Gilberto verardo - Psicólogo/psicoterapeuta
A palavra “inflação” tem três sentidos e quatorze sinônimos. Melhor ficar nos três sentidos: crescimento exagerado, aumento de volume e imodéstia e presunção. Nada de útil, a não ser infernizar a vida dos mais pobres.
Os ricos não são prejudicados. Mas que é um significativo componente da construção social de muitas enfermidades, só os receitadores de medicamentos discordam, especialmente os psiquiatras.
Em uma outra dimensão, que me perdoe o pessoal do economês, mas essa palavra é um nome chique para o lucro acima de tudo e em cima de todos. Se antes era uma espécie de recompensa pelo esforço de cada um por seu trabalho, hoje, a inflação lucrativa é um nutriente do egoísmo, pessoal ou corporativo.
Tornou-se uma espécie de virtude de não perder nunca. As explicações para sua existência vão de lógicas a inconsistentes, mas com um fundo egocêntrico. E isso nem o melhor PhD em economia coloca em dúvida.
Todos os componentes da cadeia econômica têm apenas um princípio: lucrar sempre, de forma imediata, a médio ou a longo prazo. Tornou-se um mantra. Neste mundo, não há santos. A vida do economês deve ser um tédio numérico, já que são infinitos e ansiógenos, dão mais sede ao pote do que saciedade existencial.
Enfim, é um saco sem fundo criado para poucos lucrarem sobre muitos. Além do mais, o lucro inflacionado gera objetividade com distanciamento emocional. É a escolha consciente e deliberada sobre um tipo especial de solidão: só, mas com grana.
Tem gente que compara o lucro à “mosca azul” de que falam os entendedores do poder. Uma vez picado, está contaminado, torna-se uma espécie de tóxico necessário para os ricos e um sofrimento para os pobres.
Como sonhar não custa nada, assim mesmo a máquina econômica vê lucro em tudo que toca ou coloca números. Um tipo de Rei Midas hipermoderno. O marketing e a estatística são componentes etílicos desse sonho que nunca vira realidade, por causa da inflação dos desejos cifrados.
Agora, com as consequências climáticas desse sonho economês e com o ditador virótico, o cansativo nCov2019 colocou o mundo doutrinado pelo perfume do lucro em um mesmo saco existencial.
Entre contaminados e não contaminados, não há ricos ou pobres, poderosos ou obedientes, apesar da falta de escrúpulo do capitalismo farmacêutico e de seus interlocutores nesse período de fragilidade do modelo social e de suas promessas sempre de um amanhã longevo e promissor, que nunca está ao alcance dos opositores da inflação.
Aliás, todos poderiam acordar do sonho nunca terminado e se inspirar no pessoal da Central Única das Favelas (Cufa). Um sucesso hipermoderno de generosidade solidária, compatível com os novos tempos climáticos.
A vida humana, por conta de tudo isso, especialmente incluindo a qualidade dela, foi para o espaço, que não é aquele dos bilionários, que foram dar uma voltinha por lá enquanto o mundo cá embaixo entra em convulsão de valores, de discrepâncias visíveis de educação e de informação, de afeto e de vazio existencial.
Estou repetindo muito essa palavra, mas é para falar de uma coisa séria, que temos que pensar daqui em diante: o novo sentido para a vida.
O mesmo prometido pela Revolução Industrial, e deu no que deu: todo mundo fazendo um esforço psíquico para não entrar em pânico. As situações de estresse e ansiogênicas já ficaram para trás, menos para a indústria da doença e dos medicamentos.
A inflação é um instrumento amoral do lucro. Neste período pandêmico, legitimaram-se os vilões da ganância. Bastou mover um preço apenas da sua estabilidade e já foi o suficiente para tirar as máscaras dos mercadores, nada humanizados, porém bem capitalizados, para financiar seu bunker pessoal e solitário, mesmo rodeado de pessoas.
E o mundo virou uma grande colcha de retalhos, cada pedacinho dela pretendendo ser a colcha inteira. Enfim, todos pretendendo ser o centro de tudo. Esquecem que a sociedade é uma grande orquestra. Os governantes são os maestros, e os cidadãos, os músicos, tocando por meio da mesma partitura para compor a grande obra musical chamada vida.