Gilberto Verardo - Psicólogo
A percepção dos contribuintes de que o Estado, como prestador de serviços essenciais à população, é lento e oneroso na relação custo x beneficio, tornou-se a mesma do governador Reinaldo Azambuja.
Com o segundo mandato, tornou-se uma obsessão buscar melhorias na qualidade dos serviços oferecidos pela máquina pública. Um cara moderníssimo ele. A Pandemia atrapalhou seus melhores planos para isso.
Em quase dois anos de quarentena, a população se afastou ou foi afastada dos serviços públicos. Mesmo com a improvisação on-line, a morosidade dobrou de dimensão e tamanho.
Quase provocou a sensação de abandono de incapaz nos adultos contribuintes. Todo zelo e empenho do governador parecem ter surtido pouco ou nenhum efeito, pois, passado o pico pandêmico, a máquina pública continua lenta e onerosa, consumindo em sua folha mensal mais de 50% da arrecadação.
Fora os repasses obrigatórios para os outros Poderes. Muita coisa. Bom motivo para os, agora, cabelos brancos do incansável governador.
Em detrimento de tais fatores, o serviço público vem decaindo de qualidade.
Com o advento da pandemia, só piorou. Mesmo assim, o governador, com a ajuda estratégica da Procuradoria do Estado, mandou examinar milhares de adereços, regras e normas burocráticas já caducas diante da hipermodernidade, colocando-se em exame de contingência para definir o que é útil para atendimento ao cidadão e o que é conveniente para a burocracia estatal em termos de serviço público.
Foi um gol de tabela que quase passa despercebido pelo tempo. Nosso reconhecimento por isso.
A cada novo governante empossado, o primeiro passo sempre é buscar uma nova aliança com os funcionários, buscando motivá-los a abraçar seu discurso programático, o que nem sempre acontece.
O que realmente motiva funcionários públicos a prestarem um serviço de qualidade para a população? Difícil resposta, porém, não custa nada argumentar.
Winnicott, renomado pediatra e psicanalista do século passado, afirmava que um ambiente que ofereça pouco ou nenhum desafio leva o indivíduo ao comodismo. O passo seguinte é o tédio, a angústia e a depressão camuflada.
A iniciativa privada, quando se depara com crises ou desafios, reinventa caminhos para prosseguir em seus objetivos.
Na maioria das vezes, fazendo uma reeducação e mesmo uma redução orçamentária ou novos formatos organizacionais, entre outras criatividades inerente à instabilidade.
Já o setor público, em crises, não usa a criatividade. Repete o mantra do salário baixo. É como se a baixa remuneração algemasse o talento, a criatividade e o bem servir em uma redoma blindada apenas pela remuneração e por uma carreira estável.
O Estado, como modelo de gestão de serviços públicos, continua em crise de eficiência. O que esperar? Motivar, premiar, incentivar? Parece que nada disso tem funcionado nos últimos anos como estratégia de RH.
O Projeto de Lei do Senado (PLS) 116/2017, que entrou em tramitação, mas que, por lobby corporativo, encontrou o caminho das gavetas parlamentares, abriu a discussão sobre a possibilidade de demissão de servidores públicos que tenham seu desempenho avaliado negativamente. Mas o santo corporativo é forte.
Não há governador que resista a isso. É um mistério.
Por outro lado, o contribuinte perde a paciência cada vez mais e cansou de afagos explicativos de deficit de pessoal ou de remuneração insuficiente. O setor privado faz a sua parte, sempre pressionado pela legislação fiscal e seus aparatos de controle tributário.
O setor público, pelo contrário, acomoda-se na fé pública outorgada e remunerada pelo setor privado.
Não é fora de lugar avaliar que a estabilidade pode, sim, levar a pessoa a um comodismo, que por sua vez ensina o caminho para a má vontade e outros comportamentos adjuntos.
Neste sentido, a teoria de Winnicott, quando se refere a necessidades de se ter desafios no seu ambiente, incluindo o de trabalho, parece levar a duas outras reflexões: ou os administradores chefes não sabem apresentar desafios, ou não conseguem despertar o engajamento do funcionalismo.
Não se pode negar que o Estado, na sua dimensão federal, estadual e municipal, encontra-se escravo da sua folha de pagamento, da aposentadoria do funcionalismo e da estabilidade funcional.
Está passando da hora de continuar a desconstruir a burocracia pública excessiva com a mesma coragem obsessiva do governador Reinaldo.
O zelo pela observância das regras administrativas excessivas não pode servir como desculpa de morosidade, pois talvez esse zelo burocrático tenha ajudado a facilitar os caminhos do desvio do erário publico, alimentando a corrupção.
Pois é, gente, enquanto isso, o setor privado tem de direcionar a criatividade para entender essa relação mal resolvida do setor público com o setor privado e pensar, a cada dia inflacionário, como “se virar nos 30”.