João Alfredo Lopes Nyegray - Professor de Geopolítica e Negócios Internacionais
Ainda que sir Halford John Mackinder, geopolítico britânico, não tenha sido o responsável por cunhar o termo “geopolítica”, seus trabalhos seguem entre os mais importantes dessa área do conhecimento.
Depois de presenciar os exaltados e beligerantes ânimos dos países europeus no decorrer do século 19, Mackinder percebeu que, aos poucos, o poderio britânico perdia preponderância, em um mundo em que o transporte terrestre poderia alcançar regiões em que a poderosa marinha britânica jamais estaria.
Foi Mackinder que percebeu que a Rússia é uma fortaleza terrestre natural: ártico ao norte – àquela época congelado, hoje nem tanto –, estepes cazaques ao sul, montanhas mongóis e deserto de Gobi a sudeste dariam aos russos uma proteção “natural” contra invasões de outros países. Em seu lado mais oriental, o Oceano Pacífico não daria acesso a nenhum grande centro econômico russo.
Percebendo esse cenário, Mackinder sugeriu, após a Primeira Guerra Mundial, separar a Rússia do que chamava de “perigo alemão” por uma série de “Estados tampão”.
Seriam Estados independentes do Mar Báltico ao Mar Negro, cujo objetivo seria dificultar uma aliança entre Alemanha e Rússia. Deriva daí o surgimento de nações cujos territórios vieram das potências que perderam a Primeira Guerra, em especial o Império Austro-Húngaro e a Alemanha.
No fundo, os “Estados tampão” – Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Bulgária, Romênia, Iugoslávia, entre outros – não se mostraram fortes o suficiente para conter qualquer avanço alemão ou russo.
A diversidade de idiomas e de visões políticas e o tamanho territorial pequeno, que representa recursos naturais escassos, não permitiria a essas nações impor-se contra qualquer grande potência.
A falha de Mackinder fica clara não apenas com essas constatações, mas também com a invasão russa à Ucrânia.
Essa invasão, que desafia a ordem mundial e pode representar uma grande ruptura geopolítica, é notadamente uma afronta ao Direito Internacional e aos tratados globais, entre os quais a Carta da ONU e o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança.
Em paralelo a tudo isso, há outro ponto bastante incômodo a respeito do qual pouco se tem falado: o silêncio chinês.
Putin visitou Xi Jinping na ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno e saiu de Pequim com o apoio chinês.
Na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a representante chinesa foi extremamente breve e afirmou que a China não concorda com sanções econômicas e acredita que essa iniciativa é inócua.
A pergunta que fica no ar, e arrepia a espinha até dos mais fortes, é: estariam os chineses cogitando fazer algo semelhante com Hong Kong e Taiwan?
Sabemos dos exercícios militares marítimos e aéreos próximos a ambas as ilhas, e sabemos também que a China tem constantemente pressionado as duas ilhas, retirando liberdades e direitos de seus cidadãos, como já fez há décadas com aqueles que habitam a China continental.
De um lado, sabendo que a Rússia seria alvo de intensas sanções econômicas, o líder russo vem guardando dólares há anos e hoje afirmou ter mais de US$ 700 bilhões em reservas.
Rússia e Ucrânia são responsáveis por quase um terço de todo o trigo produzido no mundo, exportam petróleo, gás natural e fertilizantes. Exceto pelo trigo, o mundo conta com outros fornecedores desses itens.
De outro, Hong Kong e Taiwan têm economias muito mais complexas, e são grandes geradoras, produtoras e exportadoras de produtos de tecnologia.
Trata-se de produtos que dificilmente se pode encontrar outros fornecedores com facilidade. Na quinta-feira (24), enquanto o mundo olhava atônito para o leste europeu, nove aviões militares chineses invadiram o espaço aéreo de Taiwan – que emitiu um alerta a esse respeito.
A pandemia já colocou nossa geração nos livros de história. O que estará nas próximas páginas?