pagar IPVA, IPTU, ISS, IR, plano de saúde, crediário e tantas outras taxas e contribuições embutidas nas compras, no combustível, na energia elétrica, Ufa..., ainda temos de fazer outro esforço para permanecermos com a carteirinha de cidadão, pois deste esforço dependerá a atmosfera dos quatro anos vindouros.
Então, nada de preguiça eleitoral e tratemos de tirar nossa astúcia da gaveta. Pessoas boas e virtuosas não apreciam o mimimi da política. Nunca falam de coisa séria sorrindo. Até o dia das eleições vamos ter aprendido a se esquivar do Alzheimer político, em que o passado estará muito presente na memória de cada eleitor.
Então, depois decidiremos o futuro que queremos deixar para nossas crianças.