Antônio Carlos Siufi Hindo - Promotor de Justiça aposentado
Não existem adjetivos que possam qualificar o abuso sexual que se pratica contra crianças e outras tantas vítimas indefesas pelos insensatos de todos os naipes. Essas práticas covardes são antigas. Não podem receber o beneplácito dos homens de bem. Trata-se de pecado sem perdão.
Seus algozes são os que deveriam prestar os seus ofícios sagrados no desenvolvimento cultural, psíquico e moral das suas vítimas. Os seus cúmplices nessa empreitada criminosa marcham na mesma direção.
Sua ocorrência não está circunscrita aos lares humildes, pobres e desprovidos do conforto material. Não, nada disso. Abundam as residências luxuosas e as mansões.
Os palácios não escapam dessas desgraças. Agora encostaram nas portas das igrejas com a força da imprensa livre e que informa. Foi esse o retrato mostrado pelos jornais televisivos do nosso País no dia 8.
A ênfase foi direcionada à carta de Bento XVI, em que pede desculpas aos seus fiéis por não ter responsabilizado seus subordinados envolvidos em tais atos criminosos quando exercia as funções de cardeal na cidade alemã de Munique.
Essa desculpa não serve para nada. Não borra os atos de loucura exteriorizados à sua frente, que jogaram para o abismo milhares de vítimas incautas e suas famílias. Ninguém deseja saber a sentença do Juízo Final.
Nada restitui a dignidade e a alegria para essas famílias. Nem a venda dos bens da igreja como instrumento garantidor da indenização por danos morais tem esse condão. Esse festival de indecência está em todos os cantos do nosso planeta.
Nos Estados Unidos da América, os noticiários televisivos também divulgaram que mais de 1.700 religiosos foram acobertados pelos senhores cardeais com a cumplicidade do Judiciário. A Europa inteira assistiu essas atrocidades ao longo dos séculos.
Na Idade Média, esse tormento social foi medonho. A Igreja não pode ser uma instituição estática. Precisa acompanhar a evolução social. Não tem mais sentido prático o celibato sacerdotal. Os bens da Igreja não podem ser empecilhos para a concretização do casamento, como pensam algumas inteligências.
Essas propriedades formadas de concretos e obras de arte pertencem aos fiéis. A dinâmica da vida moderna exige esse raciocínio lógico. Não existe crime cometido pelos padres que se encantam pelo amor de uma mulher.
São homens iguais aos outros. Com virtudes e defeitos. Dias desses, uma freira no interior de São Paulo deixou seus hábitos para viver com outra mulher.
O ser humano foi feito para ser feliz, concluiu. Qual foi o crime que essa mulher cometeu? Nenhum! Tempos atrás, tiraram da presidência do Paraguai o bispo Fernando Lugo, sob o pretexto de que tinha um filho na constância do sacerdócio. Bobagem pura.
Hipocrisia das grandes. Lugo amou o corpo de uma mulher. Não mexeu com crianças. Mas o casamento não pode ser algo impositivo. Nada disso. Precisa haver, por parte do interessado, a vocação para essa santidade.
O divórcio, combatido anteriormente pela Igreja, não mostrou as evidências desse tormento social. Ninguém precisa viver uma vida inteira infeliz.
Os exemplos dão forças às palavras. A santa missa, em épocas recuadas, era oficiada pelos padres em latim, língua já morta e sepultada. O sacerdote oficiava o ato religioso de costas para os seus fiéis. A oração que o Cristo nos ensinou teve mudanças substanciais.
A sotaina não é mais a indumentária da indicação do clero. A Igreja santa reconheceu ser pecadora. Outros tantos indicativos sumiram do cenário. Nesse contexto, o casamento serviria para aplacar esse desejo carnal.
Entre os católicos da Igreja do rito oriental, essa sequência milenar exitosa não foi modificada. Na cidade de Campo Grande, temos esse exemplo. Os avanços sociais não podem mais subsistir diante das evoluções que exigem uma posição corajosa do papa Francisco.
O pontífice já mostrou avanços significativos em outras tantas áreas igualmente polêmicas.
Existem padres celibatários que cumprem com dignidade o seu santo ofício. Foram professores, educadores e orientadores espirituais.
Formaram homens e cidadãos exemplares. Embelezaram a sociedade e santificaram a família. Disso dou o meu testemunho. Mas resultam alcançados pelas ações insensatas de poucos.